Sidnei C.
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Que Horas Ela Volta?
Que Horas Ela Volta?
4,5
Enviada em 21 de setembro de 2015
A primeira vez que ouvi falar no filme foi com a notícia que a dupla principal de atrizes, Regina Casé e Camila Márdila, haviam ganho o prêmio de interpretação feminina no Festival de Sundance, nos Estados Unidos. Ninguém duvida do talento de Regina Casé (embora mais conhecida pela veia cômica que dramática), que tem neste filme provavelmente o ponto alto de sua carreira como intérprete. Mas é também uma grata surpresa descobrir o talento da jovem Camila Márdila, que no filme interpreta sua filha, cuja chegada vai representar uma sacudida na vida da mãe.

Que Horas Ela Volta? é o terceiro filme da diretora Muylaert, que já havia demonstrado grande sensibilidade nos anteriores Durval Discos e É Proibido Fumar. Mas nada neles podia antever o nivel de qualidade de roteiro e direção que ela demonstra no filme. É a própria Muylaert que revela o segredo: o roteiro levou 4 anos para ser escrito, revisado várias vezes, e discutido com os atores envolvidos. Não há receita mágica para os bons filmes, e estudando a história por trás dos grandes clássicos do cinema, vamos encontrar métodos parecidos. Um bom roteiro, um excelente roteiro, é a base de qualquer bom filme. Que Horas Ela Volta? tem uma história aparentemente simples, mas é desenvolvido de forma que flui com perfeição, com ótimos diálogos e atenção aos detalhes: pequenas cenas e observações dentro da história que fazem toda a diferença.

Muylaert também é muito econômica e inteligente no uso das ferramentas do cinema. Não por acaso, o filme tem poucos movimentos de câmera, estruturado mais em cortes de planos/contra-planos, como se a diretora quisesse acentuar que a casa é como uma prisão para Val, impedindo sua mobilidade, que vai além da simplesmente física. A forma como a diretora constrói visualmente as cenas também é muito interessante, como na cena em que Val resolve usar o presente que deu à patroa para servir os convidados. Depois que ela fecha a porta, a câmera se mantém no mesmo enquadramento, fazendo a cena se construir apenas na nossa imaginação.

Com um excelente elenco de apoio, um roteiro enxuto e bem trabalhado, mesclando na dose certa o drama de observação social e a comédia, o filme aponta para uma nova possibilidade para o cinema brasileiro. Que horas Ela Volta? tem o grande mérito de dar voz aos seus personagens, não os transformando em clichês ou caricaturas. Na verdade, o filme vai além disso. Invertendo a lógica comum do cinema brasileiro, feito com o olhar do diretor classe média sobre a periferia da sociedade brasileira, no filme a empregada doméstica e sua filha ajudam a enxergarmos o ócio, a vida de aparências e falta de afeto entre seus patrões. Apesar de suas observações tão específicas sobre um Brasil que ainda não deixou totalmente pra trás os tempos de Casagrande & Senzala, sua história consegue ser simples, singela e tocante, o que justifica o enorme sucesso que vem tendo no exterior. Fale de sua aldeia, fale para o mundo.