Roberto O.
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Noé
Noé
2,0
Enviada em 7 de abril de 2014
Filme bíblico “peca” pelo excesso de espetacularização e motivações dúbias.

Se Darren Aronofsky queria incomodar com seu novo filme, ele conseguiu. O cineasta sempre propôs em seus filmes discussões existencialistas acerca do comportamento humano. Ele já havia utilizado passagens bíblicas como inspiração para outro longa, Fonte da Vida (2006), um tremendo fracasso de bilheteria, com uma história passada em três épocas diferentes, que sugeria uma evolução (ou a falta dela) da humanidade, bem como a sua busca pela redenção. Desta vez o diretor provoca a ira de nações e a decepção de plateias ao oferecer um filme que, sob o pretexto de contar uma história bíblica, exagera na fantasia e apresenta dilemas morais incongruentes.
A história de Noé é uma das mais conhecidas do Antigo Testamento. O Livro do Gênesis, o primeiro das Sagradas Escrituras, ocupa quatro de seus capítulos para narrar a história do último justo na Terra naquele período, há mais de 2 mil anos a.C., convocado pelo Criador para construir uma gigantesca arca que abrigaria, além dele e de sua família, um par de cada espécie de animal vivente, para sobreviverem ao dilúvio de 40 dias que seria lançado sobre o planeta inteiro, ‘lavando-o’ de toda a perversidade da raça humana, corrompida pelo pecado. Após as águas baixarem, Noé, sua parentela e todos os animais que foram salvos pela monumental embarcação passariam a ter diante deles uma Terra novinha em folha, e uma oportunidade divina de reabitá-la, repovoá-la e, com isso, reconstruir toda a humanidade. Esta história poderia render um belíssimo filme... poderia. O que Aronofsky faz, no entanto, é um filme dividido em duas partes muito distintas (e nenhuma delas satisfatória), a primeira, com elementos de fantasia suficientes para nos fazer pensar que o diretor buscou inspiração em J. R. R. Tolkien, e a segunda abordando dramas familiares que incluem a dúvida do protagonista diante do propósito de sua missão, uma dúvida jamais mencionada na Bíblia.
Baseando-se em um versículo do Genesis que atesta a presença de gigantes caminhando sobre a Terra, o cineasta coloca em cena os Guardiões, uma espécie de “transformers de pedra”, que interagem com os humanos. E da descendência de Caim, aquele mesmo que matou seu irmão Abel, o roteiro traz Tubal-Cain (Ray Winstone) e sua tribo para antagonizar com Noé, vivido por Russell Crowe – Oscar de ator pelo épico romano Gladiador (2000), de Ridley Scott – e sua família. Sir Anthony Hopkins é o avô de Noé, Matusalém, o homem que viveu por mais tempo na Terra, segundo a Bíblia, 969 anos. O elenco bem escolhido divide a atenção do espectador com elementos digitais que provocam as mais diversas reações. A sequência da Criação é interessante, bem como Adão e Eva no Paraíso e os irmãos Caim e Abel, mostrados rapidamente. Os pesadelos de Noé também se destacam, e causam uma sensação de paranoia similar àquela proposta pelo diretor em Cisne Negro (2010). No entanto, um dos momentos que mais poderia despertar a curiosidade é mostrado com uma deprimente superficialidade, os animais entrando na arca. São três ou quatro cenas (com animais construídos digitalmente) que duram apenas poucos segundos. Outra oportunidade drasticamente desperdiçada foi mostrar o dilúvio em si, que não nos traz a dimensão da situação, ou seja, a Terra totalmente coberta pelas águas. As Aventuras de Pi (2012) de Ang Lee apresentou um oceano digital a perder de vista que encontraria em Noé uma contextualização perfeita. Mas Aronofsky preferiu abusar do espetáculo desnecessário no primeiro ato do filme, e ocupar-se de apenas alguns poucos minutos de exibição para elementos que deveriam ser muito mais relevantes para a história, que está no imaginário de todos nós.
Uma vez dentro da arca, a família “salva” se vê envolta em conflitos. Jennifer Connelly – que já trabalhou com Aronofsky em Requiém Para Um Sonho (2000), e com Crowe em Uma Mente Brilhante (2002), filme que deu a ela o Oscar de atriz coadjuvante – confere peso dramático à Naameh, denominação que o diretor usou, extraída da descendência de Adão, para batizar a esposa de Noé, que não tem seu nome mencionado na Bíblia. Emma Watson, a bruxinha Hermione de Harry Potter, mostra maturidade ao interpretar Ila, que foi adotada pela família e se tornou par romântico de Sem (Douglas Booth), o filho mais velho do patriarca. E o Percy Jackson Logan Lerman faz o angustiado filho do meio, Cam. Está armado o cenário para os questionamentos de Noé acerca de seu encargo. Afinal, teria ele recebido um chamado divino para garantir a continuidade da raça humana ou para ser o arauto de sua extinção? Algumas das atitudes do protagonista, que não vou mencionar aqui para não estragar a surpresa (ou o desprazer) de vê-las, quase o tornam um anti-herói, provocando no espectador uma inevitável antipatia com o personagem, ainda que supostamente ele estivesse agindo com a intenção principal de obedecer aos preceitos divinos que recebeu. O roteiro ainda traça um paralelo entre Noé e outro herói bíblico, Abraão, replicando uma famosa atitude deste último, o que só contribui para a complexidade motivacional do protagonista que, repito, não encontra embasamento bíblico para suas atitudes.
Esse mar de ações dissonantes tem levado o filme a ser recebido com inaceitação por grande parte do público. A sua exibição foi proibida em alguns países do Oriente Médio, de maioria islâmica, por trair seus princípios religiosos. Os defensores do longa podem alegar que se trata apenas de uma versão livre, realizada com “licença poética”. O fato é que, independente da crença que cada um profere, sempre que uma obra é adaptada do sagrado, a possibilidade de desagradar a muitos é grande, por conta dos princípios de cada um. Seria até um bom filme, se a história que contou não fosse protagonizada por um personagem bíblico, e estivesse ambientada em outro mundo, algo do tipo “o fim da primeira geração da Terra Média”. Da forma como está, o filme “bíblico” peca (com o perdão do trocadilho) pelo excesso de liberdades artísticas que provocam o afastamento de seu público. Simplificando, este não é o Noé que conhecemos, muito menos o Noé que gostaríamos de ver. Com isso, Darren Aronofski perde a oportunidade de realizar o que poderia ter sido um grande épico.