Ganhar ou Perder chegou cercada de expectativas, não apenas por ser a primeira série produzida exclusivamente pela Pixar, mas também por todo o cenário de bastidores que a envolveu. O projeto passou por sucessivos adiamentos, não apenas por questões técnicas – afinal, produzir oito episódios de cerca de trinta minutos é um desafio diferente de realizar um longa de 1h40 –, mas também por mudanças criativas que impactaram diretamente sua proposta original. Entre as alterações mais notáveis, está a retirada de um episódio centrado em um personagem transgênero, cujo gênero foi alterado após interferências executivas. A decisão veio após declarações públicas de lideranças da Disney que visavam frear o que chamaram de “cultura woke” em suas subsidiárias, como a própria Pixar, Marvel e Lucasfilm. Independentemente de ideologias, é válido ressaltar que, neste caso, a inclusão desse tema teria casado perfeitamente com a essência da série, cuja proposta é justamente mergulhar em camadas emocionais profundas, explorando traumas, medos, inseguranças e questões morais de seus personagens. A ausência desse episódio não compromete a obra no todo, mas deixa um vestígio perceptível de potencial desperdiçado, principalmente porque o capítulo alterado acaba se revelando o mais fraco da série.
Deixando a questão política de lado e focando no que Ganhar ou Perder entrega como obra, o saldo é positivo. A Pixar, mesmo em território inédito, demonstra domínio narrativo e sensibilidade ao lidar com questões humanas em um formato seriado. A estrutura escolhida é um dos maiores trunfos da série: os episódios se passam em uma mesma linha temporal – as semanas que antecedem uma final esportiva do time escolar “Picles” – e cada episódio é contado sob o ponto de vista de um personagem diferente. O espectador acompanha como pequenos eventos, gestos ou falas ganham significados completamente distintos dependendo da perspectiva de quem vivenciou. A forma como essas rotinas se entrelaçam é engenhosa, criando uma colcha de retalhos emocional que se completa ao longo dos episódios. Esse recurso narrativo mantém o interesse do público sempre em alta, pois cada episódio entrega uma nova camada de uma mesma realidade, preparando aos poucos o terreno para o último capítulo, que amarra todos os arcos de forma satisfatória e sensível.
Nos episódios iniciais – como Coach’s Kid, Blue, Raspberry e Pickle – a série brilha ao traduzir os sentimentos de seus personagens com maturidade e empatia. É nesses momentos que a Pixar mostra o porquê de ser referência quando o assunto é emoção. No entanto, nos episódios seguintes, o ritmo dá uma leve tropeçada. A narrativa perde fôlego e entrega histórias menos impactantes, resultando em uma queda de qualidade notável, especialmente no episódio marcado pela já mencionada alteração criativa. A sensação que fica é a de que a Pixar havia planejado esse capítulo como um ponto alto, talvez o mais marcante da temporada, mas que, ao tentar reconfigurá-lo para agradar a decisões superiores, perdeu sua força, tornando-se genérico e esquecível.
Por outro lado, a ousadia técnica de Ganhar ou Perder merece ser celebrada. A série apresenta estilos visuais que fogem do padrão tradicional da Pixar. Há episódios que brincam com estéticas cartunescas, outros que remetem ao visual punk dos quadrinhos, lembrando o estilo de Spider-Punk em Aranhaverso 2, com traços rabiscados e cenas que parecem saltar de um caderno de desenho. Essa variação artística não só traz frescor à série, como também serve de espelho às emoções dos personagens, reforçando a subjetividade de cada ponto de vista.
No fim, talvez o mais triste sobre Ganhar ou Perder seja saber que é, oficialmente, a primeira e última série da Pixar. O estúdio já confirmou que não irá mais investir em produções para televisão, o que transforma esta obra em uma espécie de raridade dentro de seu portfólio. E isso é uma pena, pois o formato seriado parece ter proporcionado à Pixar novas possibilidades criativas, com respiros narrativos e visuais que poderiam ser ainda mais explorados em outras histórias, outros esportes, outros dilemas humanos.
Ganhar ou Perder pode não ser perfeita, e sim, sua fórmula ecoa traços já conhecidos da Pixar – a jornada emocional, o toque de humor sutil, a construção de personagens carismáticos –, mas traz o frescor de um formato novo, sem perder a alma do estúdio. É um acerto digno de reconhecimento, ainda mais quando assistido no conforto de casa, sem as expectativas inflacionadas que o cinema muitas vezes impõe. Para quem já viu todos os filmes da Pixar e busca algo novo, sensível e bem executado, essa série é um ótimo caminho a seguir.