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Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças - 2004
(Eternal Sunshine of the Spotless Mind)
"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" é dirigido por Michel Gondry e escrito por Charlie Kaufman, baseado em uma história de Gondry, Kaufman e Pierre Bismuth. É estrelado por Jim Carrey e Kate Winslet, com Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Elijah Wood e Tom Wilkinson em papéis coadjuvantes. O filme segue duas pessoas que passam por um procedimento para apagar um ao outro de suas memórias após a dissolução de seu relacionamento.
Michel Gondry e Charlie Kaufman foram os nomes principais que fizeram "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" de fato acontecer.
Michel Gondry é conhecido por dirigir vários videoclipes famosos de várias personalidades famosas dentro da indústria musical pela MTV americana ao longo da sua carreira. No cinema, Gondry iniciou como diretor em 2001, com o longa-metragem "A Natureza Quase Humana". Depois ele dirigiu "Sonhando Mesmo Acordado" (2005), "Rebobine, Por Favor" (2008) e "O Besouro Verde" (2011). Já o roteirista Charlie Kaufman ficou conhecido após o roteiro badalado de "Quero Ser John Malkovich" (1999), onde ele conseguiu sua primeira indicação ao Oscar. Em 2001 Kaufman trabalharia com o Gondry pela primeira vez justamente em "A Natureza Quase Humana", e em 2004 eles se reencontrariam em "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", onde ambos ganharam o Oscar de Melhor Roteiro Original.
"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" é simplesmente uma pérola, uma obra de arte em forma de cinema, uma obra-prima da sétima arte, um dos melhores filmes da década de 2000. Um filme extremamente tocante, profundo, singelo, poético, verdadeiro, emocionante, lindo, belo, encantador, inovador, surpreendente, exuberante e reflexivo, ao mesmo tempo que nos confronta com o medo, a perda, o trauma, a decepção, a desilusão, a depressão e a aflição. O roteiro é de uma genialidade absurda sendo muito competente, muito inteligente, muito bem escrito, muito bem desenvolvido, muito bem transplantado para a tela, onde nos passa uma linha de pensamento acerca do passado, do presente e do futuro, que obviamente vai nos retratar sobre a humanização, a descaracterização, a desconstrução e a superação do ser humano em seu alto grau emocional e espiritual.
O fio condutor do roteiro é exatamente a forma como exploramos o passado, como encaramos os nossos sentimentos e as nossas lembranças, a forma como analisamos os nossos próprios atos, a forma como fazemos uma autoavaliação, a forma como confrontamos a nossa própria memória. É interessante notar que o texto aqui conversa diretamente com o espectador com base em um drama, em um romance e até misturando elementos de ficção científica para construir uma narrativa não linear com base na exploração da mente humana. O texto de "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" é tão inteligente, tão estratosférico, tão absurdo, que ainda podemos ir além ao analisarmos uma abordagem com elementos de um drama psicológico, um estudo da mente humana, do comportamento humano após uma perda e após uma grande decepção, um estudo de psicanálise, que é o ponto aqui ao discutimos os comportamentos disfuncionais, os traumas e até os pensamentos equivocados dos personagens em questão.
E o mais interessante no texto do longa-metragem é nos passar a percepção de simplicidade, pois de fato estamos falando de um fim de relacionamento, a famosa "dor de cotovelo", que é justamente a narrativa em questão ao nos confrontarmos com os esforços que somos capazes de fazer para esquecer um antigo/grande amor. É inegável que todos nós já passamos por um fim de relacionamento que às vezes é trágico, às vezes traumático, às vezes destruidor, às vezes conturbado, mas fato é: após um fim de relacionamento todos nós queríamos esquecer a pessoa amada. E se você pudesse de fato apagar toda a sua memória do relacionamento passado? E se nós pudéssemos simplesmente apagar da memória aqueles que mais amamos? Você se submeteria ao um processo científico para apagar aquela pessoa para sempre das suas lembranças? Até que ponto você iria para atingir esse objetivo?
