Já falamos diversas vezes que o cinema não tem, necessariamente, uma função. Uma ideia que parte do capitalismo é dar um direcionamento a tudo, mas a arte não funciona desse jeito. No entanto, essa expectativa não vem do nada: para muitos, a sétima arte só é minimamente boa quando ela toca o sujeito que a experimenta. E se seguirmos essa linha, uma certeza recente é que o novo filme de Regis Faria com o pai, Reginaldo, é uma das obras mais tocantes de 2026. Há algumas semanas, no escritório da O2 Play na zona oeste de São Paulo, pude não apenas assistir ao filme, mas também conversar com a direção e o elenco de Perto do Sol é Mais Claro.
Conheça Perto do Sol É Mais Claro
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Perto Do Sol É Mais Claro apresenta um sensível retrato do envelhecimento a partir da história de Rêgi (Reginaldo Faria), um engenheiro carioca de 85 anos que enfrenta o luto com a perda da esposa. Imerso em uma rotina solitária, ele encontra apoio nos filhos, interpretados por Marcelo e Candé Faria. Enquanto luta para se reerguer, ele encontra novas possibilidades de vida com a escrita de um livro e um inusitado relacionamento.
O projeto que acaba de chegar aos cinemas surgiu do desejo de Regis Faria em fazer um filme com o pai, mas a dificuldade das agendas era um constante entrave. Foi em um momento atípico, quando eles passaram a morar juntos e o isolamento da pandemia os cercou, que o longa começou a tomar forma. No momento em que sugeriu gravar com o ator de Quem Tem Medo de Lobisomem?, o veterano da TV e do cinema topou sem pensar duas vezes.
Hoje no streaming: Uma aventura emocionante e belíssima em meio a um cenário natural deslumbrante"Ele falou de cara "vamos!" sem saber o que que era. Achei muito bonito da parte dele, generoso, porque ele acreditou", explicou o diretor em entrevista ao AdoroCinema. Porém, havia uma questão: "Só que a gente não tinha nada escrito, não tinha um roteiro, eu [só] tinha o desejo. Isso vinha dentro de mim há algum tempo. Eu sabia que eu precisava fazer um projeto com ele porque não queria passar essa vida sem essa oportunidade. Num momento mais profissional, mais maduro, eu achava que tinha chegado nesse momento, acrescentou.
Assim, o realizador aproveitou uma obra que estava acontecendo em sua casa para dar um caldo na trama, que teria o seu pai como um engenheiro. Do começo das gravações em diante, Regis convidou os irmãos Marcelo e Candé, além da ex-esposa, Vanessa Gerbelli, para participarem dessa produção familiar.
"Queria mostrar o que via em volta"
Divulgação/Cristina Granato
Quando a reforma foi finalizada, os olhos de Regis se voltaram para o roteiro. Ele, então, decidiu abordar a vida das pessoas na terceira idade através do próprio pai, não com melancolia, mas com benevolência. "Era um tema que já vinha me chamando a atenção", explicou.
"Eu falei: 'Tanto meu pai quanto minha mãe são pessoas muito produtivas e mesmo assim eu sentia que existia uma invisibilidade social que começou a ser frequente na na vida deles. A maioria das pessoas mais velhas não têm a vida que os meus pais têm. Elas não continuam produtivas", refletiu. O cineasta viu na questão familiar o plot de sua história.
A gente precisa falar sobre isso porque o nosso pai está envelhecendo e a gente precisa entender como vamos absorver as pessoas mais velhas - e não achando um lugar para que elas fiquem ali escanteadas, mas um lugar que elas façam parte da sociedade. Isso é um tema muito sério.
Regis disse que não queria que o personagem fosse deprimido, mas mostrasse, com toques da realidade, o que ele vivenciava com o pai. "Queria mostrar o que eu via em volta de mim, que são pessoas que circunstancialmente são mais velhas, no caso o personagem tinha 85 anos, mas que continuavam com os seus desejos, seus projetos, seus anseios."
Para Reginaldo, sabendo dessa premissa, tudo foi muito orgânico. Um "monstro" da dramaturgia, ele confessa que não houve muitos momentos em que a dinâmica com o filho não funcionou, apenas quando acreditava que determinadas falas poderiam ser diferentes em sua atuação.
"Como a gente já se conhece muito, a história, como ele disse, foi nascendo junto com a construção", relembrou o ator. "Às vezes acontecia em termos de diálogo: 'Você não acha melhor falar dessa forma, porque fica mais preciso, mais enxuta, penetra mais e tal?'. Nesse sentido, sim, mas no outro sentido já nasceu feito".
Metalinguagens e a dinâmica familiar diante das câmeras
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Um fator curioso do filme é que enquanto há muitos paralelos entre Reginaldo e Regi - ator e personagem -, há uma versão alternativa da relação entre pai e filho entre o protagonista e Marcelo Faria, que tem o mesmo nome na ficção. No entanto, a dimensão em frente às câmeras é "completamente diferente", conforme indica o ator de Orgulho e Paixão.
"Ele [o personagem Marcelo] é um cara super protetor. Na verdade, ele quer tirar o pai do que o pai tem prazer, ele quer tirá-lo do trabalho e desse relacionamento com uma mulher mais nova. É um personagem completamente diferente de mim", explicou o artista.
