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A Marvel desta vez realizou uma aventura épica, digna de seu protagonista.
O maior problema de “Thor” era a necessidade de estabelecer o vínculo do herói com a Terra para, posteriormente, integrá-lo a “Os Vingadores” (2012). Não é fácil criar uma associação plausível entre um personagem inspirado na mitologia nórdica e uma iniciativa governamental. E coube ao "shakespeariano" Kenneth Brannagh (que nunca tinha feito um blockbuster na vida) a ingrata façanha de tentar encontrar esse equilíbrio entre dois mundos quando dirigiu em 2011 a primeira adaptação para o cinema do famoso personagem dos quadrinhos. Resultado: O longa priorizou muito mais a conexão do herói com o supergrupo do qual ele iria fazer parte, em detrimento do desenvolvimento do próprio herói, bem como de seu universo, o que o deixava quase na incômoda condição de coadjuvante de seu próprio filme, ao contrário do que foi feito em “Homem de Ferro” e até mesmo em “Capitão América – O Primeiro Vingador”, em que suas histórias foram contadas de maneira irretocável. Mesmo com um roteiro travado (e ‘forçado’), "Thor" foi bem-sucedido ao introduzir o personagem ao grande público, e "Os Vingadores", por sua vez, se tornou nada menos do que a 3ª maior bilheteria da história do cinema, arrecadando algo em torno de um bilhão e meio de dólares em todo o globo terrestre. OK, missão cumprida, vamos para a fase dois. Nada mais justo agora que, em sua segunda aventura solo nos cinemas, e desta vez livre das amarras do roteiro que o prendiam a um projeto maior, o ‘deus do trovão’ finalmente receba a devida atenção, e é o que acontece em "Thor – O Mundo Sombrio", conduzido desta vez por um diretor com vasta experiência em séries de TV, Alan Taylor.
Após inúmeros conflitos em diversos mundos – em que acompanhamos Thor (Chris Hemsworth), com seu inseparável martelo encantado em punho (ou não), travando intermináveis batalhas juntamente com seus velhos companheiros de guerra – a paz finalmente chega aos Nove Reinos. No entanto, o líder dos Elfos Negros, Malekith (Christopher Eccleston, apático, mas não há muito a fazer com a maquiagem pesada que seu personagem exige), está apenas aguardando a data em que ocorrerá uma conjunção planetária que, juntamente com o Éter, uma substância mística há muito tempo escondida e da qual ele pretende se apossar, lhe permitirá espalhar as trevas por esses nove mundos, o que inclui Asgard e a Terra. Por uma dessas inverossimilhanças que inevitavelmente acontecem em filmes do gênero “super-herói”, encontramos em Londres a jovem cientista e pretenso par romântico do herói, Jane Foster (Natalie Portman) que, ao procurar por anomalias semelhantes à que causou a ‘queda’ de Thor na Terra no filme anterior, acaba encontrando justamente a fenda espacial que vai associá-la diretamente aos planos do vilão, de maneira que Thor, ao reencontrá-la, a leva para Asgard. Para impedir os planos de Malekith, Thor precisará de toda ajuda possível, mesmo que para isso tenha que desobedecer a seu pai, o Rei de Asgard, Odin (Antony Hopkins), e colocar em prática um plano que inclui libertar seu irmão, Loki (Tom Hiddleston), aprisionado na masmorra real após a destruição que causou em Nova York, vista em “Os Vingadores”.
Hiddleston dá o “Tom” ao seu personagem, que vive pela terceira vez, e que melhora a cada ato. Seus conflitos familiares, e suas exaltadas discussões, principalmente com seu irmão, em que testemunhamos seu cinismo, sempre acompanhado de um sorriso sarcástico, nos fazem querer vê-lo em cena ainda mais. O irmão de Thor foi composto pelo ator com tamanho carisma que seguramente faz dele o melhor vilão da Marvel no cinema, até agora. Dose semelhante de carisma não se aplica a Chris Hemsworth, com o qual é mais difícil haver uma identificação por parte do público, muito provavelmente devido à ‘divindade’ de seu personagem. Essa identificação cabe ao ‘núcleo terrestre’, liderado, claro, por Natalie Portman, com sua equipe de cientistas ‘quase malucos’. Este é um momento oportuno para citar o humor presente no filme, distribuído em doses certas, e criando algumas situações divertidíssimas (a ‘tirada de sarro’ de Loki no Capitão América é impagável).
