Marcio S.
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Sniper Americano
Sniper Americano
3,5
Enviada em 5 de junho de 2015
O cinema é uma arte visual que transmite suas ideias através de imagens. Sniper Americano fez parte de um debate interessante em relação ao que o diretor Clint Eastewood (que já tem um estigma de ser um republicano feroz) quis passar através das imagens. Seria uma crítica a uma propaganda americana? A resposta é: ambos. Ele quer realizar uma obra que justifique as ações do herói nacional americano, ao mesmo tempo ele quer criticar não esta guerra, mas a guerra em si. Sendo assim ele faz um filme mais para americanos assistirem, mas que por meio de suas ações anti guerra consegue expandir a gama de espectadores.
Chris Kyle (Bradley Cooper) é um texano que após ver os horrores provocados por atentados terroristas resolve se alistar como SEALs. Logo é designado para a guerra no Iraque e faz carreira como atirador de elite. Na guerra acaba se destacando como o melhor atirador.
Clint Eastwood tem realizado obras recentemente que são adaptações de pessoas públicas nos EUA. Nesse filme Jason Dean Hall escreve o roteiro adaptado do livro autobiográfico de Chris Kyle que é homônimo do filme. Muito se comentou sobre ser uma propaganda americana pró guerra, mas na verdade o filme não tem nada de a favor a guerra. Eu não li o livro, mas o que se tem é um roteiro que procura sempre justificar as ações do protagonista e das forças armadas americanas. Então antes de atirar em uma pessoa que o espectador poderia vê-lo como errado, o roteiro retorna em um flashback para tentarmos entender sua ação de atirar. É assim em outras ações como mostrar famílias que escondem armas ou atrocidades dos inimigos feitas com crianças do próprio povo. Aliás essa situação parece diretamente ligada ao primeiro alvo de nosso protagonista, mesmo que tenha sido mostrado depois. Então o roteiro quer meio que maquiar as ações da guerra e de nosso protagonista para que ao assistirmos eles possam ser justificados e assim esquecermos que esta foi uma guerra extremamente contestada pelo mundo.
Por outro lado o roteiro apesar de querer justificar não enaltece as ações das forças armadas. Pelo contrário. Ele critica a guerra e mostra o quanto ela deixa perturbadas e sequelas físicas e emocionais nas pessoas. O próprio protagonista é atingido pela loucura da guerra de modo que quando retorna para a família não consegue se libertar do que está acontecendo no Iraque (lembrando que o filme Guerra ao Terror já desenvolveu esse tema) . Sem contar a perturbação em que simples barulhos ou carros na traseira provocam. A crítica não vem só por meio do protagonista, mas sim através das mutilações causadas, as mortes de pessoas, do próprio irmão do protagonista, discursos na hora de um enterro e até através de um símbolo de um anti-herói dos quadrinhos. O Justiceiro das HQs tem o símbolo de uma caveira idêntica à que é pintada nos carros de ataque americanos e assim não podemos esquecer que ele fazia justiça pelas próprias mãos, passando por cima de qualquer lei. Por fim não podemos esquecer o próprio final do filme que soa mais uma vez como uma crítica a guerra.
Ainda falando do roteiro e como já dito não li o livro, tenho receio dele ter criado um oponente para Chris Kyle, mas que serve para fazer o roteiro ser mais envolvente (ou talvez maniqueísta). Irrita também a forma como ele faz uma propaganda idealista a eles próprios. Em certo momento Chris Kyle diz ao ser interrogado por alguma coisa que os EUA “é o melhor país do mundo”. Ao pensar sobre essa frase a vi como se fosse Eastwood falando e isso ajuda mais aos que se opõem ao filme por encararem como algo propagandista.
Ao olhar mais amplamente para o filme vemos que muita coisa funciona, como por exemplo Bradley Cooper como o protagonista. Ele parece seguro no papel e encarna seu personagem de maneira bem natural. Sua maneira de se expressar (talvez o sotaque que o texano tem de caipira) conseguiu convencer. Também há detalhes (ou cuidados) com o filme interessantes. Em uma cena Eastwood faz questão de mostrar o cotovelo de nosso protagonista, para mais tarde Cris descobrir algo de um chefe de família iraquiano somente pelo cotovelo.
Ao chegarmos no final da jornada de nosso protagonista, teremos assistido a uma boa obra, até melhor que outros filmes realizados por ele, mas ainda assim Sniper Americano é um filme muito voltado para o povo americano.