-
**Clube da Luta (1999) — Nota: 9/10**
*Clube da Luta* é um filme que engana o espectador de propósito. À primeira vista, parece a história de um homem deprimido tentando escapar de uma vida vazia e burocrática. Um sujeito sem nome, sem propósito e sem identidade clara, sufocado por um cotidiano medíocre, que encontra em Tyler Durden aquilo que acredita ser sua versão ideal: confiante, livre, agressivo, carismático e absolutamente sem medo das consequências.
Até certo ponto, o filme quase flerta com algo leve — uma ruptura da rotina semelhante a *Curtindo a Vida Adoidado*, onde a proposta inicial parece ser apenas sair da mesmice. No entanto, essa leitura é apenas a superfície. A partir do meio, o que era catarse vira radicalização. O clube deixa de ser um espaço de escape e se transforma em uma organização anarquista, quase uma seita, regida pela violência, pelo apagamento da individualidade e pela glorificação do caos.
O que se revela, então, não é um manifesto libertador, mas um retrato cru de homens emocionalmente imaturos, ressentidos e incapazes de lidar com frustrações. A violência deixa de ser simbólica e passa a ser um fim em si mesma. Tyler Durden, inicialmente visto como mentor e herói, se mostra completamente sem limites — e é exatamente isso que o torna perigoso. Cenas como o masoquismo deliberado de Tyler ao se deixar espancar ou o momento em que o protagonista “destrói o que é belo” ao agredir brutalmente um homem inocente expõem o vazio moral que sustenta aquela ideologia.
O famoso plot twist — a revelação de que Tyler e o protagonista são a mesma pessoa — pode parecer, à primeira vista, um clichê. Mas dentro da lógica do filme, ele é devastador. Não é apenas um truque narrativo: é a materialização de um conflito interno. Tyler não é um amigo, nem um líder — é a projeção de tudo aquilo que o protagonista reprimiu. O filme, então, deixa claro que não se trata de liberdade, mas de fragmentação psíquica.
Nesse ponto, *Clube da Luta* se aproxima de *Taxi Driver*. Ambos os protagonistas são homens desacreditados, isolados e profundamente desconectados da sociedade. Ambos constroem uma missão pessoal distorcida para dar sentido à própria existência. Ambos caminham para o colapso, flertam com o suicídio e, ao final, parecem “vencer”. Mas essa vitória é ilusória. O sistema, a sociedade e até o público tendem a legitimar a loucura quando ela se apresenta como algo grandioso ou útil.
O plano final — destruir os prédios financeiros para apagar dívidas e instaurar o caos — é cinematograficamente impactante, quase belo. E é exatamente aí que o filme testa o espectador: você se empolga, mas deveria se perguntar se aquilo é libertação ou apenas mais uma forma de destruição sem projeto real.
*Clube da Luta* não glorifica o caos; ele o expõe. Não oferece respostas fáceis e tampouco heróis confiáveis. É um filme que provoca, seduz e depois cobra. Por isso, sua força não está apenas no choque ou no twist, mas na capacidade de incomodar mesmo depois que acaba.
**Nota: 9/10** — não por ser confortável ou edificante, mas por ser honesto, inquietante e extremamente consciente do perig