A Espanha se mostrou forte no mundo de séries com o lançamento de La Casa de Papel, na Netflix, que se tornou, rapidamente, uma das séries de maior sucesso. Élite, de Carlos Montero e Darío Madrona, mesmo sendo igualmente um sucesso no streaming, porém, se parece uma versão adulta das séries adolescentes da América Latina vulgo Rebelde e Malhação, erro que tentou se camuflar com a introdução do Flash-Farward, o “Flash-back reverso” que, ao invés de mostrar trechos do passado, mostra trechos do futuro. Em uma série de suspense, onde o desfecho e o clímax de uma situação é a maior curiosidade do telespectador, o Flash-Farward é um recurso totalmente antagônico a esse estilo de produção, porém o verdadeiro suspense da série não é saber o que vai acontecer, mas sim como vai acontecer. O telespectador não quer saber
se Marina ou Samuel vão morrer ou desaparecer, mas como vão morrer ou desaparecer
. A inversão do foco do suspense é um recurso que torna a série diferente nesse quesito, uma pena que não se pode falar o mesmo no enredo.
Élite é clichê. Se vende como uma série diferente das produções latino-americanas focadas no público adolescente da elite, mas os estereótipos, arquétipos e a maneira alienada de apresentar temas como homossexualidade e gravidez na adolescência, apenas para se vender como “progressista” em uma sociedade ainda composta por adultos conservadores, é exatamente a mesma das séries das ex-colônias da península Ibérica. O adolescente é, mais uma vez, corrompido de seus próprios valores morais e religiosos ao passo que se relaciona com os outros personagens: Nadia deixa de
ser a “garota pura e virgem muçulmana” ao se relacionar com Guzmán
, Omar deixa de
ser “exemplo para família” ao virar traficante e ter um relacionamento homossexual com Ander
, Marina é a menina que questiona as atitudes gananciosas e capitalistas da sua família de empresários empreiteiros (responsável pela queda da escola antiga de Samuel, Nadia e Christian), relacionamentos antigos como o de
Lucrécia e Guzmán e de Polo e Carla acabam devido o aparecimento de novas pessoas
e, principalmente, pela falta de moral de uma porrada de gente nessa série.
Essa corrosão dos antigos valores morais e religiosos dos adolescentes é mostrada como se o personagem fosse se transformar em uma pessoa mais feliz sem esses valores, como é o caso de Omar que
considerou a libertação dos valores conservadores de sua família como sinônimo de felicidade e acabou sofrendo do mesmo jeito no relacionamento com Ander
. Aliás, a libertação sexual é vista como sinônimo de felicidade em Élite, pois um dos piores clichês da série, que reforça a semelhança com as novelas latino-americanas, é o fato de todos os personagens terem vida sexual ativa, todos terem relacionamentos, todos freqüentarem festas e boates como se tais coisas fossem a realidade de todo adolescente, que, não coincidentemente, são o sonho de consumo do adolescente médio contemporâneo. É nítido que a série busca audiência do público jovem em torna da personificação de suas fantasias e sonhos de consumo com base na vida da elite política e econômica, pois é muito mais fácil romantizar namoro, festas e vida sexual com o estilo fácil e tranqüilo da vida da elite do que com o estilo de vida de uma classe média ou baixa cheia de rotinas de trabalho e dificuldades de renda, tática que é usada pelas novelas latino-americanas.
Mais uma prova de comprova é a semelhança entre Élite e as produções adolescentes latino-americanas são os arquétipos de personagens típicos desse tipo de entretenimento: A patricinha facilmente desprezível que inveja e quer acabar com todo mundo (Lucrécia), a menina com estilo rebelde (Rebecca), o patricinho vagabundo que só pensa em festa e pegação (Valério), a menina manipuladora (Carla), a menina “virgem e pura” (Nadia), o irmão protetor (Guzmán), a menina depressiva, que nesse caso é também a grávida adolescente (Marina), o protagonista “normalzinho” (Samuel), o casal homossexual que vai contra os valores da família (Omar e Ander), etc. Outra semelhança é como Élite demoniza a figura do adulto, que além de sempre ser uma figura de escanteio no entretenimento adolescente, ou seja, ter pouca ou quase nenhuma participação, é mostrado como ricos, malvados e gananciosos que “só pensam em dinheiro, luxo e riqueza”, onde a função do jovem é salvar o mundo da corrupção dos adultos, mesmo vivendo do salário e do luxo do mesmo. É nítido esse discurso na maneira como Marina trata os pais e como Samuel vê a investigadora com desconfiança, cuja foi
enganada pelos alunos do colégio no episódio final como um plano que eles acham que ninguém ia desconfiar
.
Élite foi criada para uma geração que cresce em uma sociedade marcada por discussões sobre gênero e sexualidade, temas que eram considerados tabus até então. Não nego que discutir machismo, homofobia, racismo, intolerância religiosa seja importante, desde que não seja através da banalização do tema abordado e da criação de um “pseudo empoderamento feminino”, que foi exatamente o que Élite fez. O roteiro da série banalizou a bissexualidade quando personagens que eram héteros, Polo, Christan,
Valério e Malick
(ou, pelo menos, considerados héteros pelo público), de uma hora para outra, tiveram relações homossexuais de uma forma espontânea e vazia, como se a descoberta da sexualidade fosse algo banal. È a hipocrisia daqueles que dizem defender representatividade LGBT, como no caso de Ander e Omar, e banalizam o mesmo tema. A vontade da série de se vender como progressista e defensora da representatividade, mas sem trabalhar essa mesma representatividade ou trabalhá-la de forma preguiçosa, é mais nítida no pseudo empoderamento feminino de três personagens femininas, Marina, Carla e Rebecca, que são mostradas como mulheres independentes que não se enquadram nos padrões de suas famílias, mas que se tornaram “extensões” de cada uma por terem exatamente o mesmo tipo de perfil. As três se relacionam com Samuel, as três vivem em estruturas familiares que lucram através de corrupção ou de práticas ilegais, as três vivem em fases de rebeldia contra as próprias famílias, as três buscam o sexo, drogas e as constantes festas que acontecem na série como refúgio, etc. É como se fosse uma mesma personagem interpretada por atrizes diferentes com nomes diferentes, mas a personalidade é a mesma.
Élite é fraca e clichê, tudo para agradar uma geração que quer ver as suas idéias representadas no papel sem nenhum tipo de elaboração, uma geração que exige representatividade no entretenimento, o que é válido e importante, mas uma representatividade que não tira o público da zona de conforto, que não entende que esse assunto é um assunto político e social, complexo e polêmico, e não pode ser mostrado através de fetiches e sonhos de consumo de jovens adolescentes. Nos últimos tempos, houve a discussão sobre a politização e representatividade do entretenimento, especialmente a cultura pop, um debate que dividia entre aqueles que “queriam ver sua HQ e seu game sem política” e aqueles que defendiam que “tudo é política”, e, realmente, tudo envolve política, sociedade, costumes, valores e representatividade, mas nem toda discussão política é trabalhada de forma elaborada, e Élite mostrou exatamente isso.