Igor Emanoel
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O Sétimo Selo
O Sétimo Selo
5,0
Enviada em 19 de fevereiro de 2020
Em meio ao cenário ermo de uma praia de rochas e ondas agitadas, uma narração de requintes bíblicos indica a natureza da obra da qual acompanharemos. À primeira vista, os planos longos e estáticos do início manifestam a contemplação assídua em O Sétimo Selo. Ao contrário do aparente, tal apreciação não se dá em virtude da estética natural da locação, mas reflete os incessantes questionamentos dos quais o roteiro afrontosamente convida o espectador a indagar.

O texto possui autoria de Ingmar Bergman, que também comanda a direção, e neste filme encontra a sua maturidade cinematográfica, e o equilíbrio quase perfeito com suas raízes do teatro. Advindo desta origem, os diálogos são escritos com rebusque provocativo, isto é, monólogos asceticistas intencionalmente não dissolvidos em falas cotidianas, fazendo-se assim, enervantes o suficiente para ser uma idiossincrasia notória dos maiores louvores ao longa-metragem.

A cada nova conversa o entre o protagonista Antonius Block (Max Von Sydow) e a Morte (Bengt Ekerot), são apresentadas novas visões e vertentes de um assunto central que é profundamente dissecado: fé. Block acabara de envolver-se em uma cruzada, e ao voltar para a sua civilização natal, depara-se com a peste e a miséria, o fazendo se questionar incansavelmente sobre sua própria crença. O principal elo do público para o filme é a figura de Antonius, e suas ponderações intrigantes não dão escolhas ao espectador senão participar do debate.

Trabalhando o mesmo tema em diversas situações diferentes, o roteiro apresenta distintos pontos de vista sobre o mesmo assunto, e o faz por meio de personagens cativantes, que enriquecem a trama com convicções opostas. Destaque para o núcleo comandado por Nils Poppe, dando vida ao astuto e vivaz artista Jof. Sua trupe, colocada em circunstâncias paralelas ao do protagonista, promove comicidade inteligente, evitando que o tom ficasse excessivamente indagatório. É exatamente a diversidade opinativa fomentada pelo texto que permite ao longa não proporcionar respostas para suas perguntas, afinal, quanto maiores as explicações, maiores são as dúvidas.

Funcionando em duas frentes alternadas – humor e drama – The Seventh Seal obtém êxito em ambas, sendo engraçado e emocionante nos momentos que se propõe a isto. Contudo, a alternância entre os tons é abrupta, não havendo cuidado nas transições entre o cômico e o dramático. Por outro lado, este efeito é compensado, em partes, quando tais fatores se convergem, assim, Bergman encontra o tom definitivo do filme – um agradável e reflexivo tragicômico existencialista.

Apesar de todo o elenco estar a vontade em seus papéis, e a Morte de Ekerot ser visualmente simples, porém, imageticamente marcante, há personagens que sobram. O maior demérito vai para o trio composto por Gunnar Olsson, Inga Gill e Inga Landgré, que pouco acrescentam à narrativa, se tornando uma digressão sem o mesmo poder atrativo de todo o restante.

O Sétimo Selo é a confirmação de Ingmar Bergman como um excelente diretor, (que mais tarde se provaria como um dos maiores de todos os tempos) se utilizando de alegorias provocantes para aliciar o espectador a participar incessantemente das dúvidas e ambiguidades das quais os personagens apresentam, nos conduzindo numa história moralmente épica, da qual o desfecho magnífico é um acalento para mente e coração. Em poucas palavras, poesia em forma de cinema.