Este é o principal motivo para que "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" tenha um dos melhores roteiros daquela década. Exatamente um texto que conversa diretamente com todos nós, que é de fácil identificação, que nos faz refletir, que nos faz pensar com uma trama que soa familiar, pois quem aqui nunca sofreu por amor? Quem aqui nunca sofreu com o término de um romance? E quem aqui não sentiu o desejo de apagar todas as memórias daquelas pessoas que outrora nos fizeram tão felizes? Mas fato é: nem sempre o que queremos conseguimos, às vezes essas próprias memórias nos fere e nos magoa profundamente quando são remexidas.
Eu sou um exemplo vivo de já ter sofrido com o término de um grande amor, de um grande relacionamento. Eu me coloquei no lugar do Joel (Jim Carrey), eu também sofri uma decepção e queria apagar a pessoa da minha memória para sempre. Eu só não busquei um método científico como ele buscou, mas fiz de tudo para esquecer, para apagar, mas também não consegui. Na verdade você nunca consegue deletar esta pessoa da sua memória, você pode até esquecer por algum tempo, mas apagar jamais.
Sobre os personagens:
É muito interessante acompanhar toda a construção e desconstrução do casal Joel e Clementine (Kate Winslet). Joel sofre com aquela desilusão amorosa e principalmente ao descobrir que Clementine queria esquecê-lo para sempre quando tomou a decisão de entrar no processo de deletar suas memórias. Até por um certo orgulho, uma certa mágoa e um certo rancor Joel decidi fazer o mesmo, que é passar pelo mesmo processo. O ponto-chave é exatamente o arrependimento de Joel durante o processo, onde logo ele tenta de todas as formas uma maneira de parar o procedimento. Dessa forma Joel tenta de todas as maneiras uma forma de aprisionar as memórias de Clementine que já estão desaparecendo de sua mente. Ou seja, o mundo no qual a Clementine pertence está ruindo, e é a partir daí que Joel percebe que está cometendo um grande erro, que ele não é capaz de apagá-la de sua memória, que ele não é capaz de conceber a felicidade sem aquela pessoa que ele tanto ama.
Se analisarmos friamente esta é a cereja do bolo desse roteiro que é tão genial. Exatamente a abordagem de um grande amor que falhou, que deu errado, e tudo isso acontecendo dentro da mente do Joel, que logo está em guerra com sua própria mente sobre o que de fato pode ter dado tão errado. De fato o roteiro desse filme é estupidamente genial, um dos melhores que eu já vi em toda a minha vida cinéfila.
"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" tem um roteiro teoricamente simples mas não é assim tão fácil de entender e de acompanhar em todos os seus acontecimentos. Pois o longa não conta os seus eventos em uma ordem cronológica, temos que ir construindo as nossas percepções e resolvendo os quebra-cabeça em cena após cena. O quê muita das vezes vai nos confundir acerca do presente e do passado, que logo será auxiliado por flashbacks e monólogos para nos elucidar tal acontecimento. Eu acredito que esta decisão mais embaraçosa em nos contar os fatos seja até como uma metáfora para a nossa própria memória, pois é exatamente dessa forma que acontece quando estamos buscando por nossas lembranças, que na maioria das vezes elas vão surgir de forma desordenada e totalmente aleatória. Eu achei uma grande sacada do roteiro!
O elenco é outro show à parte:
A maioria das pessoas conhecem o Jim Carrey por seus personagens irreverentes e cômicos, mas aqui ele sai dessa sua zona de conforto e nos impacta com a talvez melhor atuação de toda a sua carreira. É sempre um grande prazer poder acompanhar o Jim Carrey em um personagem mais sério, mais dramático, mais contundente, até mais que os personagens Truman Burbank ("O Show de Truman", de 1998) e Andy Kaufman ("O Mundo de Andy", de1999). Jim Carrey incorpora um personagem introspectivo, frio, obscuro, extremamente reservado, que não se abre fácil, que não demonstra seus sentimentos, que prefere expor seus sentimentos através do seu diário. Jim Carrey está perfeito, está fabuloso, está colossal, uma atuação rica em emoções e sentimentos, carregada dramaticamente, que nos desperta a comoção, a empatia e o sentimento de amor carregado com a tristeza. Eu nunca vou entender o total desprezo e preconceito que a academia sempre teve pela pessoa Jim Carrey, ao ponto de sempre esnobar todas as suas atuações, de não reconhecer o seu talento no drama. Claramente ele merecia pelo menos uma indicação ao Oscar de Melhor Ator em 2005. Mas não veio, como já não vinha nos trabalhos anteriores a este. Jim Carrey ficou com as indicações no BAFTA e no Globo de Ouro.