O diretor Alan Taylor, que viu seu prestígio aumentar graças à forma como tem conduzido séries de TV, como a bem-sucedida “Game Of Thrones”, aqui imprime sua personalidade ao aumentar a escala do filme em todos os aspectos em relação ao anterior. Cenários, figurinos, sequências de ação, trilha sonora (desta vez composta pelo jovem Bryan Tyler), tudo é mais grandioso. As vestimentas dos asgardianos no primeiro filme eram limpinhas demais, incompatíveis com um ‘povo guerreiro’. Desta vez o visual é mais rústico e desgastado, mais conveniente, portanto, com o que se espera de trajes marcados por tantas batalhas. Igualmente caprichada foi a escolha do figurino dos Elfos Negros, de visual ameaçador. E a sequência que envolve um funeral é belíssima e majestosa, trazendo à tona a cascata de dramaticidade provocada pelo luto. Taylor mostrou que tem domínio sobre o espetáculo.
A experiência de se assistir a uma obra voltada unicamente para o entretenimento, mas realizada com extremo apuro estético, se torna ainda mais prazerosa quando identificamos nela uma profusão de referências à cultura pop. A batalha épica ocorrida há milênios que vemos logo no início do filme, narrada por Odin, nos remete imediatamente à “O Senhor dos Anéis”. Em outro momento, fazendo jus ao subtítulo do filme, a trama adquire um tom extremamente sombrio, quase de pesadelo, permeado por uma coloração acinzentada em meio a um cenário hostil coberto por nuvens ameaçadoras que enfatizam ainda mais o clima assustador em que se dá um importante embate envolvendo Thor, Loki, Malekith e Jane Foster. Difícil não lembrar dos tenebrosos confrontos de Harry Potter com Woldemort travados principalmente nos últimos filmes da saga do jovem bruxo. Já as exóticas naves dos Elfos Negros invadindo Asgard e enfrentando sua resistência nos trazem à mente, claro, “Star Wars”. E o caprichado desenho de produção desta vez nos presenteia com um reino asgardiano composto por palácios e paisagens naturais de encher os olhos, que muito se assemelha à cidade vista em “Star Wars – Episódio II – Ataque dos Clones”, que serve de cenário para o romance entre Anakin Skywalker e Padmé Amidala (vivida pela mesma Natalie Portman).
As escolhas artísticas do diretor Alan Taylor, portanto, nos convidam a percorrer vários mundos, atravessar inúmeras fendas dimensionais e conhecer o universo do qual o ‘deus do trovão’ faz parte, e nos permitem finalmente ter uma vasta noção de todo o seu potencial cósmico. A Terra, que foi um dos problemas do primeiro filme, aqui está muito bem inserida no roteiro, e abriga momentos decisivos da trama. E a maneira como a história flui e nos conduz até o clímax, ainda que previsível, nos proporciona aquela sensação de satisfação plena, por termos acompanhado quase duas horas de entretenimento raso, sim, mas magistralmente conduzido. “Thor – O Mundo Sombrio”, afinal, é uma aventura épica, digna de seu protagonista.
E lembre-se de não sair apressadamente do cinema, pois, mantendo a tradição, há surpresinhas no fim do filme: uma cena durante os créditos finais e outra após, uma delas introduzindo mais um astro a essa tão bem sucedida franquia na qual se tornou a Marvel Studios que, além de nos satisfazer com o que acabamos de assistir, ainda consegue alimentar nossas expectativas para seus próximos projetos que, assim como foi com “Os Vingadores”, estão sendo criteriosamente planejados. E a julgar pelo que vemos na referida cena, a galáxia vai precisar de guardiões!
