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Uma tatuagem marca o corpo de forma duradoura e não aparece do nada, pelo contrário, exige uma passagem de dor, mesmo que depois surja como efeito de prazer. Tão discutido em dias de valores e de direitos humanos, esse complexo corporal aprofunda certas cicatrizes no bom filme de Hilton Lacerda. Pode até ser clichê mostrar o nu ou inferir deboche aos valores burgueses pelo militarismo, pela religião ou pela família tradicional; o importante é perceber que a discussão não sai de "moda", ao contrário, parece mais necessária do que nunca, basta observar e ouvir as tendências conservadoras que parecem gritar do fundo de seus buracos vazios e autoritários. O sistema está aí e deixa entrever que ditaduras são sempre bem vindas. Isso me faz recorrer ao excelente "Ensaio sobre a Cegueira", quando Saramago mostra que nunca é tarde, em tempos atuais, saber que um grande olho branco paira atento sobre tudo e todos. E só ver os chamados regimes tradicionais políticos, sejam de direita ou não. O que se pode ver, enfim, na marca que se faz no corpo é o direito de pintá-lo ou exibi-lo sem a deformação inoperante do autoritarismo. Por isso, vejo "Tatuagem" como uma grande metáfora da desforra que precisa ser impressa em tempos que parecem sombrios. Todo cuidado é pouco.