Kate Winslet definitivamente sempre foi a rainha da p@#$ toda! Kate sempre será lembrada como a eterna e inesquecível "Rose DeWitt Bukater", isso é inegável. Porém, ao longo da carreira ela já nos entregou outras personagens que também se tornaram inesquecíveis; como é o caso da magnífica Hanna Schmitz de "O Leitor" (2008). Clementine Kruczynski é outra personagem eternizada e humanizada da Kate Winslet, que ficou para sempre em nossas memórias e jamais queremos apagá-la. Kate deu vida para a complicada Clementine, que por si só já se mostra com uma personalidade forte, potente, impulsiva, espontânea, rebelde, desbocada, comunicativa, ciumenta e problemática. Clementine usava seu cabelo de diversas cores, e isso traz uma alusão ao momento atual de sua vida: como o azul de esperança quando ela conhece o Joel, logo após o vermelho da paixão avassaladora e depois o verde desbotado que simboliza o desgaste emocional e sentimental.
Kate criou mais uma personagem inesquecível, que entrou para a história da cultura pop dos anos 2000. Uma atuação impecável e irretocável, que lhe rendeu a sua quarta indicação ao Oscar de Melhor Atriz.
Kirsten Dunst com apenas 21 aninhos vinha da sua personagem mais lembrada na carreira até os dias de hoje - a incrível Mary Jane Watson de "Homem Aranha". Aqui Kirsten trouxe a personagem Mary, que é a recepcionista da clínica Lacuna, que fornece o serviço de apagar as lembranças. Mary é encantada pelo trabalho que a clínica pratica e possui uma admiração (e um interesse) pelo seu chefe. Temos todo um contexto por trás da personagem que descobre que foi uma cobaia da clínica ao ter as suas lembranças também apagadas, o que a leva a revelar a verdade para todos os pacientes da clínica. Gostei muito da atuação da lindíssima Kirsten Dunst.
O mestre Tom Wilkinson sempre esteve no auge da carreira e já nos entregou cada personagem memorável que fica até difícil comentar. Posso citar o fabuloso Padre Moore do clássico cult "O Exorcismo de Emily Rose" (2005). Tom é Howard, o dono da clínica Lacuna, sendo o principal responsável pelas intervenções na mente dos pacientes. Howard já se utilizou dos interesses amorosos da Mary anteriormente, já fez o procedimento de apagar as memórias nela, e sempre defende que sua causa é estar fazendo o bem para as pessoas, lhe dando a chance de começar uma vida do zero. Mais um trabalho memorável do grande Tom Wilkinson.
Elijah Wood, o eterno e icônico Frodo Bolseiro da franquia "O Senhor dos Anéis". Elijah é o empenhado (e talarico - kkk) Patrick, um dos dos técnicos que a empresa Lacuna envia para a casa dos pacientes, para apagar suas lembranças enquanto dormem. Interessante que o Patrick começa a se interessar pela Clementine enquanto ela está dormindo durante o processo. O que logo o leva a roubar os objetos do Joel na intenção se passar pelas memórias dele para conquistar ela. Elijah Wood conseguiu gerar cenas bem interessantes para todo o contexto da história.
Mark Ruffalo, o eterno Bruce Banner de "Os Vingadores". Mark era o Stan, outro dos técnicos que auxiliava o processo da clínica na casa dos clientes. Stan tinha um relacionamento com a Mary, enquanto ele não sabia de grande parte dos acontecimentos dela. Mark Ruffalo está bem convincente no personagem.
Tecnicamente e artisticamente o longa-metragem é ainda mais perfeito:
A trilha sonora do filme foi composto pelo músico de Los Angeles Jon Brion, que por sinal é impecável, magnânima, elegante, penetrante e emocionante. Aquela versão de "Everybody's Got to Learn Sometime" é pra chorar no banho de tão emocionante em cena. A fotografia de Ellen Kuras é potente, é avassaladora, é bastante perceptível e se destaca com bastante harmonia. A direção de arte de David Stein (o homem por trás da direção de arte de "12 Anos de Escravidão" e "Cisne Negro") é outra peculiaridade, sempre agregando os detalhes mais minuciosos, sempre atento com os padrões de cenários mais contemporâneos. "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" se sobressai principalmente por ser bem montado, bem editado, bem mixado, bem arquitetado, com detalhes técnicos que saltam aos nossos olhos pela excelência de uma qualidade em altíssimo nível.