O maior problema de “Thor” era a necessidade de estabelecer o vínculo do herói com a Terra para, posteriormente, integrá-lo a “Os Vingadores” (2012). Não é fácil criar uma associação plausível entre um personagem inspirado na mitologia nórdica e uma iniciativa governamental. E coube ao "shakespeariano" Kenneth Brannagh (que nunca tinha feito um blockbuster na vida) a ingrata façanha de tentar encontrar esse equilíbrio entre dois mundos quando dirigiu em 2011 a primeira adaptação para o cinema do famoso personagem dos quadrinhos. Resultado: O longa priorizou muito mais a conexão do herói com o supergrupo do qual ele iria fazer parte, em detrimento do desenvolvimento do próprio herói, bem como de seu universo, o que o deixava quase na incômoda condição de coadjuvante de seu próprio filme, ao contrário do que foi feito em “Homem de Ferro” e até mesmo em “Capitão América – O Primeiro Vingador”, em que suas histórias foram contadas de maneira irretocável. Mesmo com um roteiro travado (e ‘forçado’), "Thor" foi bem-sucedido ao introduzir o personagem ao grande público, e "Os Vingadores", por sua vez, se tornou nada menos do que a 3ª maior bilheteria da história do cinema, arrecadando algo em torno de um bilhão e meio de dólares em todo o globo terrestre. OK, missão cumprida, vamos para a fase dois. Nada mais justo agora que, em sua segunda aventura solo nos cinemas, e desta vez livre das amarras do roteiro que o prendiam a um projeto maior, o ‘deus do trovão’ finalmente receba a devida atenção, e é o que acontece em "Thor – O Mundo Sombrio", conduzido desta vez por um diretor com vasta experiência em séries de TV, Alan Taylor.
Após inúmeros conflitos em diversos mundos – em que acompanhamos Thor (Chris Hemsworth), com seu inseparável martelo encantado em punho (ou não), travando intermináveis batalhas juntamente com seus velhos companheiros de guerra – a paz finalmente chega aos Nove Reinos. No entanto, o líder dos Elfos Negros, Malekith (Christopher Eccleston, apático, mas não há muito a fazer com a maquiagem pesada que seu personagem exige), está apenas aguardando a data em que ocorrerá uma conjunção planetária que, juntamente com o Éter, uma substância mística há muito tempo escondida e da qual ele pretende se apossar, lhe permitirá espalhar as trevas por esses nove mundos, o que inclui Asgard e a Terra. Por uma dessas inverossimilhanças que inevitavelmente acontecem em filmes do gênero “super-herói”, encontramos em Londres a jovem cientista e pretenso par romântico do herói, Jane Foster (Natalie Portman) que, ao procurar por anomalias semelhantes à que causou a ‘queda’ de Thor na Terra no filme anterior, acaba encontrando justamente a fenda espacial que vai associá-la diretamente aos planos do vilão, de maneira que Thor, ao reencontrá-la, a leva para Asgard. Para impedir os planos de Malekith, Thor precisará de toda ajuda possível, mesmo que para isso tenha que desobedecer a seu pai, o Rei de Asgard, Odin (Antony Hopkins), e colocar em prática um plano que inclui libertar seu irmão, Loki (Tom Hiddleston), aprisionado na masmorra real após a destruição que causou em Nova York, vista em “Os Vingadores”.
Hiddleston dá o “Tom” ao seu personagem, que vive pela terceira vez, e que melhora a cada ato. Seus conflitos familiares, e suas exaltadas discussões, principalmente com seu irmão, em que testemunhamos seu cinismo, sempre acompanhado de um sorriso sarcástico, nos fazem querer vê-lo em cena ainda mais. O irmão de Thor foi composto pelo ator com tamanho carisma que seguramente faz dele o melhor vilão da Marvel no cinema, até agora. Dose semelhante de carisma não se aplica a Chris Hemsworth, com o qual é mais difícil haver uma identificação por parte do público, muito provavelmente devido à ‘divindade’ de seu personagem. Essa identificação cabe ao ‘núcleo terrestre’, liderado, claro, por Natalie Portman, com sua equipe de cientistas ‘quase malucos’. Este é um momento oportuno para citar o humor presente no filme, distribuído em doses certas, e criando algumas situações divertidíssimas (a ‘tirada de sarro’ de Loki no Capitão América é impagável).
