Adaptar The Last of Us Part II nunca seria uma tarefa simples. O jogo, lançado em 2020, é conhecido por sua ousadia narrativa, seu impacto emocional devastador e pela forma como subverte expectativas para construir uma das histórias mais brutais e divisivas do entretenimento recente. A primeira temporada da série da HBO conseguiu equilibrar fidelidade e inovação, entregando uma narrativa coesa e emocionalmente poderosa, mesmo com mudanças pontuais em relação ao jogo original. Por isso, a expectativa para a segunda temporada era altíssima. Infelizmente, essa nova leva de episódios tropeça justamente onde não podia: na condução emocional e no impacto narrativo da jornada da Ellie.
Desde o início, os dois primeiros episódios da temporada prometem muito, principalmente por mergulharem na cidade de Jackson, que aqui ganha vida com uma direção de arte encantadora. Jackson é apresentada como um refúgio, um sopro de esperança em um mundo arruinado, e o público é levado a desejar conhecer mais sobre aquele cotidiano que resiste ao colapso global. No entanto, após esse início promissor, a série parece perder o rumo. A morte de Joel, que nos jogos é um evento traumático e chocante, aqui carece da intensidade necessária. A cena, mesmo tentada com alguma fidelidade visual, não alcança a mesma visceralidade e profundidade emocional que impactou milhões de jogadores. A ausência desse peso narrativo se estende ao longo dos episódios seguintes e evidencia uma dificuldade estrutural de tornar essa perda o motor da história, como é no material original.
Em vez disso, a série parece desviar o foco e transforma a jornada de vingança da Ellie em um romance juvenil mal dosado com Dina. Esse caminho amoroso poderia até ser uma adição rica ao roteiro se não desviasse tanto da essência da protagonista, que deveria estar dominada pela raiva e luto. A Ellie vivida por Bella Ramsey, embora competente em momentos pontuais e exigentes, não consegue sustentar a narrativa emocional com o mesmo magnetismo de Pedro Pascal na primeira temporada. A personagem parece travada no tempo, sem evolução perceptível, tanto em sua aparência quanto em sua maturidade. Ramsey é visivelmente comprometida, mas falta à personagem o senso de progressão que o arco exige. A jornada de vingança da Ellie, que deveria ser sombria, tensa e carregada de dilemas morais, se perde em diálogos mornos, piadas deslocadas e uma abordagem superficial da dor.
Enquanto isso, personagens coadjuvantes como Dina (Isabela Merced), Jesse (Young Mazino) e Tommy (Gabriel Luna) ganham mais destaque do que a protagonista. Não por falta de mérito dos atores, que de fato entregam boas performances, mas por um roteiro que, ao tentar expandir demais o universo e dar espaço para todos, enfraquece sua própria espinha dorsal. A série tenta compensar com visuais impactantes e ambientações bem construídas — como os confrontos entre os Wolves e os Serafitas —, mas mesmo esses momentos, que são visualmente interessantes, são abandonados rapidamente, sem nunca alcançarem o potencial dramático que poderiam ter.
É somente no sexto episódio que a temporada finalmente ganha vida. E ironicamente, esse episódio quase se isola do restante da narrativa. Com o retorno de Joel, interpretado por Pedro Pascal, temos enfim o peso emocional que deveria ter sustentado toda a temporada. O episódio explora, com delicadeza e intensidade, as fraturas e reconciliações entre Joel e Ellie, trazendo de volta a essência que marcou a primeira temporada. É também nesse momento que a série entrega suas cenas mais humanas, abordando temas como o luto, a responsabilidade e o amor parental. Parece até que os roteiristas decidiram tornar os episódios anteriores mais mornos propositalmente para amplificar a força desse reencontro — o que, se for verdade, se mostra uma escolha arriscada e, em grande parte, frustrante para o espectador.
No episódio final, temos o que deveria ser uma das cenas mais chocantes da temporada: a Ellie matando Mel e Owen. Porém, mais uma vez, a adaptação suaviza a brutalidade do momento. O impacto emocional é reduzido quando a morte da personagem grávida acontece "por acidente", retirando toda a complexidade e dilema moral que tornam a cena tão poderosa no jogo. Essa decisão resume bem o problema central da temporada: a série busca preservar o visual e a estrutura básica dos eventos, mas falta-lhe coragem para mergulhar na escuridão emocional que define The Last of Us Part II.
A segunda temporada, apesar de seus acertos pontuais, se mostra inconsistente, mal equilibrada e carente de um fio condutor forte. A ambientação continua impecável, a produção técnica mantém o alto nível da HBO, e o sexto episódio é, sem dúvida, um dos grandes momentos da série até agora. Mas são pontos isolados em uma jornada que deveria ter sido brutal, visceral e inesquecível — e que acaba sendo morna, hesitante e esquecível para quem conhece a profundidade do jogo. Se a intenção era adaptar com liberdade, talvez fosse necessário escolher melhor o que manter e o que reinventar. O que se vê é uma série que tentou se distanciar do impacto do jogo sem conseguir construir uma nova identidade com força suficiente.
No fim das contas, The Last of Us – Temporada 2 é uma grande oportunidade perdida. Há talento, há produção, há momentos brilhantes. Mas falta o mais importante: consistência emocional e fidelidade à essência de seus personagens. Com a chegada da personagem Abby na próxima temporada e Kaitlyn Dever assumindo um papel central, resta a esperança de que os erros desta temporada sirvam de aprendizado para que a série retome o impacto emocional e narrativo que a tornou um fenômeno.