Luiz Cappellano
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Tomates Verdes Fritos
Tomates Verdes Fritos
5,0
Enviada em 28 de janeiro de 2024
Meio na contramão, vou começar pelo ponto que eu consideraria, hoje, como sendo "negativo" no filme, mas que era absolutamente usual em 1991.
Trata-se da "anedota" atual, no caso as desventuras cotidianas da personagem de Kathy Bates, Evelyn Coach, uma gordinha com baixa autoestima e que vai se empoderando ao longo do filme. Este recurso era muito utilizado na época, quando se acreditava que as audiências contemporâneas não teriam "fôlego" para assistirem a um longa de época. Foi o mesmo recurso narrativo utilizado também em TITANIC (EUA, 1997), rodado apenas seis anos depois, quando a história é narrada em flash-back pela personagem Rose, vivida por Gloria Stuart.
Mediante olhar de 2024, eu diria que o recurso é absolutamente desnecessário e apenas torna o filme mais longo, sem necessidade.
Dito isso, passamos ao que interessa, que é um retrato perspicaz e sem retoques da sociedade do sudeste dos EUA, no início do século XX, com o seu apartheid, dolorido para os negros e nem sempre convenientemente assumido ou denunciado pelos brancos, a sua hipocrisia spoiler: (exemplo máximo é o pastor que, no tribunal, jura com a mão sobre um exemplar de Moby Dick, ao invés da Bíblia, porque teria de mentir)
, as questões de gênero (machismo, misoginia, sexismo, bissexualidade) que acompanham Igdie, a anti-heroína, durante todo o filme e que possibilitam que, num cruzamento com o tempo atual (1991) leve Evelyn ao empoderamento.
Como questões secundárias/marginais no filme temos o papel de amplo espectro assumido pelas igrejas batistas na região, onde despontaram nomes como Aretha Franklin, Ella Fitzgerald, Tina Turner ainda a bostoniana Donna Summer, Mahalia Jackson, “a rainha do gospel”, o pioneiro do rock'n'roll Chuck Berry e o grande cantor de soul Otis Redding, Jr., entre outros. Temos também a ku klux klan e a nefasta influência que exerceu (e ainda exerce!) nesta região, bem como a reação a esta conjuntura, como a campanha pelos direitos civis do Reverendo Marthin Luther King (1929-1968).
Uma obra-prima sem dúvida alguma, que merece ser revisitada!