Não posso deixar de destacar a direção elegantérrima e acertadíssima do diretor Michel Gondry, que teve a ideia de fazer um filme como "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças" após seu amigo artista plástico Pierre Bismuth sugerir a história de um personagem que encontra um cartão no caixa de correio com a mensagem: "alguém que você conhece apagou você da memória".
Já a origem do título do filme foi retirado do poema "Eloisa to Abelard", de autoria de Alexander Pope. O mesmo poema já havia sido usado pelo roteirista Charlie Kaufman em "Quero ser John Malkovich".
"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" foi um sucesso de bilheteria, arrecadando $ 74 milhões em um orçamento de $ 20 milhões, e foi nomeado pelo American Film Institute um dos 10 melhores filmes de 2004.
Prêmios:
OSCAR 2005
Ganhou: Melhor Roteiro Original
Indicação: Melhor Atriz - Kate Winslet
GLOBO DE OURO 2005
Indicações:
Melhor Filme - Comédia/Musical
Melhor Ator - Comédia/Musical - Jim Carrey
Melhor Atriz - Comédia/Musical - Kate Winslet
Melhor Roteiro
BAFTA 2005
Ganhou: Melhor Roteiro Original e Melhor Edição
Indicações:
Melhor Filme
Melhor Diretor - Michel Gondry
Melhor Ator - Jim Carrey
Melhor Atriz - Kate Winslet
Em outubro de 2016, o Anonymous Content anunciou que trabalharia com a Universal Cable Productions para produzir uma série de televisão baseada no filme. Charlie Kaufman não está envolvido na escrita do show. O projeto ainda está em fase de planejamento. Em 2023, ainda não havia sido lançado, apesar de seis anos de trabalho no roteiro.
No Rotten Tomatoes, o longa tem um índice de aprovação de 92% com base em 250 resenhas, com nota média de 8,50/10. No Metacritic, o filme tem uma pontuação de 89 de 100, com base em 41 críticas, indicando "aclamação universal". No CinemaScore, o filme tem uma nota média de "B-" na escala A + a F.
O desempenho de Kate Winslet ficou em 81.º lugar da lista das "100 maiores atuações de todos os tempos" da revista Premiere. Em 2013, o filme ficou em 24.º lugar da lista dos "101 maiores roteiros" da Writers Guild of America. O filme ficou em 78.º lugar na lista dos "301 Melhores Filmes De Todos os Tempos" da revista Empire em 2014.
"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" é aquele clássico cult amado, respeitado e idolatrado por todos os seres que respiram. Uma obra extremamente importante, influente, contundente, peculiar, singela e contemporânea, que nos leva a bordo de uma história de perdas e recomeços, de decepções e ilusões, de traumas e conquistas, expondo um olhar mais ríspido e sincero sobre relacionamentos e mágoas. Uma obra que transmite sentimentos, que nos toca verdadeiramente, que nos emociona instantaneamente, que nos transmite uma aura de realismo e nos impacta com lições sobre como um verdadeiro amor pode ser lembrado, renovado e muitas das vezes reconquistado.
O longa nos ensina que nem sempre iremos aprender com nossos erros, mas precisamos persistir, ir além, não se dar por vencido. Também aprendemos que as lembranças existem e sempre vão estar ali, no fundo da nossa memória, impossíveis de serem apagadas, pois as lembranças podem ser ruins por nos fazer sofrer com sentimentos perdidos no passado, mas também podem ser benéficas nos ensinando lições importantes para nosso futuro.
"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" é um clássico de amor dos tempos modernos. Uma verdadeira lição de vida. A representação mais pura do amor em seu estado mais bruto e poético. Um dos romances mais aclamados da década de 2000. Um dos responsável em definir o cinema da década de 2000. Um dos roteiros mais geniais da década de 2000. Presente em qualquer lista dos melhores filmes da década de 2000.
Um clássico eterno!
Uma obra-prima da sétima arte!
Meu filme de cabeceira!
Meu filme da vida!
