Sinopse:
Val deixa a filha, Jéssica, no interior de Pernambuco e passa os 13 anos seguintes trabalhando como babá do menino Fabinho em São Paulo. Ela consegue estabilidade financeira, mas convive com a culpa por não ter criado sua filha. Às vésperas do vestibular de Fabinho, Jéssica decide ir para São Paulo e fazer a prova também. Val recebe o apoio de seus patrões para receber a garota, mas a convivência com é difícil. Dividida, ela precisa achar um novo modo de seguir sua vida.
Crítica:
"Que Horas Ela Volta?" é um filme que se destaca por sua abordagem sensível e incisiva das complexas relações de classe que permeiam a sociedade brasileira. A diretora Anna Muylaert constrói um retrato envolvente da vida de Val, uma empregada doméstica que, ao longo de treze anos, se vê emaranhada na dinâmica da família de seus patrões, refletindo as tensões sociais que frequentemente são invisibilizadas.
A atuação de Regina Casé é um dos pontos altos do filme, trazendo profundidade à sua personagem. Val não é apenas uma funcionária, mas uma figura quase matriarcal na vida da família que emprega, o que levanta questões sobre a natureza do trabalho, da lealdade e dos vínculos formados nesse ambiente desigual. Os diálogos e as interações entre Val e os membros da família revelam uma escala sutil de poder que vai além da mera troca de serviço por salário.
A relação entre Val e sua filha Jéssica também é um elemento central, ilustrando a tensão entre a ambição e as obrigações familiares. A escolha de Val de deixar sua filha sob os cuidados do avô, em busca de uma vida melhor, está impregnada de conflito emocional. Quando Jéssica visita São Paulo, a tensão se intensifica, confrontando a realidade das expectativas e das experiências de vida em diferentes classes sociais. As nuances desse relacionamento trazem à tona questões de identidade e pertencimento, enfatizando o preço que muitas mães têm de pagar pela busca de uma condição melhor.
Visualmente, o filme utiliza a cidade de São Paulo como um pano de fundo dinâmico, refletindo a desigualdade que existe em seus diversos bairros e a segregação social que define o cotidiano da população. Os espaços habitados por Val e sua família de patrões são apresentados com um contraste gritante, simbolizando os diferentes mundos que coexistem na mesma metrópole.
"Que Horas Ela Volta?" não se limita a ser uma crítica às desigualdades sociais; é também uma análise profunda das relações humanas, onde amor, sacrifício e a luta por dignidade se entrelaçam. O filme provoca reflexões sobre as nossas próprias vidas e como as barreiras sociais moldam nossas interações e percepções. A obra deixa uma marca duradoura, instigando o público a reconsiderar as realidades que muitos preferem ignorar.