A Favorita é, sem exagero, uma das novelas mais ousadas e memoráveis da teledramaturgia brasileira. Desde o primeiro capítulo, a obra de João Emanuel Carneiro prende o público com uma pergunta simples e poderosa, que conduz os cerca de 50 capítulos iniciais: quem está dizendo a verdade?
De um lado, Flora, recém-saída da prisão, condenada pelo assassinato de Marcelo, que jura ser inocente e aponta Donatela como a verdadeira culpada. Do outro, Donatela, viúva, traída pelo marido, que além de perder o amor da vida ainda assume a criação da filha da mulher que diz tê-lo matado — sua amiga de infância, ex-dupla sertaneja e rival afetiva. O jogo de versões é conduzido com precisão cirúrgica, transformando o público em investigador.
Quando a verdade finalmente vem à tona, A Favorita dá um salto ainda mais corajoso. Flora se revela não apenas culpada, mas uma psicopata fria e sanguinária, movida por inveja, obsessão amorosa e um ódio doentio por Donatela. A partir daí, a novela abandona qualquer zona de conforto e mergulha de vez no suspense, flertando sem medo com o terror psicológico. Assassinatos, manipulação emocional e uma vilã que parece sempre um passo à frente criam uma tensão que poucas novelas ousaram sustentar.
A produção impressiona. Direção, trilha sonora e fotografia elevam A Favorita a um nível que não deve nada a grandes séries americanas de suspense. Cada cena com Flora é construída para gerar desconforto, medo e fascínio — mérito absoluto da atuação e da escrita.
Os núcleos paralelos não são o ponto mais forte da novela, mas também não comprometem o conjunto. Funcionam como respiro narrativo sem quebrar o ritmo da trama principal, que é sólida, ambiciosa e implacável.
No fim, A Favorita entra para a história não apenas como uma grande novela, mas como um divisor de águas. Ela consolida João Emanuel Carneiro como um dos grandes autores do horário nobre e prova que a teledramaturgia brasileira pode brincar com gêneros, subverter expectativas e confiar na inteligência do público.
Uma novela que não pediu licença para ser diferente — e por isso mesmo, se tornou inesquecível.