I. A Obra Original
Há obras que não pertencem apenas a quem as criou; pertencem ao espírito de um povo.
O Auto da Compadecida,de Ariano Suassuna, é uma dessas raras epifanias em que teatro, cinema, filosofia e fé se encontram sob o mesmo sol e, lapidados, talhados durante uma vida, emergem como uma imaculada obra arrebatadora.
Ariano não escreveu apenas uma peça: ele escreveu um evangelho de um país, de um povo.
Seu texto é um milagre de conciliação entre o trágico e o cômico,o erudito e o popular, o humano e o divino.
João Grilo e Chicó são arquétipos e,ao mesmo tempo, vizinhos.
A Compadecida é mãe e misericórdia,mas também voz de justiça poética.
Ali,entre as poeiras do sertão, o Armorial se manifesta: a nobreza do povo, o ouro espiritual escondido no barro da vida sob o olhar da experiência emergida na vivência sertaneja, no imaginário popular, é sanguíneo.
O filme de 2000, dirigido por Guel Arraes, foi uma das mais fiéis traduções desse espírito.
Não pela literalidade,mas pela reverência estética, pela fidelidade poética, pela curadoria do próprio autor, pela delicadeza de trazer com honra o espírito daquela obra e as bases de sua grandeza teatral. A trilha sonora, o enquadramento, a atuação: tudo respirava o mesmo ar de Ariano, o da arte feita com inteligência e alma, com respeito à língua, à cultura, à transcendência do homem, à cor, ao olhar, ao sabor. É tangível e, ao mesmo tempo, imensurável.
Ver O Auto da Compadecida é deslumbrar a encarnação da cultura e, ao mesmo tempo, a magnitude do potencial humano de criar beleza, poética, magia e emoção.
Eu vi essa obra mais de cinquenta vezes. Li mais de dez.
Cada leitura me revelava uma camada nova:simbólica, filosófica, histórica, estética, poética.
A genialidade de Suassuna é dessas que se desdobra,nunca se esgota.
O Auto é, talvez, o mais alto feito artístico da cultura brasileira.
E, há de se dizer, sou suspeita: da linguagen humana e seu papel.
II. A Profanação
Quando anunciaram O Auto da Compadecida 2, senti medo.
Não medo da decepção, mas medo do desrespeito.
Há obras que não pedem continuação.
Pedem silêncio, reverência, cuidado.
Diante de uma indústria que tem por hábito recorrer à nostalgia para vender e lucrar, nada muito além disso era esperado.
Mas até minha iminente decepção foi superada; o que vi foi, sobretudo, uma profanação.
Assistir àquela profanação foi como assistir ao assassinato de um ecossistema rico, e imediatamente, à exumação violenta de seu corpo sagrado. Foi, em palavras literais, como ver o cadáver de um familiar ser profanado e revertido em um fantoche opaco e sem alma, que encena uma caricatura pérfida de sua vida.
Chorei durante o filme e durante dias depois.
Não foi emoção estética: foi agonia espiritual e sobretudo luto.
O que fizeram com O Auto não foi apenas um erro de roteiro ou direção; foi, sobretudo, um crime. E, além de crime, sintoma da crise estética, moral e cognitiva da humanidade, provocada pelo capitalismo e pelo imperialismo cultural.
A autenticidade virou caricatura; o humor, paródia; a compaixão, produto. A riqueza, ignorância.
Ariano Suassuna, que lutou contra o vazio da indústria cultural, contra o colonialismo estético, contra o riso vazio, foi transformado em produto caricato, sintético, artificial, de consumo rápido.
Maculação em sua definição e em todos os sentidos: artística, poética, cultural, religiosa.
O Auto 2 não é continuação; é uma aberração.
Apagaram a dignidade da obra, sua dança magistral entre o céu e a terra, entre redenção e miséria, entre o amor e o medo, entre a fome e o desejo.
Apagaram o sertão como símbolo metafísico em sua beleza inata, em sua vida, e o reduziram a uma pobre caricatura grotesca, sudestina (e nada menos que ignorante).
Apagaram o Armorial, o gesto que buscava unir, talhar o que há entre o barro e o espírito, e colocaram no lugar o plástico estéril.
Foi como ver a memória nacional sendo desfigurada diante dos nossos olhos.
E o mais cruel: sob aplausos distraídos, sob o riso fácil de quem não percebeu o que estava sendo profanado. E a conivência, comprada, dos artistas que se propuseram a tal.
