Assim como Batman Begins (do próprio Nolan) e Millennium (do David Fincher) Interestelar é um filme que tinha tudo para ser perfeito, mas apenas chega perto de ir além do que nós esperávamos e, por um erro tenso, morre na proposta que encaliça as mentes de alguns cineastas e que, nesse caso, em alguns momentos, chega a estragar o que poderia ter ido até mesmo além da perfeição: a obsessão pela explicação ao espectador e por fazer o que é moralmente correto no lugar do que é logicamente certo.
Visualmente perfeito, com um roteiro cujo centro é (quase) sempre bem definido, cheio de complexas questões e ideias inteligentes, a ficção de quase três horas de duração é contemplativa, mas não meramente contemplativa. O virtuosismo técnico do Nolan é impressionante. A montagem é muito incrível (mesmo que, para mim, não se iguale à perfeição que foi a montagem de Inception). As atuações estão dentro daquilo que se espera de uma gama tão fantástica de atores. O filme ainda questiona a relação do ser humano com a ciência, provoca reflexões, cria questionamentos e inflama debate acerca de coisas menos sólidas, como fé, amor, esperança, etc.. A ambientação muito “pé no chão” prima por um realismo fantástico que só o Nolan sabe construir de maneira efetiva. Há, no filme, tudo o que se pode esperar de uma ficção científica das boas e muito mais, e é justamente nesse “muito mais” que o filme derrapa quase que feio.
Estamos diante de um espetáculo visual impecável, onde as imagens, diálogos, situações falam tudo, então, para que tanta explicação? Outra coisa que acontece no filme e que irrita é o surgimento de tantos questionamentos que o próprio roteiro não pretende responder, deixando, em alguns pontos, a sensação de vazio, de furos imensos num roteiro tão promissor. Não fosse por esses dois pontos, o filme seria uma perfeição de primeiro grau, mesmo com uma escolha que me fez querer xingar o diretor: está claro que Interestelar, apesar de crítico, inteligente, complexo e, em certos pontos, filosófico, escolhe o coração (vide a emoção) como finalização do clímax e não a razão (vide o mais lógico), que deveria ser optada para o fechamento perfeito de um espetáculo visual tão bem preparado. Temos, então, um final correto, aceitável nos padrões “morais”, mas péssimo para o que vinha sendo narrado, perdendo a coerência narrativa.
Bem, mediano, sim, o filme é, mas se todo filme mediano for como ele, que se continuem fazendo coisas assim. Lógico que, para o patamar do diretor (com ou sem endeusamento), fica a sensação de decepção, mas nunca de diminuição de seu talento. Há muita coisa aqui em Interestelar que temos de levar em conta: a primeira é que Christopher Nolan faz aquilo que todo o cineasta faz, que é simplesmente errar a mão em alguma coisa — nesse caso, justamente no roteiro; a segunda é que é impossível não concordar com a crítica estadunidense que diz que Interestelar, mesmo com a queda no nível do roteiro, firma Nolan como um dos melhores diretores de sua geração, justamente por ser uma ficção cheia de homenagens à odisseia espacial do Kubrick e por ser um filme feito para contemplação sem se limitar apenas a ela, indicando que o cinema visual pode fazer algo dotado de ideias, mesmo que, no caso do Nolan, essas ideias pudessem ter sido mais bem estruturadas; a terceira é que, assim como Inception, Interestelar é uma obra feita com/por paixão pelo diretor, sem preocupação alguma de manter um padrão, ficando evidente que o próprio espetáculo de duas horas e cinquenta minutos é para o diretor o que peças de lego são para quem é habilidoso em montá-las.
Numa nota de 0,0 a 10,0, daria 7,0 com o coração partido.