O diretor Alan Taylor, que viu seu prestígio aumentar graças à forma como tem conduzido séries de TV, como a bem-sucedida “Game Of Thrones”, aqui imprime sua personalidade ao aumentar a escala do filme em todos os aspectos em relação ao anterior. Cenários, figurinos, sequências de ação, trilha sonora (desta vez composta pelo jovem Bryan Tyler), tudo é mais grandioso. As vestimentas dos asgardianos no primeiro filme eram limpinhas demais, incompatíveis com um ‘povo guerreiro’. Desta vez o visual é mais rústico e desgastado, mais conveniente, portanto, com o que se espera de trajes marcados por tantas batalhas. Igualmente caprichada foi a escolha do figurino dos Elfos Negros, de visual ameaçador. E a sequência que envolve um funeral é belíssima e majestosa, trazendo à tona a cascata de dramaticidade provocada pelo luto. Taylor mostrou que tem domínio sobre o espetáculo.
A experiência de se assistir a uma obra voltada unicamente para o entretenimento, mas realizada com extremo apuro estético, se torna ainda mais prazerosa quando identificamos nela uma profusão de referências à cultura pop. A batalha épica ocorrida há milênios que vemos logo no início do filme, narrada por Odin, nos remete imediatamente à “O Senhor dos Anéis”. Em outro momento, fazendo jus ao subtítulo do filme, a trama adquire um tom extremamente sombrio, quase de pesadelo, permeado por uma coloração acinzentada em meio a um cenário hostil coberto por nuvens ameaçadoras que enfatizam ainda mais o clima assustador em que se dá um importante embate envolvendo Thor, Loki, Malekith e Jane Foster. Difícil não lembrar dos tenebrosos confrontos de Harry Potter com Woldemort travados principalmente nos últimos filmes da saga do jovem bruxo. Já as exóticas naves dos Elfos Negros invadindo Asgard e enfrentando sua resistência nos trazem à mente, claro, “Star Wars”. E o caprichado desenho de produção desta vez nos presenteia com um reino asgardiano composto por palácios e paisagens naturais de encher os olhos, que muito se assemelha à cidade vista em “Star Wars – Episódio II – Ataque dos Clones”, que serve de cenário para o romance entre Anakin Skywalker e Padmé Amidala (vivida pela mesma Natalie Portman).
As escolhas artísticas do diretor Alan Taylor, portanto, nos convidam a percorrer vários mundos, atravessar inúmeras fendas dimensionais e conhecer o universo do qual o ‘deus do trovão’ faz parte, e nos permitem finalmente ter uma vasta noção de todo o seu potencial cósmico. A Terra, que foi um dos problemas do primeiro filme, aqui está muito bem inserida no roteiro, e abriga momentos decisivos da trama. E a maneira como a história flui e nos conduz até o clímax, ainda que previsível, nos proporciona aquela sensação de satisfação plena, por termos acompanhado quase duas horas de entretenimento raso, sim, mas magistralmente conduzido. “Thor – O Mundo Sombrio”, afinal, é uma aventura épica, digna de seu protagonista.
E lembre-se de não sair apressadamente do cinema, pois, mantendo a tradição, há surpresinhas no fim do filme: uma cena durante os créditos finais e outra após, uma delas introduzindo mais um astro a essa tão bem sucedida franquia na qual se tornou a Marvel Studios que, além de nos satisfazer com o que acabamos de assistir, ainda consegue alimentar nossas expectativas para seus próximos projetos que, assim como foi com “Os Vingadores”, estão sendo criteriosamente planejados. E a julgar pelo que vemos na referida cena, a galáxia vai precisar de guardiões!