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Somos Tão Jovens
Somos Tão Jovens
3,5
Enviada em 10 de maio de 2013
Legião é o coletivo de anjo. E demônio também. Sério, pode procurar no dicionário. Uma Legião Urbana é então uma horda de cidadãos, meio angelicais e meio diabólicos que circulam pela cidade, buscando vida, sobrevida, ultravida, buscando extrapolar os limites cotidianos e assumir um nível de experiência colada ao corpo e ao espírito, que os façam sentir grandes, semideuses, que compartilham a mudança que o mundo precisa. É essa a Legião Urbana que funda Renato Russo.

Somos Tão Jovens (2013), filme de Antonio Carlos da Fontoura, é sobre a adolescência de Renato Russo (Thiago Mendonça), um dos maiores expoentes da nossa música nacional e um dos fundadores do rock de Brasília, cuja galera ele costumava chamar de “candangos”. Aqueles jovens, crescidos na barra da saia da ditadura, que viam os absurdos políticos mais próximos que os outros do litoral, aprenderam na criatividade do tédio desértico da cidade mais planejadamente fria que seria a partir da atitude rock’n roll que algumas transformações se dariam em nosso país.

O interessante é que, por se localizar nos anos da juventude de Renato, o filme nos faz conhecer um lado peculiar da vida do cantor: a fundação da sua primeira banda, – o Aborto Elétrico – suas primeiras amizades, descobertas sexuais, dos “meninos e meninas”, bebedeiras, encontros nos gramados de Brasília e da gradual maturidade que atinge o poeta que, aos poucos, começa a entender o mundo não de um viés individual, mas por uma dimensão coletiva.

Entretanto, por ser um filme localizado muito na adolescência do cantor está ainda repleto de caprichos adolescentes. Grande parte da rebeldia é exposta apenas com rasgos nas roupas, penteados proto-punk, gritos aqui e acolá. Em algum momento, é possível se crer que o lado contestador de Renato se limitava a invasão festas e troca de fitas k7 do som por algum punk com três acordes. O legal disso é que, de alguma forma, a obra escapa das idealizações comuns aos filmes biográficos que insistem em superlotar os diálogos de frases de efeito.

Somos Tão Jovens nos dá a conhecer também um pouquinho daquela cena do rock que nascia, ganhava espaço e se formatava como uma importante voz da cultura nacional, junto com os rapazes do Rio de Janeiro – Cazuza, Lobão – e de São Paulo – Ultraje a Rigor, Titãs, entre outros. Triste é perceber como essa cena desapareceu e, nossa juventude, foi gradualmente mantendo aquele tédio de lá, porém sem qualquer vestígio de rebeldia ou vontade de mudança. Ele expõe, em última análise, nossa pasmaceira geral completamente distinta daquela efervescência cultural.

O filme, no geral, me parece feito de um modo apressado e demasiadamente apegado às canções de Renato, como se o diretor e o roteirista se esforçassem para fazer caber todas as músicas daquela época dentro do filme que, em muitos momentos, fica parecendo um imenso ensaio de garagem com alguns fatos em shows de pequenos bares. Tal fato, no entanto, não deixa de emocionar, principalmente aos saudosos fãs que veem ali uma possibilidade de matar saudades e acompanhar a ascensão de um de seus ídolos. É claro que os fãs mais histéricos e participativos insistem em apontar os erros biográficos aqui e acolá sem em nenhum momento imaginar que uma cine-biografia é uma construção ficcional baseada em relatos, não um projeto científico de verdade. Mas, vá lá, sabemos todos que fãs são pessoas a se levar muito a sério.

Somos Tão Jovens é mais um filme dessa nova leva de um país que repensa seus excluídos, seus párias, seus filhos que ficaram no limbo, dando a eles destaque, buscando redimir um prejuízo histórico cujo preço vamos pagando só agora.