Roberto O.
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Flores Raras
Flores Raras
3,0
Enviada em 20 de agosto de 2013
Sensível relacionamento entre duas mulheres chega às telas em momento apropriado

A questão da homossexualidade tem estado em evidência no Brasil. Daniela Mercury assume seu romance com a jornalista Malu Verçosa. O Deputado Pastor Marco Feliciano, Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, polemiza com o projeto de “cura gay”, gerando uma série de protestos, que chegaram à Parada do Orgulho LGBT, que reuniu em São Paulo cerca de 3 milhões e meio de pessoas na Av. Paulista. E o tema, claro, também foi colocado em voga nas manifestações populares que se espalharam por todo o Brasil durante o mês de Junho. Na atual novela das nove, o casal vivido por Marcello Antony e Thiago Fragoso contribui para manter o foco no assunto. Não há momento mais propício, portanto, do que este para a estreia de uma produção nacional que aborde o tema. O novo filme de Bruno Barreto que acaba de entrar em cartaz, protagonizado por Glória Pires, coloca ainda mais substância em toda essa série de discussões sobre o tema.
Flores Raras abriu na última sexta-feira, dia 09/08, a 41ª Edição do Festival de Cinema de Gramado, onde Glória Pires recebeu pelo conjunto de sua obra o Troféu Oscarito, prêmio concedido apenas aos grandes nomes do cinema nacional. Baseado no livro Flores Raras e Banalíssimas, de Carmen Lúcia Oliveira, o longa de Bruno Barreto (cuja filmografia inclui aquele que por muito tempo foi a maior bilheteria da história do cinema nacional, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de 1976, recorde só superado em 2010 por “Tropa de Elite 2”, de José Padilha) conta a história real deste corajoso romance que fez frente aos preconceitos em plena era de crescimento sócio-político-cultural que o Rio de Janeiro vivia nos anos 1950.
A australiana Miranda Otto (vista no 2º e 3º filmes da série “O Senhor dos Anéis”) vive a poetisa norte-americana Elizabeth Bishop, que venceu o Prêmio Pulitzer em 1956. Glória Pires faz a arquiteta carioca Lota de Macedo Soares, uma das idealizadoras do projeto do famoso Aterro do Flamengo. Tracy Middendorf, por sua vez, interpreta a dançarina Mary Morse, amante de Lota e amiga de Elizabeth. Ao deixar Nova York, para visitar sua amiga no Brasil, a poetisa acaba se hospedando na casa da arquiteta, em Petrópolis. Aos poucos surge um sentimento entre as duas, que vagarosa e progressivamente irá se transformar em um sensível e poético romance, que ao mesmo tempo fragilizará suas forças e fortalecerá suas fragilidades.
Um detalhe interessante deste filme genuinamente brasileiro é o fato de ele ser quase todo falado em inglês. Um desafio para Glória Pires? Nem tanto. “Graças a Deus, hoje temos a figura do ‘coaching’ (treinador), que ajuda demais”, ela diz a esse respeito. Sua atuação tem agradado crítica e público.
Visualmente, o filme é cheio de sutilezas, que ajudam a compor com delicadeza a história que está sendo contada, em toda a sua fragilidade emocional. Já a direção de arte garante uma reconstituição de época lírica, complementada pela bela fotografia.
Apesar de não ter sido intencional o lançamento do filme neste momento, não há dúvidas quanto à “feliz coincidência” que coloca Flores Raras em cartaz em meio a tanta polêmica e exposição.