A inquietação da câmera, as imagens perturbadoras do submundo homossexual francês, a violência dos fatos, o áudio abafado, tudo isso contribui para que Irreversível seja nauseante desde o começo. O que faz dele uma obra-prima do cinema moderno é exatamente isso, o choque, como se Gaspar Noé nos falasse: "essa é a verdade nua e crua e vocês não estão prontos para ela". Se fosse rodado com uma câmera amadora, o filme passaria muito bem por um documentário, dos mais perversos já feitos, pois a veracidade das imagens, principalmente na cena chave do filme, é surpreendente, resultado de um bom elenco e direção cenográfica. As cenas sem cortes e extensas também contribuem para isso. Como é contada de trás para frente, onde o fato seguinte justifica o anterior, as sequências passam a se acalentar após a cena do estupro, o que dá a estranha sensação de que tudo termina bem, porém o espectador sabe dos fatos, irreversíveis, e toda essa paz só aterroriza.