O filme Anastasia (1997), dirigido por Don Bluth e Gary Goldman, é um marco na história da animação que reúne elementos de aventura, drama e romance em uma narrativa que mistura ficção e história. Produzido pela Fox Animation Studios, o longa não apenas se destaca por sua qualidade técnica e narrativa, mas também suscita debates sobre as fronteiras entre liberdade criativa e precisão histórica. Este ensaio buscará analisar criticamente os méritos e limitações da obra, considerando seu impacto cultural e recepção crítica.
A trama de Anastasia parte da premissa da sobrevivência da grã-duquesa Anastásia Romanov, uma lenda urbana que capturou o imaginário popular após a Revolução Russa. Embora reconhecidamente fictício, o filme recontextualiza eventos históricos, apresentando Rasputin como um vilão sobrenatural e reduzindo a complexidade da revolução bolchevique a uma maldição mágica. Esse enfoque facilita a construção de uma narrativa leve e acessível, mas suscita críticas quanto à banalização de eventos históricos e personagens reais.
Por um lado, a abordagem fantasiosa do filme permite uma experiência cinematográfica envolvente e emocionalmente rica, especialmente para públicos mais jovens. Por outro, ela levanta questões éticas sobre o uso de figuras históricas e eventos trágicos como pano de fundo para um entretenimento essencialmente escapista. Críticos como Suzanne Massie apontaram que Anastasia perpetua equívocos históricos, enquanto outros, como Jeffrey Gantz, argumentam que o filme deve ser apreciado como um conto de fadas moderno, separado de seu contexto histórico original.
A animação de Anastasia foi frequentemente comparada aos clássicos da Disney, especialmente os produzidos durante a "Renascença Disney". Com visuais deslumbrantes, uma trilha sonora marcante (incluindo a canção indicada ao Oscar, "Journey to the Past") e dublagem de vozes de peso como Meg Ryan e Christopher Lloyd, o filme rivaliza com os melhores trabalhos do estúdio líder de mercado na época.
Marjorie Baumgarten, do The Austin Chronicle, destacou que a produção "chega muito perto" do padrão Disney, enquanto críticos como Owen Gleiberman, da Entertainment Weekly, elogiaram o desafio da Fox ao "império Disney". De fato, o estilo visual e narrativo de Anastasia demonstra a ambição da Fox em competir diretamente com sua rival, oferecendo uma obra que combina momentos de ação, romance e humor com a mesma sofisticação técnica.
No entanto, há quem critique a falta de originalidade do filme, sugerindo que ele segue demasiadamente a fórmula consagrada pela Disney. Embora bem executada, a estrutura narrativa de Anastasia (protagonista órfã, vilão caricato e romance central) reforça um molde já amplamente explorado, o que limita sua inovação no gênero.
A recepção de Anastasia foi amplamente positiva, com uma pontuação de 85% no Rotten Tomatoes e elogios por seu entretenimento familiar e qualidade artística. Nos Estados Unidos, o filme encontrou público tanto entre crianças quanto adultos, arrecadando mais de 139 milhões de dólares mundialmente.
Na Rússia, a reação foi mista, refletindo a dualidade entre apreciação estética e desconforto com as liberdades criativas tomadas. Enquanto muitos russos elogiaram o filme como um "conto de fadas no contexto de eventos reais", setores da Igreja Ortodoxa Russa criticaram a representação da grã-duquesa, canonizada como mártir. Este contraste ilustra como a recepção de obras culturais pode variar significativamente dependendo do contexto histórico e cultural do público.
Anastasia (1997) é uma obra que, embora não impecável, marcou época por sua ousadia em desafiar o monopólio da Disney e por sua contribuição ao renascimento da animação de longa-metragem. Sua qualidade técnica, somada a uma narrativa emocionante, garantiu seu lugar como um clássico cult. No entanto, a mistura de ficção e história continua a ser um ponto de controvérsia, levantando questões importantes sobre os limites éticos e criativos no uso de eventos e personagens históricos.
No fim, Anastasia deve ser apreciado pelo que é: um conto de fadas moderno que encanta e emociona, mas que exige do espectador discernimento crítico para separar arte e realidade. Se a missão do cinema é, em parte, inspirar e entreter, Anastasia cumpre este papel com louvor, ainda que deixe para trás uma trilha de debates legítimos sobre sua abordagem histórica.