Festivais de cinema de vez em quando entregam sessões mágicas, onde a simbiose entre o exibido na telona e o público resulta fatalmente em uma enxurrada de aplausos. Nesta terça-feira, foi assim. Ao encerramento de Pacarrete, o público gramadense irrompeu em uma ovação absoluta à equipe do longa-metragem, em especial à atriz Marcélia Cartaxo. Confira nossa crítica!
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Inspirado nas memórias do próprio diretor Allan Deberton, Pacarrete foi uma de suas vizinhas quando criança, personagem icônica na pequena cidade cearense de Russas graças ao seu temperamento explosivo e o apreço pelo balé e a cultura francesa. Na coletiva realizada na manhã de hoje, o diretor falou um pouco sobre a verdadeira Pacarrete.
"Quando era criança, voltando da escola andando de bicicleta, vi uma senhorinha brava com a vassoura, gritando com todo mundo e criando confusão. Era Pacarrete, a doida, como a chamavam. Ela era professora e eu mesmo tinha medo dela", disse o diretor. "Ela precisou falecer para ter a curiosidade em saber mais sobre ela. Seu nome veio do francês, Pacarrete significa margarida e por isso a personagem usava flores na cabeça, no chapéu de palha [..] Ela nasceu em Russas mesmo, em 1912, e viveu quase um século. Era uma pessoa criticada a beça, mais odiada que amada na verdade, mas quando estávamos rodando o filme tudo isto mudou. Todo mundo a conhecia, era amiga de todo mundo...", complementou, provocando risadas do público.
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A intérprete de Pacarrete é Marcélia Cartaxo, que precisou passar por quatro horas de maquiagem para chegar à caracterização da personagem, aos 65 anos. "Foi um desafio muito grande", disse a atriz. "Passei uma noite experimentando várias vozes até encontrar a ideal de Pacarrete. Questionava muito esta voz, não me sentia confortável com ela até encontrar a musicalidade certa. Tive também aulas de francês e de piano, nunca tive muito ouvido para música [..] Foi uma preparação muito tensa e o Allan sempre me respeitou, em relação às minhas limitações. O balé em especial é muito difícil, é que nem ser um atleta. Precisa todos os dias fazer aqueles movimentos e exercícios."
Questionada sobre o momento atual do cinema brasileiro, Marcélia deu um depoimento tocante: "Quando digo que neste momento precisamos resistir bastante, é porque está difícil mesmo. Tinha três trabalhos para fazer e todos foram adiados por causa deste momento atual, em que não tem mais edital.
O cinema é um mercado muito grande, é a profissão da gente e trabalhamos muito! O maior recado deste filme é termos conseguido mexer com as emoções. Está tudo tão distante, tão estranho, estão tirando tudo da gente e estamos ficando sem o nosso chão. É isso que precisamos dizer, que nosso cinema precisa ter espaço no mercado e nas escolas. Precisa ter modernização para a gente socializar, com respeito. E estamos ficando mais velho, fica mais difícil neste meio.
O que eu recebo vai pra mesa, preciso trabalhar para sustentar a família. As pessoas me perguntam, 'e aí, quais são os próximos projetos?' Não sei... Por isso digo para viver o hoje, feliz, me cuidar. Amanhã há de ter outras portas abertas, a gente tem que acreditar nisso."
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Também estrelado por João Miguel, Soia Lira e Zezita Matos, Pacarrete é desde já o grande favorito para faturar muitos Kikitos na premiação deste sábado. Até o momento, o filme não tem data de estreia no circuito comercial.