⭐⭐⭐⭐⭐
[03/08/2023]
(Eternal Sunshine of the Spotless Mind)
"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" é dirigido por Michel Gondry e escrito por Charlie Kaufman, baseado em uma história de Gondry, Kaufman e Pierre Bismuth. É estrelado por Jim Carrey e Kate Winslet, com Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Elijah Wood e Tom Wilkinson em papéis coadjuvantes. O filme segue duas pessoas que passam por um procedimento para apagar um ao outro de suas memórias após a dissolução de seu relacionamento.
Michel Gondry e Charlie Kaufman foram os nomes principais que fizeram "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" de fato acontecer.
Michel Gondry é conhecido por dirigir vários videoclipes famosos de várias personalidades famosas dentro da indústria musical pela MTV americana ao longo da sua carreira. No cinema, Gondry iniciou como diretor em 2001, com o longa-metragem "A Natureza Quase Humana". Depois ele dirigiu "Sonhando Mesmo Acordado" (2005), "Rebobine, Por Favor" (2008) e "O Besouro Verde" (2011). Já o roteirista Charlie Kaufman ficou conhecido após o roteiro badalado de "Quero Ser John Malkovich" (1999), onde ele conseguiu sua primeira indicação ao Oscar. Em 2001 Kaufman trabalharia com o Gondry pela primeira vez justamente em "A Natureza Quase Humana", e em 2004 eles se reencontrariam em "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", onde ambos ganharam o Oscar de Melhor Roteiro Original.
"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" é simplesmente uma pérola, uma obra de arte em forma de cinema, uma obra-prima da sétima arte, um dos melhores filmes da década de 2000. Um filme extremamente tocante, profundo, singelo, poético, verdadeiro, emocionante, lindo, belo, encantador, inovador, surpreendente, exuberante e reflexivo, ao mesmo tempo que nos confronta com o medo, a perda, o trauma, a decepção, a desilusão, a depressão e a aflição. O roteiro é de uma genialidade absurda sendo muito competente, muito inteligente, muito bem escrito, muito bem desenvolvido, muito bem transplantado para a tela, onde nos passa uma linha de pensamento acerca do passado, do presente e do futuro, que obviamente vai nos retratar sobre a humanização, a descaracterização, a desconstrução e a superação do ser humano em seu alto grau emocional e espiritual.
O fio condutor do roteiro é exatamente a forma como exploramos o passado, como encaramos os nossos sentimentos e as nossas lembranças, a forma como analisamos os nossos próprios atos, a forma como fazemos uma autoavaliação, a forma como confrontamos a nossa própria memória. É interessante notar que o texto aqui conversa diretamente com o espectador com base em um drama, em um romance e até misturando elementos de ficção científica para construir uma narrativa não linear com base na exploração da mente humana. O texto de "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" é tão inteligente, tão estratosférico, tão absurdo, que ainda podemos ir além ao analisarmos uma abordagem com elementos de um drama psicológico, um estudo da mente humana, do comportamento humano após uma perda e após uma grande decepção, um estudo de psicanálise, que é o ponto aqui ao discutimos os comportamentos disfuncionais, os traumas e até os pensamentos equivocados dos personagens em questão.
E o mais interessante no texto do longa-metragem é nos passar a percepção de simplicidade, pois de fato estamos falando de um fim de relacionamento, a famosa "dor de cotovelo", que é justamente a narrativa em questão ao nos confrontarmos com os esforços que somos capazes de fazer para esquecer um antigo/grande amor. É inegável que todos nós já passamos por um fim de relacionamento que às vezes é trágico, às vezes traumático, às vezes destruidor, às vezes conturbado, mas fato é: após um fim de relacionamento todos nós queríamos esquecer a pessoa amada. E se você pudesse de fato apagar toda a sua memória do relacionamento passado? E se nós pudéssemos simplesmente apagar da memória aqueles que mais amamos? Você se submeteria ao um processo científico para apagar aquela pessoa para sempre das suas lembranças? Até que ponto você iria para atingir esse objetivo?
Este é o principal motivo para que "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" tenha um dos melhores roteiros daquela década. Exatamente um texto que conversa diretamente com todos nós, que é de fácil identificação, que nos faz refletir, que nos faz pensar com uma trama que soa familiar, pois quem aqui nunca sofreu por amor? Quem aqui nunca sofreu com o término de um romance? E quem aqui não sentiu o desejo de apagar todas as memórias daquelas pessoas que outrora nos fizeram tão felizes? Mas fato é: nem sempre o que queremos conseguimos, às vezes essas próprias memórias nos fere e nos magoa profundamente quando são remexidas.
