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A comédia surreal em questão tem como personagem principal o ator Will Ferrell numa atuação contida, enxuta, diferente da maioria de seus filmes cômicos) no papel do homem comum da cidade de Los Angeles, Harold Crick, cuja vida é de uma rotina maçante: levanta diariamente no mesmo horário; dá o mesmo número de escovadas no mesmo horário; pega o ônibus para o seu trabalho às 8h16; trabalha como fiscal do imposto de renda numa rotina cansativa; volta para casa no ônibus das 18 horas; assiste televisão e aí vai dormir às 23 horas. Me fez lembrar a música do Chico Buarque de Holanda "todo dia ela faz tudo sempre igual / se levanta às seis horas da manhã / me sorri seu sorriso pontual....", ou mesmo alguns pacientes portadores de transtorno obsessivo-compulsivo. A trajetória de Harold é narrada em inglês britânico da escritora consagrada, Kay Eiffel (Emma Thompson, mais uma vez com uma atuação superlativa), que não consegue escrever um livro há 10 anos e tem um prazo dado pela editora para terminar o seu romance. A interação entre autor e personagem é completada quando Harold vai no encalço de Kay para tentar dissuadí-la de matá-lo no final do livro. Isso porque sua rotina solitária havia se modificado por completo. Ele se apaixonara pela confeiteira Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal), comprou uma guitarra que era um sonho antigo, enfim, sua vida havia tomado um rumo em direção a um território pleno de felicidade. Para chegar em Kay, Harold procurou o auxílio do professor de literatura Hilbert (Dustin Hoffmann). Antes havia passado por uma avaliação psiquiátrica, já que a voz da narradora aterrorizava a vida de Harold, e foi feito o diagnóstico de esquizofrenia. Será que Kay irá matar Harold no seu livro??? A trama não tem nada de original já que a literatura de Jorge Luis Borges, o teatro de Pirandello, o cinema de Charles Kauffmann trabalham sobre a tese do diálogo entre autor e personagem. Em qualquer obra de arte há uma relação em mão dupla entre autor e personagem: o autor cria o personagem, o modifica e é influenciado e modificado por este. O diretor alemão radicado nos EUA, Marc Forster que já havia nos presenteado com "EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA" nos dá mais um exemplo de sua capacidade criativa.