Sidnei C.
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Tatuagem
Tatuagem
4,0
Enviada em 28 de setembro de 2014
Nos últimos anos o cinema nacional deu um salto imenso de qualidade técnica e sob esse aspecto sem sombra de dúvida vem se posicionando no cenário mundial a cada ano com produções cada vez mais competitivas. No entanto já não podemos dizer o mesmo na questão e qualidade dos roteiros uma vez que os fins comerciais tem justificados os meios. Por esta razão é que Tatuagem tornou-se um oásis neste cenário. O criativo e ousado filme de Lacerda (o habitual colaborador de Claudio Assis em suas obras polêmicas e sensacionais Amarelo Manga e Baixio das Bestas ) traz na alma aquele espírito anárquico e inovador do cinema nacional dos anos 60 e 70, representados por grandes obras que vão de Macunaíma a Bye Bye Brasil, com o qual traz alguns paralelos. Não por acaso o filme se passa em 1978, em plena ditadura militar. Clécio (Irandhir Santos) é o líder de uma trupe teatral chamada Chão de Estrelas. Seus shows, sempre cantados e pontuados de deboches e muita nudez, é uma afronta à hipocrisia social e ao militarismo. Paulete (Rodrigo Garcia) é a estrela do grupo. É ele que lhe apresenta Fininha (Jesuita Barbosa) um jovem soldado do exército por quem logo se apaixona. Fininha é seduzido pelo universo libertário do Chão de Estrelas o que o coloca em choque direto com sua realidade militar, pontuada por disciplinas e doutrinas moralistas e de violenta repressão à liberdade. Lacerda aproveita o momento pra traçar de forma contundente e divertida todo um painel de uma época onde ser artista era sinônimo de perigo. Apesar de escancarar o universo homossexual (onde alguns assuntos ainda são tratados com um certo “cuidado” no cinema brasileiro) o filme ganha força mesmo é por tratar seus personagens sob o aspecto humano, e apesar do ambiente anárquico onde tudo é permitido, não faz apologia à situação, apenas contextualiza a estória que ganha ainda mais força na atuação impecável do elenco (Irandhir levou o prêmio de Melhor Ator em Gramado em 2013, que também premiou Tatuagem como Melhor Filme) e na qualidade técnica, com destaque para os figurinos e cenários.
O longa está ao lado de Getúlio e Hoje Eu Quero Voltar Sozinho entre os grandes filmes nacionais lançados no cinema neste ano. Uma pena que não atingiu o público esperado (provavelmente pela limitação do tema e nº de salas de exibição) e devido a invasão das comédias globais despejadas todo mês nas telonas (em sua maioria com qualidade duvidosa) que abocanham a maior parte do espaço nos grandes centros. É cinema nacional de raíz feito com paixão, qualidade e ousadia como há tempos não se via. É o cinema pernambucano arrasando outra vez!