Eu sou um exemplo vivo de já ter sofrido com o término de um grande amor, de um grande relacionamento. Eu me coloquei no lugar do Joel (Jim Carrey), eu também sofri uma decepção e queria apagar a pessoa da minha memória para sempre. Eu só não busquei um método científico como ele buscou, mas fiz de tudo para esquecer, para apagar, mas também não consegui. Na verdade você nunca consegue deletar esta pessoa da sua memória, você pode até esquecer por algum tempo, mas apagar jamais.
Sobre os personagens:
É muito interessante acompanhar toda a construção e desconstrução do casal Joel e Clementine (Kate Winslet). Joel sofre com aquela desilusão amorosa e principalmente ao descobrir que Clementine queria esquecê-lo para sempre quando tomou a decisão de entrar no processo de deletar suas memórias. Até por um certo orgulho, uma certa mágoa e um certo rancor Joel decidi fazer o mesmo, que é passar pelo mesmo processo. O ponto-chave é exatamente o arrependimento de Joel durante o processo, onde logo ele tenta de todas as formas uma maneira de parar o procedimento. Dessa forma Joel tenta de todas as maneiras uma forma de aprisionar as memórias de Clementine que já estão desaparecendo de sua mente. Ou seja, o mundo no qual a Clementine pertence está ruindo, e é a partir daí que Joel percebe que está cometendo um grande erro, que ele não é capaz de apagá-la de sua memória, que ele não é capaz de conceber a felicidade sem aquela pessoa que ele tanto ama.
Se analisarmos friamente esta é a cereja do bolo desse roteiro que é tão genial. Exatamente a abordagem de um grande amor que falhou, que deu errado, e tudo isso acontecendo dentro da mente do Joel, que logo está em guerra com sua própria mente sobre o que de fato pode ter dado tão errado. De fato o roteiro desse filme é estupidamente genial, um dos melhores que eu já vi em toda a minha vida cinéfila.
"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" tem um roteiro teoricamente simples mas não é assim tão fácil de entender e de acompanhar em todos os seus acontecimentos. Pois o longa não conta os seus eventos em uma ordem cronológica, temos que ir construindo as nossas percepções e resolvendo os quebra-cabeça em cena após cena. O quê muita das vezes vai nos confundir acerca do presente e do passado, que logo será auxiliado por flashbacks e monólogos para nos elucidar tal acontecimento. Eu acredito que esta decisão mais embaraçosa em nos contar os fatos seja até como uma metáfora para a nossa própria memória, pois é exatamente dessa forma que acontece quando estamos buscando por nossas lembranças, que na maioria das vezes elas vão surgir de forma desordenada e totalmente aleatória. Eu achei uma grande sacada do roteiro!
O elenco é outro show à parte:
A maioria das pessoas conhecem o Jim Carrey por seus personagens irreverentes e cômicos, mas aqui ele sai dessa sua zona de conforto e nos impacta com a talvez melhor atuação de toda a sua carreira. É sempre um grande prazer poder acompanhar o Jim Carrey em um personagem mais sério, mais dramático, mais contundente, até mais que os personagens Truman Burbank ("O Show de Truman", de 1998) e Andy Kaufman ("O Mundo de Andy", de1999). Jim Carrey incorpora um personagem introspectivo, frio, obscuro, extremamente reservado, que não se abre fácil, que não demonstra seus sentimentos, que prefere expor seus sentimentos através do seu diário. Jim Carrey está perfeito, está fabuloso, está colossal, uma atuação rica em emoções e sentimentos, carregada dramaticamente, que nos desperta a comoção, a empatia e o sentimento de amor carregado com a tristeza. Eu nunca vou entender o total desprezo e preconceito que a academia sempre teve pela pessoa Jim Carrey, ao ponto de sempre esnobar todas as suas atuações, de não reconhecer o seu talento no drama. Claramente ele merecia pelo menos uma indicação ao Oscar de Melhor Ator em 2005. Mas não veio, como já não vinha nos trabalhos anteriores a este. Jim Carrey ficou com as indicações no BAFTA e no Globo de Ouro.
