"Vamos matar o Papai Noel." Foi o pensamento que Fábio Porchat teve no início deste ano. Não é que lhe falte espírito natalino, mas ele buscava uma ideia inusitada, algo que o Porta dos Fundos nunca tivesse feito. Esquete, Antigo Testamento, Novo Testamento, animação, falso documentário – tudo isso já fora usado no especial de Natal que virou tradição do grupo. Para a nona edição, Porchat queria fugir da temática religiosa, dar um respiro para aqueles personagens, evitar as mesmas piadas.
Ele chegou à conclusão de que só o Porta seria capaz de liquidar o Papai Noel como presente de Natal para o público. "Achei que daria um bom thriller", conta Porchat em entrevista exclusiva ao AdoroCinema (veja o vídeo na íntegra aqui). E não foi o único a cogitar o fim drástico do bom velhinho.
"Quando conversei com Jhonatan Marques, o outro roteirista, ele me falou: 'Fábio, tive uma ideia. E se a gente matasse o Papai Noel?' Eu falei: 'Jhonatan, estamos na mesma página. Todos nós queremos matar o Papai Noel.'"
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Mas a trama não parava por aí: "E se o Natal resolvesse se vingar?", sugeriu Porchat na época. "Fala-se tão mal do Natal, do encontro em família, do panetone. Imagina se o Natal não gostasse de você também?"
Assim nasceu O Espírito do Natal, um "filme de vingança" que estreia nesta quarta-feira (21), na Paramount+. Além de corroteirista, Porchat atua ao lado de Evelyn Castro, Antonio Tabet, Thati Lopes, Raphael Logam, João Pimenta, Rafael Portugal e Gregório Duvivier.
A seguir, confira mais da conversa que tivemos com o humorista:
Depois de tudo o que o Porta dos Fundos passou por causa dos especiais de Natal – censura, violência, incêndio na sede no Rio, processos –, o que esse projeto virou para vocês? É tipo um xodó, um filho protegido?
Fábio Porchat: "Para gente, o especial de Natal é bem especial mesmo, desde sempre. Quando a gente fez o primeiro, em 2013, no formato de esquetes, já foi um tour de force, porque a gente queria fazer com qualidade. O primeiro foi sobre Cristo, de época, todo um dinheiro que a gente gastou para ficar bacana. Então a gente sempre tratou o especial como um xodó, um filhote mesmo.
"Aos poucos, ele foi tomando essa cara, e o público começou a se perguntar o que o Porta faria naquele fim de ano. Até que a gente ganhou um Emmy de Melhor Comédia do Ano. Isso também é bastante representativo. Mostra que a gente apostou certo, está no caminho certo."
Fábio Porchat e outros humoristas se pronunciam após atentado contra o Porta dos FundosAlém de atuar, você é corroteirista do especial, que dessa vez aposta em um formato clássico de terror: um grupo de pessoas preso em uma casa isolada enquanto eventos sobrenaturais acontecem. Claro, sem perder o humor. Como surgiu a ideia e quais referências você usou no projeto?
"Quando a gente teve a ideia de matar o Papai Noel, e de ele se vingar depois, a gente pensou: 'Vamos fazer de terror? O Porta nunca fez nada de terror, seria ótimo poder experimentar esse gênero diferente.' Para mim, isto é o legal do Porta: a gente tem liberdade total de fazer o que a gente quiser, do jeito que a gente quiser. A gente resolveu então pegar o terror clássico.
"Não chega a ser uma sátira, não é 'Todo Mundo em Pânico'. Mas a gente se aproveitou de todos os clichês do terror: a trilha sonora, achar que tem alguém ali quando não tem, o grito, o sangue, a cabana, o grupo de jovens que vai para lá, a tensão sexual entre eles… A ideia era brincar com tudo isso trazendo humor. A gente quer que as pessoas deem risadas, claro."
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Hoje se fala muito no humor como ferramenta para o oprimido rir do opressor. E o humor também vendo sendo impactado pelo “politicamente correto” e pela “cultura do cancelamento”. Diante disso, você acredita que o humor tem limite?
"Essa pergunta é sempre curioso, porque ninguém questiona os limites da poesia, do drama, da ficção científica, do terror… A verdade é que o limite é a Constituição. O que é considerado crime, não pode ser feito. O que ela diz que pode, então pode. O limite do humor é o limite da liberdade de expressão de cada um."
Sua percepção do humor mudou depois desse último governo, da pandemia? Tivemos quase 700 mil mortes no Brasil – entre elas a de Paulo Gustavo –, a volta da fome, o desmonte da educação, da saúde, da cultura. Você leva mais em consideração o que seus projetos podem representar?
"Só reforça como a gente precisa do humor, como a gente precisa rir, precisa desopilar, desanuviar a cabeça. O humor tem uma função muito importante na sociedade: jogar luz em determinados assuntos e sombra em outros para a gente poder dar risada. Afinal, rir é um ato de resistência porque só nos resta rir."
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Quais são suas maiores referências no humor atualmente?
"Eu assisto de tudo. 'Fleabag', por exemplo, me fez rir muito. 'Modern Family' também. Aqui no Brasil, Regina Casé, Fernanda Torres e Pedro Cardoso são a minha santíssima trindade do humor. Mas claro que bebi na fonte de muita gente da minha geração. Marcelo Adnet, Paulo Vieira, Dani Calabresa, Paulo Gustavo, o pessoal do Choque de Cultura."
Você chegou a um ponto da fama em que não dá mais a mínima pra hater? Recentemente viralizou um vídeo seu comendo carne com pó de ouro no Catar, e as pessoas te chamando de "esquerda caviar" nas redes sociais. Qual o limite que você estabeleceu para isso na sua vida? Esse ódio todo às vezes vira material de trabalho?
"Depende do tipo de comentário que está sendo feito. Se é um comentário maluco falando de socialismo, comunismo, aí nem adianta entrar nessa discussão, porque são pessoas que não querem ter uma conversa, e sim xingar, gritar e bater. Se é alguém apontando um equívoco meu, apontando algo errado que eu fiz ou falei, aí não é nem hater. São pessoas te criticando, te ouvindo."
Para assistir ao papo na íntegra, é só clicar aqui ou dar play abaixo: