Igor Catarino
Filmes
Séries
Programas
Voltar
Forrest Gump - O Contador de Histórias
Forrest Gump - O Contador de Histórias
5,0
Enviada em 30 de dezembro de 2019
“Jenny... eu não sei se minha mãe estava certa, ou se era o Tenente Dan. Nao sei se cada um tem um destino ou se a gente só fica flutuando por acaso na brisa (do vento). Mas eu acho que talvez é os dois. Os dois acontecem ao mesmo tempo.”

Quando assisti ao filme pela primeira vez não devia ter mais que 8 anos. Foi meu primeiro “cinema de qualidade”, ou “de verdade” se você for da linha do Scorcese. Durante as 2h 22m de filme gargalhei, chorei, gritei, me assustei, comemorei, me arrepiei. Foi uma experiência transformadora. O filme foi minha porta de entrada pra esse universo da 7º arte.

Hoje, já com 21 anos, tenho o filme como o meu favorito. Tento assisti-lo pelo menos uma vez por ano. E posso garantir, com o tempo o filme só melhora! Sim, alguns efeitos especiais ficaram datados. Mas a história continua poderosa. A narrativa continua surpreendente. As músicas e as atuações continuam emocionando e arrepiando.

Robert Zemeckis (direção), Alan Silvestri (trilha sonora) e todos os envolvidos “deram à luz” uma obra prima. Mas sobre as qualidades técnicas todo mundo concorda. Os Oscars estão aí pra não deixar dúvida. No entanto sobre a mensagem do filme já não posso dizer o mesmo.

Pra alguns o filme é uma crítica à cultura norte americana pois coloca um “idiota” como seu herói máximo. Pra outros é um filme alinhado às ideias políticas de direita. Principalmente por dar uma visão negativa dos hippies e dos protestos à guerra do vietnã com isso enaltecendo a figura do soldado. Além de não permitir que Forrest possua uma ideologia, ou pensamento próprio. Também há muitos que acham que o filme fez um desserviço à história norte america. Simplificando muitos eventos históricos e colocando Forrest, um “idiota”, como seu narrador e protagonista.

Pro resto das pessoas, a maioria na verdade, o filme se trata de superar limites e alcançar seus sonhos. Seria uma “ode ao esforço e ao mérito”. Sinceramente, não sei de onde tiraram isso. Assistimos ao mesmo filme? Isso me incomodou por muito tempo. Será que eu fui o único que viu outra mensagem no filme?

Procurei em críticas, resenhas, análises, grupos de discussão por alguém que pensasse como eu. E achei umas duas pessoas que tiveram uma interpretação parecida com a minha (vale citar o canal "Meteoro Brasil", que fez um vídeo bem na minha linha de pensamento). Como somos poucos decidi escrever sobre nossa interpretação e ver se mais gente concorda.

SPOILERS ABAIXO (Sério? Você ainda não assistiu ao filme?)

Forrest é como a pena que inicia e finaliza o filme. Ele é levado pelo acaso pra qualquer lugar. Ele não possui nenhum grande sonho. E não faz escolhas pra se beneficiar. Tirando o amor que ele sente pela Janny não sobra nenhum desejo ou interesse. Todas suas “conquistas” aconteceram por acaso. Ele, diferente do restante dos personagens, não tem expectativas sobre si mesmo. A abnegação involuntária o define.

Ele faz o bem sem esperar nada em troca. Ele cumpre suas promessas, mesmo que não haja lucro ou benefício aparente em fazê-lo. Ele trata bem quem não o quer por perto. Ele vive em função dos outros, mesmo que os outros não retribuam.

Em oposição a isso Janny quer ser famosa, talvez pra preencher o vazio causado pelos abusos de seu pai. Assim ela passa a vida toda buscando formas de alcançar o amor e validação. Ela faz planos, mas sempre acaba se colocando na posição de vítima. Parece que ela não se considera “digna” de ser feliz. Ela tenta manter o controle de seu destino. Mas sempre falha. Isso só muda quando ela aceita o amor de Forrest e começa a viver em função dele e de seu filho.

O tenente Dan quer alcançar a glória militar e honrar sua família. No entanto ele falha. Perde a maioria de seus homens e as duas pernas. Seus planos foram arruinados a tal nível que morrer era mais “vantajoso” que conviver com a “derrota”. Ele perde a razão de viver, já que agora, sem as pernas, não pode mais alcançar seus planos. Quando ele, finalmente, aceita a amizade de Forrest, e decide deixar de lado seus próprios interesses, encontra um novo sentido pra viver. Alcança a riqueza e o amor.

Forrest nunca fez planos. Nunca deixou de fazer algo só porque poderia se prejudicar ou perder o controle. Mesmo assim teve uma vida que muitos consideram vitoriosa e realizou feitos incríveis. Ele não batalhou pra vencer na vida. Pelo contrário. Toda sua energia foi gasta com os outros. Por não pensar em si mesmo ele aceitava ser levado pelo acaso sem desejar ter controle das situações. E usava sua energia pra ajudar os outros mesmo sem retribuições.

Forrest é um símbolo de abnegação e amor, não de superação e conquista. Creio que a principal mensagem do filme seja: permita-se abrir mão do controle. Viva em função dos outros e não em função de si. Faça o bem sem desejar nada em troca. Ame, e se o problema for muito grande Corra, Forrest. Corra! Só assim você encontra a plenitude e felicidade.

“Jenny... eu não sei se minha mãe estava certa, ou se era o Tenente Dan. Nao sei se cada um tem um destino ou se a gente só fica flutuando por acaso na brisa (do vento). Mas eu acho que talvez é os dois. Os dois acontecem ao mesmo tempo.”