Kate Winslet definitivamente sempre foi a rainha da p@#$ toda! Kate sempre será lembrada como a eterna e inesquecível "Rose DeWitt Bukater", isso é inegável. Porém, ao longo da carreira ela já nos entregou outras personagens que também se tornaram inesquecíveis; como é o caso da magnífica Hanna Schmitz de "O Leitor" (2008). Clementine Kruczynski é outra personagem eternizada e humanizada da Kate Winslet, que ficou para sempre em nossas memórias e jamais queremos apagá-la. Kate deu vida para a complicada Clementine, que por si só já se mostra com uma personalidade forte, potente, impulsiva, espontânea, rebelde, desbocada, comunicativa, ciumenta e problemática. Clementine usava seu cabelo de diversas cores, e isso traz uma alusão ao momento atual de sua vida: como o azul de esperança quando ela conhece o Joel, logo após o vermelho da paixão avassaladora e depois o verde desbotado que simboliza o desgaste emocional e sentimental.
Kate criou mais uma personagem inesquecível, que entrou para a história da cultura pop dos anos 2000. Uma atuação impecável e irretocável, que lhe rendeu a sua quarta indicação ao Oscar de Melhor Atriz.
Kirsten Dunst com apenas 21 aninhos vinha da sua personagem mais lembrada na carreira até os dias de hoje - a incrível Mary Jane Watson de "Homem Aranha". Aqui Kirsten trouxe a personagem Mary, que é a recepcionista da clínica Lacuna, que fornece o serviço de apagar as lembranças. Mary é encantada pelo trabalho que a clínica pratica e possui uma admiração (e um interesse) pelo seu chefe. Temos todo um contexto por trás da personagem que descobre que foi uma cobaia da clínica ao ter as suas lembranças também apagadas, o que a leva a revelar a verdade para todos os pacientes da clínica. Gostei muito da atuação da lindíssima Kirsten Dunst.
O mestre Tom Wilkinson sempre esteve no auge da carreira e já nos entregou cada personagem memorável que fica até difícil comentar. Posso citar o fabuloso Padre Moore do clássico cult "O Exorcismo de Emily Rose" (2005). Tom é Howard, o dono da clínica Lacuna, sendo o principal responsável pelas intervenções na mente dos pacientes. Howard já se utilizou dos interesses amorosos da Mary anteriormente, já fez o procedimento de apagar as memórias nela, e sempre defende que sua causa é estar fazendo o bem para as pessoas, lhe dando a chance de começar uma vida do zero. Mais um trabalho memorável do grande Tom Wilkinson.
Elijah Wood, o eterno e icônico Frodo Bolseiro da franquia "O Senhor dos Anéis". Elijah é o empenhado (e talarico - kkk) Patrick, um dos dos técnicos que a empresa Lacuna envia para a casa dos pacientes, para apagar suas lembranças enquanto dormem. Interessante que o Patrick começa a se interessar pela Clementine enquanto ela está dormindo durante o processo. O que logo o leva a roubar os objetos do Joel na intenção se passar pelas memórias dele para conquistar ela. Elijah Wood conseguiu gerar cenas bem interessantes para todo o contexto da história.
Mark Ruffalo, o eterno Bruce Banner de "Os Vingadores". Mark era o Stan, outro dos técnicos que auxiliava o processo da clínica na casa dos clientes. Stan tinha um relacionamento com a Mary, enquanto ele não sabia de grande parte dos acontecimentos dela. Mark Ruffalo está bem convincente no personagem.
Tecnicamente e artisticamente o longa-metragem é ainda mais perfeito:
A trilha sonora do filme foi composto pelo músico de Los Angeles Jon Brion, que por sinal é impecável, magnânima, elegante, penetrante e emocionante. Aquela versão de "Everybody's Got to Learn Sometime" é pra chorar no banho de tão emocionante em cena. A fotografia de Ellen Kuras é potente, é avassaladora, é bastante perceptível e se destaca com bastante harmonia. A direção de arte de David Stein (o homem por trás da direção de arte de "12 Anos de Escravidão" e "Cisne Negro") é outra peculiaridade, sempre agregando os detalhes mais minuciosos, sempre atento com os padrões de cenários mais contemporâneos. "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" se sobressai principalmente por ser bem montado, bem editado, bem mixado, bem arquitetado, com detalhes técnicos que saltam aos nossos olhos pela excelência de uma qualidade em altíssimo nível.
