“Leve minha casa, leve o carro, leve as roupas, mas você não pode levar o espírito”. Essa música da banda The Cranberries, intitulada The End, do álbum de 2019 de mesmo nome, fala um pouco do sentimento da cantora sobre a vida, sobre as outras pessoas e sobre a arte. Em Paraíso, drama distópico da Netflix lançado em 2023, o capitalismo vence. Ele manda em tudo e convence as pessoas a entrar no sistema social que as engloba. As pessoas participam da ordem social vendendo o que lhes é precioso, como sempre. Você pode vender qualquer coisa a fim de conseguir dinheiro, mudar de vida e progredir. Em Paraíso, a distopia traz um limite à nossa busca constante por lucro: a juventude. Até por que, trocar a própria juventude por ganhos materiais parece tão extremo que se aproxima de uma loucura, um desvio grave de comportamento. Mas Paraíso está ciente disso e, em seu sólido roteiro, propõe que qualquer sociedade, mesmo uma futurista bem avançada, seria disfuncional e potencialmente destrutiva se a juventude de um cidadão virar moeda de barganha no sistema capitalista. Uma mensagem profunda e significativa, revelando o impacto de uma distopia na tentativa de elaborar uma percepção intrincada sobre até onde podemos ir em nossa sociedade e quando a sociedade perde a razão de ser, virando uma abominação lucrativa insustentável e perigosa.
Leve minha casa. Leve o carro. Leve as roupas. Mas você não pode levar a juventude.