“Vingadores: A Era de Ultron” chega aos cinemas com a difícil missão de superar o seu antecessor, considerado o melhor filme da Marvel. Em 2012, ninguém esperava tanto, talvez a expectativa fosse bem menor do que a que foi criada hoje em dia. O resultado foi surpreendente, “Vingadores” conseguiu agradar a toda uma multidão que lotou os cinemas naquele ano. Hoje, a expectativa é muito maior, colossal na verdade, alimentada ainda pelos 15 min de trailers que a Marvel liberava quase semanalmente. E isso é bem perigoso. A expectativa pode ser uma grande inimiga dos Blockbusters, imbatível até mesmo contra os maiores heróis da Terra.
De antemão, deixo logo a minha nota: 9,5. Digo ainda que ver um filme desses no cinema é uma experiência que todo mundo deveria conhecer. Assistir ainda na pré-estreia “antes” de todo mundo dá uma sensação de poder quase tão grande quanto ler os 5 livros das Crônicas de Gelo e Fogo e saber quem irá morrer. Além disso, há também toda aquela comoção de centenas de pessoas reunidas ali, aplaudindo ou gritando em uma grande cena de ação. Esse é o espírito de quem entra no cinema para assistir algum filme da Marvel.
É impressionante como o diretor Joss Whedon, conseguiu fazer um excelente trabalho em um filme que conta com várias estrelas do cinema. Dar espaço ao personagem não se limita apenas em filmá-lo durante as cenas de ação, mas desenvolvê-lo, torna-lo mais humano, mais profundo. É exatamente por isso que impressiona. E Whedon se sai muito bem.
Porém, enquanto alguns personagens são muito bem explorados, outros deixam a desejar. Mesmo aqueles que acabaram de surgir como o “Mercúrio” e a “Feiticeira Escarlate” (Aaron Johnson e Elizabeth Olsen respectivamente) conseguem um espaço para se desenvolver e explicar suas ambições e motivações. Andy Serkis, nosso eterno Gollum, encarna Ulysses Klaw, rival do Pantera Negra, aparecendo brevemente, só uma ponta, quase um easter egg do que está por vir. A crítica quanto a exploração superficial foi exatamente do vilão que dá nome ao filme: Ultron.
Ultron, num primeiro momento, é tenebroso, estranho, assustador. Sua consciência, uma confusão, distorcida, maléfica. Em sua mente, ele é deus, e como tal deve decidir o futuro da humanidade, e esse futuro é a extinção.
Uma ótima premissa. Ultron é um vilão com boas metáforas, excelentes discursos e conflitos internos. Motivado por um único objetivo, que em sua consciência, ao ser distorcido, torna-se alcançável. Ele é a personificação do medo. Da inteligência artificial criando vida, e se sobrepondo a existência humana.
Porém, com o decorrer do filme, parece que o diretor teve que escolher ou em desenvolver os heróis ou em desenvolver o vilão. Fica bem claro que ele optou pela primeira opção. Ultron que se apresentou um vilão em potencial, uma máquina de matar, uma consciência cibernética que ultrapassou facilmente as 3 leis da robótica de Isaac Asimov, se torna superficial, longe de ser perverso, longe de ser temível como Loki foi. Longe de ser o vilão capaz de destruir os Vingadores.
Ultron na verdade não é esse tipo de vilão. Ele é o medo, o pesadelo de Tony Stark. O conflito do Homem de Ferro em conseguir a paz. Ele serviu para implantar uma semente que crescerá nos próximos filmes na consciência de cada um dos heróis. “A Era de Ultron” não é o fim de um ciclo, como “Vingadores” foi. E sim o começo de uma era mais sombria.
Em dado momento, os heróis vivenciam seus maiores medos, seus pesadelos mais obscuros. Assim saímos do superficial e entramos na consciência de cada um. Vemos heróis humanizados, fracos, e oprimidos. Incapazes de combater seus próprios pensamentos. Afundados em conflitos internos, incapazes de solucioná-lo, incapazes de fugir deles. Ponto alto do filme sem dúvida alguma.
A crítica mais intensa ao filme aconteceu fora das telonas. Os trailers constantes da Marvel para promover o filme foram além da conta. Revelações aconteceram dentro dos trailers quando deveriam acontecer dentro da sala de cinema. Apesar de ter assistido apenas um trailer (o primeiro de todos) tive conhecimento de tudo o que se passou nos outros. Não é possível que uma empresa do porte da Marvel não saiba promover um dos seus maiores filmes sem dar spoilers. Frustrante. Nota zero pra isso.
Por fim, não há o que falar das atuações. Todos muito bem, incorporados nos personagens, sincronizados com a essência de cada um. Destaque para Scarllet Johansson e Mark Ruffalo que contracenam diversas vezes, explorando o submundo das próprias consciências. Chris Hewsworth e Robert Downey Jr. que souberam muito bem em administrar o alívio cômico. Chris Evans que soube capturar a essência do personagem deslocado no tempo, solitário, perdido num mundo que não é dele. Jeremy Renner bem mais humano, com mais espaço para desenvolver seu personagem. E por fim, Paul Bettany que interpreta o digníssimo Visão, apesar de pouco tempo que teve, se porta muito bem em cena.
A Era de Ultron marca o início do novo ciclo da Marvel, dessa vez um pouco mais sombrio, mais obscuro, mais incerto. Depois de todas as revelações e acontecimentos desse filme, os heróis não serão mais os mesmos. Ao contrário de Ultron que alcançou a singularidade, os Vingadores pensam diferente, e essa diferença pode gerar conflitos e abalar as estruturas da maior equipe de heróis do cinema.