Quando achamos que nada pode nos surpreender, eis que surge "O Lado Bom de Ser Traída", um filme que promete ser um drama romântico, mas entrega um festival de clichês, atuações discutíveis e um roteiro que parece ter sido escrito em uma tarde de tédio regada a vinho barato e playlists de sofrência no repeat. Mas vamos por partes, para não sermos injustos (ou talvez sejamos, porque o filme pede por isso).
A história acompanha Babi, uma contadora traída que decide "se reinventar" ao se envolver com um juiz chamado Marco. E como se reinventar no cinema brasileiro significa imediatamente cair em uma paixão avassaladora e cheia de cenas picantes, temos aqui uma tentativa canhestra de misturar erotismo com thriller, mas que resulta apenas em um soft porn com a profundidade de uma poça d'água. A história tenta se levar a sério, mas a previsibilidade beira o constrangimento.
O filme claramente tenta surfar na onda de "Cinquenta Tons de Cinza", mas sem o charme ou a decência de uma narrativa minimamente envolvente. Tudo se desenrola com a sutileza de um rolo compressor: traição, paixão proibida, perigos iminentes, tudo costurado com um texto que parece ter sido retirado de um livro de autoajuda para mulheres em crise de meia-idade.
Giovanna Lancellotti, a protagonista, se esforça para dar alguma credibilidade à sua personagem, mas acaba presa a uma interpretação superficial e estereotipada. O grande problema é que a história exige uma carga emocional que o elenco parece incapaz de entregar. Já Leandro Lima, que interpreta o juiz Marco, tem a expressividade de um boneco de cera, tornando difícil acreditar que ele seja um homem poderoso, charmoso e perigoso ao mesmo tempo. Em vez de um romance intenso e apaixonante, temos um desfile de olhares vazios e falas que beiram a atuação amadora.
Os coadjuvantes? Ah, esses só estão ali para preencher espaço e dizer frases genéricas como "amiga, você merece mais" ou "você tem que se jogar na vida". Parecem saídos de um comercial de perfume barato.
Se você achava que o enredo já era problemático, espere até ver os diálogos. O texto é uma colcha de retalhos de frases feitas e clichês do romance barato, com personagens dizendo coisas como "você mexe comigo de um jeito que ninguém mais mexeu" sem um pingo de ironia. Parece que os roteiristas abriram um livro de frases motivacionais e decidiram colar aleatoriamente no script.
Tentar criar um clima de erotismo com diálogos constrangedores é um crime cinematográfico, e o filme é culpado em todas as instâncias.
A fotografia tenta ser sofisticada, mas não passa de um filtro do Instagram aplicado sem critério. A iluminação exageradamente difusa dá um tom artificial às cenas, como se estivéssemos assistindo a um comercial de perfume ou a um videoclipe genérico de balada romântica. O filme não consegue decidir se quer ser um thriller erótico, um drama intenso ou uma novela da Globo, e isso reflete diretamente na cinematografia inconsistente.
Nada como uma trilha sonora que tenta ser sedutora, mas só consegue ser cafona. O filme abusa de músicas que parecem saídas de uma playlist genérica de "noite romântica" do Spotify, aquelas que tocam em bares chiques para fingir sofisticação. O resultado é que, em vez de criar atmosfera, a trilha sonora apenas amplifica o sentimento de que estamos assistindo a uma produção que quer ser mais do que realmente é.
Se você chegou até o final, parabéns! Sua paciência merece um prêmio. O desfecho é tão anticlimático quanto um fogo de artifício molhado. Depois de tantas promessas de um thriller emocionalmente envolvente, o filme entrega um final previsível, sem impacto e, o pior, sem a menor originalidade. Não há reviravoltas genuínas, nem uma resolução que justifique a existência desse filme. O público termina a sessão com a mesma expressão de quem pede um prato caríssimo e descobre que a comida veio sem tempero.
O Lado Bom de Ser Traída é um desastre cinematográfico disfarçado de drama romântico. É uma tentativa fracassada de criar uma história sensual e envolvente, mas que acaba soando tão autêntica quanto um comercial de margarina. Com um roteiro raso, atuações questionáveis, cinematografia preguiçosa e um final esquecível, este filme é uma traição à inteligência do espectador. Se há um "lado bom" em ser traído, definitivamente não está neste filme.