O mundo é mesmo feito de coincidências. No ano de 2000, quando Ang Lee lançou seu filme mais popular e premiado, O Tigre e o Dragão, também era lançado Náufrago. Agora, 12 anos depois, o diretor lança As Aventuras de Pi, se debruçando sobre um tema que, superficialmente, lembra muito o do filme com Tom Hanks. Só superficialmente, porque em Pi o tema do naufrágio vai além da simples sobrevivência, sendo mais uma jornada espiritual e de auto-descoberta, repleto de simbologias, metáforas e referências.
As pressões sobre o filme eram muitas. Um alto custo de produção (acima de 120 milhões de dólares), a transposição para as telas de um livro famoso e premiado (A Vida de Pi, de Yann Martel), com um ator principal totalmente desconhecido (o único nome famoso do elenco é o francês Gérard Depardieu, em uma pequena ponta como cozinheiro do navio).
Nas mãos de um diretor qualquer, a adaptação do livro resultaria num filme medíocre, apenas mediano. Mas Ang Lee mostra mais uma vez que tem bala na agulha, e nos presenteia com imagens deslumbrantes e visionárias, fazendo aquilo que todo filme adaptado de um bom livro deveria se propor a fazer: traduzir a poesia das palavras em poesia de imagens. Com a ajuda dos mais modernos efeitos visuais digitais e da espetacular fotografia de Claudio Miranda, As Aventuras de Pi possui sequências de uma beleza plástica indescritível, com destaque para aquela em que Pi se debruça sobre o barco, tentando imaginar o que o tigre estaria observando no fundo do mar.
As fotografias de divulgação do filme, infelizmente, passam sem querer 2 impressões negativas: Pi parece contemplativo demais e o ator principal, o indiano Suraj Sharma, muito apático, sem expressão. Felizmente , nenhuma delas corresponde à realidade quando o assistimos. O jovem ator Sharma se sai muito bem, com uma interpretação que exige bastante, pois ele praticamente carrega o filme nas costas. Pi também não é assim contemplativo como possa se imaginar num primeiro momento. Embora o diretor tenha escolhido 2 recursos que eu particularmente não aprecio muito (o flashback - quando a história começa sendo contada por alguém - e o 3D), o filme funciona muito bem alternando a narrativa tradicional com as sequências mais puramente visuais, que se seguem após o naufrágio. Optei por assistir o filme na versão sem o 3D, pois é um recurso que considero inconveniente para certo tipo de filme, além de me cansar a visão. Mas uma coisa é certa: a poesia visual de Pi merece que você escolha o cinema com a melhor projeção possível à sua disposição.