Não posso deixar de destacar a direção elegantérrima e acertadíssima do diretor Michel Gondry, que teve a ideia de fazer um filme como "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças" após seu amigo artista plástico Pierre Bismuth sugerir a história de um personagem que encontra um cartão no caixa de correio com a mensagem: "alguém que você conhece apagou você da memória".
Já a origem do título do filme foi retirado do poema "Eloisa to Abelard", de autoria de Alexander Pope. O mesmo poema já havia sido usado pelo roteirista Charlie Kaufman em "Quero ser John Malkovich".
"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" foi um sucesso de bilheteria, arrecadando $ 74 milhões em um orçamento de $ 20 milhões, e foi nomeado pelo American Film Institute um dos 10 melhores filmes de 2004.
Prêmios:
OSCAR 2005
Ganhou: Melhor Roteiro Original
Indicação: Melhor Atriz - Kate Winslet
GLOBO DE OURO 2005
Indicações:
Melhor Filme - Comédia/Musical
Melhor Ator - Comédia/Musical - Jim Carrey
Melhor Atriz - Comédia/Musical - Kate Winslet
Melhor Roteiro
BAFTA 2005
Ganhou: Melhor Roteiro Original e Melhor Edição
Indicações:
Melhor Filme
Melhor Diretor - Michel Gondry
Melhor Ator - Jim Carrey
Melhor Atriz - Kate Winslet
Em outubro de 2016, o Anonymous Content anunciou que trabalharia com a Universal Cable Productions para produzir uma série de televisão baseada no filme. Charlie Kaufman não está envolvido na escrita do show. O projeto ainda está em fase de planejamento. Em 2023, ainda não havia sido lançado, apesar de seis anos de trabalho no roteiro.
No Rotten Tomatoes, o longa tem um índice de aprovação de 92% com base em 250 resenhas, com nota média de 8,50/10. No Metacritic, o filme tem uma pontuação de 89 de 100, com base em 41 críticas, indicando "aclamação universal". No CinemaScore, o filme tem uma nota média de "B-" na escala A + a F.
O desempenho de Kate Winslet ficou em 81.º lugar da lista das "100 maiores atuações de todos os tempos" da revista Premiere. Em 2013, o filme ficou em 24.º lugar da lista dos "101 maiores roteiros" da Writers Guild of America. O filme ficou em 78.º lugar na lista dos "301 Melhores Filmes De Todos os Tempos" da revista Empire em 2014.
"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" é aquele clássico cult amado, respeitado e idolatrado por todos os seres que respiram. Uma obra extremamente importante, influente, contundente, peculiar, singela e contemporânea, que nos leva a bordo de uma história de perdas e recomeços, de decepções e ilusões, de traumas e conquistas, expondo um olhar mais ríspido e sincero sobre relacionamentos e mágoas. Uma obra que transmite sentimentos, que nos toca verdadeiramente, que nos emociona instantaneamente, que nos transmite uma aura de realismo e nos impacta com lições sobre como um verdadeiro amor pode ser lembrado, renovado e muitas das vezes reconquistado.
O longa nos ensina que nem sempre iremos aprender com nossos erros, mas precisamos persistir, ir além, não se dar por vencido. Também aprendemos que as lembranças existem e sempre vão estar ali, no fundo da nossa memória, impossíveis de serem apagadas, pois as lembranças podem ser ruins por nos fazer sofrer com sentimentos perdidos no passado, mas também podem ser benéficas nos ensinando lições importantes para nosso futuro.
"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" é um clássico de amor dos tempos modernos. Uma verdadeira lição de vida. A representação mais pura do amor em seu estado mais bruto e poético. Um dos romances mais aclamados da década de 2000. Um dos responsável em definir o cinema da década de 2000. Um dos roteiros mais geniais da década de 2000. Presente em qualquer lista dos melhores filmes da década de 2000.
Um clássico eterno!
Uma obra-prima da sétima arte!
Meu filme de cabeceira!
Meu filme da vida!
⭐⭐⭐⭐⭐
[03/08/2023]