Velhos Bandidos é o último trabalho de Fernanda Montenegro?"Nós incentivamos o Reginaldo a estar sempre ativo, a fazer as coisas que ele gosta: a natação, o exercício, a composição, a escrever, a desenvolver ideias, a atuar, a enfrentar novos desafios", reitera o artista de Beleza Pura. Inclusive, ele me revelou que os irmãos seguem com outros projetos conjuntos, como a confecção de uma biografia do pai.
Em conversa com Reginaldo nos bastidores, já havia perguntado sobre o hábito de nadar e a prática de fortalecimento muscular com elásticos - duas atividades que este jornalista conhece muito bem. O ator veterano brincou que segue fazendo diversas coisas apresentadas no filme, além dos novos trabalhos aos 88 anos.
"Quando a gente está filmando, os encontros são muito fortes porque são carregados de amor real", complementou Marcelo. "O amor que eu tenho por ele, ele por mim. Aquela cena da piscina é muito forte e, graças a Deus, ele me jogou na piscina pra gente não terminar chorando."
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Quanto a Vanessa, sua personagem também tem similaridades com ela. "Minha personagem é uma atriz que faz teatro, que escreveu um texto muito bonito pelo qual Regi se encanta", contou a eterna mãe da Bruna Marquezine em Mulheres Apaixonadas. "Também já montei coisas minhas, então me identifico completamente com ela. Ouso até dizer que colaborei um pouco".
A atriz conversou com o diretor sobre a própria dificuldade com as redes sociais, algo que levou para a sua versão ficcional. "[Essa dificuldade] em ter que virar uma persona nas redes sociais para poder despertar o interesse mercadológico e poder continuar existindo como artista. Isso no Brasil é um caminho muito pedregoso para quem é um artista, um criador", pontuou ela. "Para mim tem tudo a ver, a personagem sou praticamente eu", brincou.
Perto do Sol é Mais Claro toca em relacionamento e trabalhos na terceira idade
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No longa, Regi se envolve com uma mulher décadas mais jovem do que ele. No entanto, o roteiro trata essa relação de maneira bonita e leve, apesar da resistência dos filhos em aceitar o namoro entre eles. Sobre essa questão, Vanessa pondera que essa situação "é completamente possível" e enxerga nisso uma das mensagens mais fortes do projeto.
"A gente está evoluindo e, por um lado, encontrando muita resistência, [pois] tem um lado muito conservador da sociedade. Mas eu acho que estamos caminhando para a liberdade. Para mim, a história do homem é buscar a liberdade, refletiu a atriz.
Essa conquista de ser quem se é, de poder fazer o que se quer, [vem] de ter cada vez menos tabus, preconceitos e limitações. O filme fala disso. Essa mulher se envolve com um amigo do pai falecido é perfeitamente possível. Por que não?
"O filme fala da liberdade, da mudança do tempo, de como a gente pode lidar com ele e, para mim, fica muito claro também que se você acolhe a arte, a beleza na sua vida, é aí que se vê o sol, sabe?", continuou. "Perto do Sol é Mais Claro... Para mim, o sol é a arte. É porque esse cara compõe, vive a música, vai ao teatro e opta pela beleza, ele quer a beleza na vida dele."
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Marcelo também acredita que o filme "tem essa sensibilidade toda", mas ponderou que uma das grandes mensagens da produção também está em nos lembrar das pessoas que estão envelhecendo com mais atenção. "É para a gente olhar para os atores mais velhos", compartilhou.
"A gente precisa escrever mais para essas pessoas, porque são geniais. É sempre um golaço. É sempre maravilhoso você chegar no cinema e assistir um filme como esse, que fala não só de família, mas da vida de um cara com 80 anos. E é lindo,é gostoso, é prazeroso."
Precisamos acabar aqui dentro do nosso país com esse preconceito de que os filmes, séries e novelas só funcionam com a juventude. Eles têm muito para dizer, para ensinar e mostrar. Esse é um recado importante e esse filme o passa com maestria.
Reginaldo, vivendo essa situação na pele, ainda que esteja plenamente ativo em sua carreira na TV e no cinema, observa que a intensidade diminui e nem todos seus pares estão em evidência. "Os grandes atores, os grandes personagens que trabalharam em grandes novelas, em grandes textos, todos eles sumiram. "Você não vê mais", desabafou o artista. "O mercado não quer aceitar o talento das pessoas da minha idade. Isso é triste porque o que está sempre superando é o mercado, é o que vende. É vender o cara sem camisa, o forte, o musculoso, a bonita, a gostosa."
Saudosista e atento às movimentações da indústria de entretenimento, Rerginaldo conclui: "Essas figuras, esses intérpretes maravilhosos não estão aparecendo mais. Não é culpa da televisão em si. É esse mercado. Esse mercado é uma coisa da nossa cultura e, inclusive, do massacre do que vem de fora, dos filmes que vem da das multinacionais."
10 heróis de ação da terceira idadeDe acordo com as palavras de Marcelo, os veteranos da dramaturgia brasileira sempre dão um "golaço" quando entram em frente às câmeras. Em cartaz nos cinemas, este é um daqueles filmes que fará com que cada espectador repense a vida, a relação com os pais e provavelmente acabe mandando uma mensagem ou ligando para quem se ama logo depois da sessão.