III. O Luto Cultural
Desde então, carrego esse luto, buscando uma forma de expressá-lo, dado que não sou, nem de longe, uma estudiosa do cinema, da arte armorial ou da vida de Ariano.
Mas sou alguém com o luto não de uma fã decepcionada, mas o luto de quem viu a morte simbólica de algo que amava e sabia o quanto era precioso.
Porque O Auto da Compadecida não é apenas arte.
O Auto é a riqueza histórica, da crítica profunda, da reflexão religiosa, através da suprema técnica que só uma vida inteira dedicada à literatura popular poderia costurar em uma magistral tapeçaria linguística, gramatical, poética e filosófica.
Não mais que o resultado de uma vida em prol da linguagem e seu papel fundamental e belo.
Mas a cultura contemporânea parece ter se esquecido de que a arte é um ato sagrado.
Não se trata de nostalgia, mas de ética estética , cultural e filosófica.
Ariano dizia que o artista deve “transformar a dor em beleza e a beleza em luz”.
O que se fez em Auto da Compadecida 2 foi o contrário: transformaram a luz em marketing, a beleza em mercadoria, a dor em paródia.
Tudo muito bem colorido e muito bem patrocinado, em cada composição pobre de cenário, nas marcas de produtos escaradamente regendo o filme, até a trilha sonora muito bem comprada para se vender sobre a onda nostálgica nordestina.
A explícita sensação de estar vendo um comercial de 1 hora e 52 minutos.
E, sim, eu fico revoltada.
Porque o Auto é mais do que uma peça ou um filme; é uma oração disfarçada de comédia e tragédia.
Filha da tradição!
Da tradição que popular no cordel, da tradição literária e teatral, espanhola, latina, europeia de que Ariano bebia e com maestria tecia os fios poéticos de cada linha dessas obras.
A profundidade da vivência humana que só poderia ser capturada por quem viveu na pele.
Tenho a forte convicção de que o roteiro dessa profanação foi gerado por IA da maneira mais preguiçosa possível, despido de qualquer resquício de alma.
Ele tenta o tempo inteiro performar uma profundidade e um lirismo que são antagônicos à sua própria existência.
Tenta a todo momento se justificar em movimento patético de quem sabe a barbárie e o fracasso do que está fazendo.
Todo o enredo é simplesmente aberrativo.
De cara, temos a visão da cidade de Taperoá gerada artificialmente, destruída, abandonada, maculando tudo que a obra original propunha, e esteticamente pobre, com uma paleta de cores pensada para as mídias sociais, grotesca.
Apresenta, em poucos segundos, tudo que é preciso saber sobre aquele "filme".
E logo em seguida, Chicó, pobre, em vestes sujas, triste, indo até uma torneira velha em meio aos escombros abandonados da cidade, com seu balde enferrujado, para buscar o estereótipo máximo da dor nordestina: a água.
Está aí dada a pobreza e a ignorância em sua máxima.
Na obra,o drama da fome, da pobreza, da dor sertaneja inicia-se e transcende o espírito, tecendo uma crítica ao dilema fundamental do opressor e do oprimido, do trabalho, da miséria como herança colonial, da moeda como senhor da vida, sobre o papel político da fé, mas sobretudo ontológico. Tudo sobre a trágica e cômica poética que nem mesmo Dante conseguiria tecer com tal maestria.
A grandeza aqui é equivalente à ferida.
Demorei muito a escrever esta crítica, pois temia que meus sentimentos profundos interferissem na objetividade. Porém, reconheço que tal cisão seria impossível.
Embora, ao ver o "filme", meu espírito tenha sido tomado por uma profunda convicção de que a cultura contemporânea teria chegado a um estado irreparável de decadência, e que aquilo que acabara de presenciar era apenas mais um dos tantos sintomas dessa decadência gerada pela indústria cultural, pela corrupção do capital, mas desta vez sobre o sangue maculado da magnitude dessa obra. Sendo assim, a grandeza (desta crítica) está na profundidade de sua perversa existência, magistralmente avessa ao milagre que profana.
Talvez esta crítica seja, no fundo, uma reza.
Uma tentativa de pedir perdão à Compadecida.
Que em sua vital compaixão rogue por nós.
E ao fim desse texto, finalmente posso, depois de duras lágrimas, rogar com o pouco que aprendi com essa sublime obra:
"Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem."