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Há 15 anos atrás, eu duvidei que Beleza Americana pudesse ganhar o Oscar de Melhor Filme, quando o assisti. Afinal, o filme era tão crítico em relação à sociedade americana, e além disso tocava em assuntos delicados que não faziam parte do padrão de filmes que ganham o Oscar: homossexualismo, infidelidade, uso de drogas, crise da meia-idade. Bom, felizmente, eu estava errado, e o filme saiu vencedor. Felizmente porque o filme era e ainda é muito bom, e sua vitória foi merecida. Até 1 ou 2 meses atrás a vitória de Boyhood para o Oscar deste ano era dada como certa. Para a crítica americana era o "filme do ano", e venceu a maioria das premiações importantes. Isto até Birdman vencer o prêmio dos Produtores (PGA) e o prêmio de melhor elenco do Sindicato dos Atores (SAG). Os 2 prêmios servem como termômetros seguros quanto ao vencedor do Oscar, mas será que um filme tão ácido e cínico a respeito do mundo do espetáculo vai ganhar fãs junto exatamente aos atores, roteiristas, produtores e diretores que o filme retrata com tanta ironia e sarcasmo?
Hitchcock iria babar de inveja ao ver o que Iñarritu e o fotógrafo Emmanuel Lubezki conseguiram: a ilusão de um filme inteiro como um plano-sequência único, sem cortes, coisa que o diretor inglês tentou fazer no seu mal-sucedido Festim Diabólico. Mas isto é apenas um detalhe técnico, um tour-de-force que é possível que passe desapercebido aos olhos do espectador comum, mas que fará a delícia de cinéfilos como eu. A câmera de Lubezki acompanha os atores, corre atrás deles e da ação, chegando às vezes um pouco "atrasada", como se a câmera fosse um personagem escondido sob o manto de invisibilidade de Harry Potter, tentando espreitar tudo que ocorre no teatro, ouvir tudo e todos.
Mas Birdman não é só uma proeza técnica. É a qualidade de sua história, de seus diálogos, de sua agilidade e concisão, da interpretação dos atores, do uso inusitado da música e de seu humor que fazem a diferença. Sem esquecer o inesperado lirismo onírico de quando Riggan (Keaton) "voa", uma cena linda que me fez lembrar da primeira cena de Oito e Meio de Fellini. Ouvi muitas risadas dos espectadores, risadas gostosas e altas, porque Birdman é acima de tudo uma comédia, muito divertida em sua crítica ao mundo do espetáculo e sua interatividade com o mundo conectado de hoje, e seus blogs, twitter, virais e visualizações no youtube. Sobram farpas para todos os lados, até mesmo para o próprio espectador, como na cena em que o "Birdman" tenta convencer Riggan a voltar a vestir a roupa de super-herói, porque segundo ele é isto que o público quer: ação, explosões, e não a filosofia e a profundidade de um texto de uma peça de teatro. Talvez a única farpa que não seja justa seja a dirigida aos críticos, na personificação caricatural da personagem Tabitha Dickinson - o nome é ótimo, diga-se de passagem, mas a caricatura de um crítico que já decidiu por antecipação "matar" o espetáculo é exagerada.
Iñarritu parece ter bebido na fonte de escolas de vanguarda da década de ´60, como a Nouvelle Vague e o nosso Cinema Novo. Sua concepção é verdadeiramente "uma ideia na cabeça e uma câmera na mão". Por isso seu filme se parece mais com uma obra de um Alain Resnais, mas com um pé no acelerador típico do cinema americano. Mas não se engane quem pensar que Birdman é um filme intelectualizado. Longe disso. Birdman é uma deliciosa comédia, muito divertida e estruturada como tal, mas com um ousado "pacote" na sua forma de apresentar a história visualmente.
Embora esteja longe ainda do meu aniversário, este "pacote" do Sr. Iñarritu foi para mim como um presente. Uma "festa-surpresa" antecipada, que fez meu coração bater mais forte dentro da sala do cinema - ao ritmo da bateria da trilha sonora de Antonio Sanchéz - coisa que não acontecia faz tempo. Obrigado, Sr. Iñarritu. Em retribuição a este filme-presente, vou torcer por você na festa do Oscar.
Hitchcock iria babar de inveja ao ver o que Iñarritu e o fotógrafo Emmanuel Lubezki conseguiram: a ilusão de um filme inteiro como um plano-sequência único, sem cortes, coisa que o diretor inglês tentou fazer no seu mal-sucedido Festim Diabólico. Mas isto é apenas um detalhe técnico, um tour-de-force que é possível que passe desapercebido aos olhos do espectador comum, mas que fará a delícia de cinéfilos como eu. A câmera de Lubezki acompanha os atores, corre atrás deles e da ação, chegando às vezes um pouco "atrasada", como se a câmera fosse um personagem escondido sob o manto de invisibilidade de Harry Potter, tentando espreitar tudo que ocorre no teatro, ouvir tudo e todos.
Mas Birdman não é só uma proeza técnica. É a qualidade de sua história, de seus diálogos, de sua agilidade e concisão, da interpretação dos atores, do uso inusitado da música e de seu humor que fazem a diferença. Sem esquecer o inesperado lirismo onírico de quando Riggan (Keaton) "voa", uma cena linda que me fez lembrar da primeira cena de Oito e Meio de Fellini. Ouvi muitas risadas dos espectadores, risadas gostosas e altas, porque Birdman é acima de tudo uma comédia, muito divertida em sua crítica ao mundo do espetáculo e sua interatividade com o mundo conectado de hoje, e seus blogs, twitter, virais e visualizações no youtube. Sobram farpas para todos os lados, até mesmo para o próprio espectador, como na cena em que o "Birdman" tenta convencer Riggan a voltar a vestir a roupa de super-herói, porque segundo ele é isto que o público quer: ação, explosões, e não a filosofia e a profundidade de um texto de uma peça de teatro. Talvez a única farpa que não seja justa seja a dirigida aos críticos, na personificação caricatural da personagem Tabitha Dickinson - o nome é ótimo, diga-se de passagem, mas a caricatura de um crítico que já decidiu por antecipação "matar" o espetáculo é exagerada.
Iñarritu parece ter bebido na fonte de escolas de vanguarda da década de ´60, como a Nouvelle Vague e o nosso Cinema Novo. Sua concepção é verdadeiramente "uma ideia na cabeça e uma câmera na mão". Por isso seu filme se parece mais com uma obra de um Alain Resnais, mas com um pé no acelerador típico do cinema americano. Mas não se engane quem pensar que Birdman é um filme intelectualizado. Longe disso. Birdman é uma deliciosa comédia, muito divertida e estruturada como tal, mas com um ousado "pacote" na sua forma de apresentar a história visualmente.
Embora esteja longe ainda do meu aniversário, este "pacote" do Sr. Iñarritu foi para mim como um presente. Uma "festa-surpresa" antecipada, que fez meu coração bater mais forte dentro da sala do cinema - ao ritmo da bateria da trilha sonora de Antonio Sanchéz - coisa que não acontecia faz tempo. Obrigado, Sr. Iñarritu. Em retribuição a este filme-presente, vou torcer por você na festa do Oscar.