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O Auto da Compadecida 2
O Auto da Compadecida 2
3,0
Enviada em 26 de fevereiro de 2025
Quem gostou do primeiro filme e quer mais tem a oportunidade de matar a saudade das estrepolias da dupla nordestina mais atrapalhada e prolixa do cinema nos últimos anos. Sim, João Grilo e Chicó retornam à tela grande para a satisfação geral da Nação.
Sem alterar a inspiração da obra original de Ariano Suassuna, por meio de personagens e locais, “O Auto da Compadecida 2” ganha nova roupagem, avançando no tempo – o qual sugere que a época escolhida seja lá para os anos 40 ou 50.
Dá para notar o contraste das edificações decadentes de Taperoá, situado em algum lugar remoto do Sertão, com as modernidades trazidas pelo turismo e pela comunicação de rádio. Aliás, nesse mesmo contexto, o filme se utiliza de recursos visuais e tecnológicos para recriar cenas de ação e ambientes. Isso torna a película mais próxima de experimentalismos permitidos na sétima arte.
O filme traz Chicó em meio às suas reflexões e vontade de rever o grande amigo João Grilo. Morador da igreja, Chicó dá uma de guia turístico e vendedor de artigos religiosos.
Na calada da noite, João Grilo aparece de repente, assustando o medroso amigo de aventuras. Esse medo não é novidade, mas, se no primeiro filme o medo de Chicó é mostrado o tempo todo, a plateia vai se comover com o próprio reconhecimento de que a personagem de Selton Mello não sabe ler.
O analfabetismo de Chicó será responsável pela separação dele e de Rosinha (Virgínia Cavendish). É que Rosinha deixou uma carta pouco antes de se distanciarem. Quem apostaria lá na metade do século que uma mulher desbravaria as estradas do Brasil? Rosinha é uma motorista de caminhão.
Um pouco antes da chegada de Rosinha, Chicó se engraça com uma moça vinda da cidade e a simpatia é mútua com Clarabela (vivida por Fabíula Nascimento), desenvolvendo bons lances de diversão durante a história.
Em meio às peripécias amorosas de Chicó, o pano de fundo que sustenta o filme é a idolatria de João Grilo em Taperoá. Ele é adorado como um deus por ter ressuscitado, o que se repete na segunda versão da obra de Ariano Suassuna. É possível ver rapidamente as figuras de Fernanda Montenegro, Maurício Gonçalves e Luís Mello – um ‘flash’ da versão original.
A dupla de trapalhões sertanejos conhece novas figuras como o dono da rádio local, Arlindo (Eduardo Sterblicht) e o coronel Ernani (numa interpretação caricata e válida de Humberto Martins). Mais ingredientes para João Grilo usar e abusar de sua astúcia no tabuleiro da vida.
Embora, o enredo fique um pouco longe da história original criada por Ariano Suassuna. “O Auto da Compadecida 2” traz o acontecimento insólito de João Grilo voltar à mansão dos mortos e ficar frente a frente com Nossa Senhora (a Compadecida que dá nome à obra) e o Capeta. Será mesmo que ele vai superar Jesus na quantidade de ressurreições?
Talvez o maior mérito ou brilho do filme pertença a Matheus Nachtergaele, o qual nos brinda com três interpretações: a de João Grilo, a de Jesus e a do Demônio. Particularmente, todas elas são dignas e o fato de acontecer ao mesmo tempo traduz-se em maestria.
No mais, “O Auto da Compadecida 2” levanta velhas questões ainda não resolvidas no século XXI, como o problema da seca, a posse da água, o próprio analfabetismo e o braço curto do Estado em chegar a regiões onde não há interesse de investimento. Resta ao sertanejo se apegar à religião, talvez o tema original proposto pelo dramaturgo Suassuna e que serviu de inspiração para não só um, mas para dois “Autos da Compadecida”. Um último aviso: se o cinéfilo for com a expectativa de uma obra igual à original, é bom lembrar que a versão 2 é uma adaptação livre (com pequenas pitadas de outras obras de Ariano Suassuna) do diretor Guel Arraes e dos roteiristas João Falcão, Adriana Falcão e Jorge Furtado.