The Idol nunca foi confortável, e talvez seja exatamente por isso que se tornou a minha série favorita. Não a vejo apenas como um retrato de fama, sexo ou excessos, mas como uma narrativa sobre o que acontece quando alguém cresce sob controle, trauma e expectativas irreais — e, depois disso, tenta recuperar o próprio poder em um mundo que só aceita dores bem-comportadas.
Jocelyn não me soa como alguém que está “se perdendo”. Pelo contrário: vejo nela alguém tentando se reconstruir depois de ter sido quebrada, usando as ferramentas que tem à mão — o corpo, a arte, a intensidade, o controle. A série toca em algo que reconheço profundamente: quando a ferida ainda está aberta, a linha entre liberdade e autodestruição raramente é clara, e exigir lucidez estética nesse processo é uma forma sutil de negação.
O que mais me conecta à história é a forma como ela expõe algo que vivemos fora da tela: nem toda busca por prazer, domínio ou excesso nasce do vazio moral. Muitas vezes, nasce da tentativa desesperada de sentir que a própria vida voltou a pertencer a si. A crítica costuma chamar isso de decadência, mas raramente se pergunta o que foi arrancado dessas pessoas antes.
The Idol fala sobre mulheres que não querem ser salvas — querem ser vistas. Que não pedem redenção, mas reconhecimento da dor que foi ignorada ou silenciada. A arte de Jocelyn nasce exatamente daí: não da perfeição, mas da ferida. E talvez esse seja o maior erro de leitura da série — esperar uma narrativa de cura limpa quando ela entrega algo muito mais honesto: o caos do processo.
Não é uma história fácil, nem moralmente confortável. Mas para mim, é justamente por isso que ela importa. Porque nem toda reconstrução é bonita, nem toda intensidade é performática. Às vezes, é apenas sobrevivência em voz alta.