Longe do alarde midiático e sem uma campanha massiva da Universal Pictures, Código Preto chega aos cinemas como um thriller de espionagem que, apesar da discrição de sua estreia, carrega um nome de peso na direção: Steven Soderbergh. O cineasta, que já demonstrou grande conforto no gênero, retorna a um terreno onde transita com habilidade. O projeto nasceu de um desafio proposto pelo próprio diretor ao roteirista David Koepp: reimaginar Quem Tem Medo de Virginia Woolf? com protagonistas espiões. Koepp, colaborador habitual de Soderbergh nos últimos tempos (Presença, KIMI), aceitou a missão e, com Código Preto, parece finalmente ter encontrado o alinhamento ideal com o diretor, resultando em uma obra onde roteiro e direção se encaixam de maneira fluida e precisa.
Soderbergh é um cineasta econômico, e Código Preto reflete essa abordagem de forma exemplar. O filme tem uma duração enxuta de 90 minutos, nos quais cada cena, cada diálogo e cada enquadramento estão ali por um motivo. Nada é desperdiçado. O diretor evita rodeios e estabelece a trama de imediato, inserindo o espectador no centro da narrativa sem se perder em desenvolvimento excessivo de personagens. No entanto, isso não significa que os protagonistas carecem de profundidade. Pelo contrário, o roteiro de Koepp nos fornece informações essenciais sobre suas motivações, traços psicológicos e convicções, permitindo que a construção dramática aconteça de forma orgânica e sem excessos.
Um dos grandes trunfos do filme está nos diálogos minuciosos, carregados de duplos sentidos e mensagens subliminares, o que amplifica a tensão e mantém o espectador constantemente em dúvida sobre quem realmente pode ser confiável. É um thriller que joga com a percepção do público, envolvendo-nos na trama a ponto de nos fazer questionar cada detalhe.
Soderbergh também se impõe como um autor completo, assumindo, além da direção, a direção de fotografia e a montagem. Esse controle absoluto sobre a produção se reflete na coesão e no ritmo impecável do filme. O diretor estabelece uma ambientação sofisticada, reminiscentes dos grandes clássicos do gênero de espionagem, especialmente aqueles de tom britânico, onde a atmosfera e os jogos psicológicos se sobrepõem às tradicionais sequências de ação. A escolha de Michael Fassbender e Cate Blanchett como protagonistas se revela certeira: os dois atores exalam carisma, sofisticação e um toque de mistério, o que intensifica ainda mais a dinâmica da narrativa.
Fassbender, em especial, está em um terreno familiar. Assim como em The Killer, de David Fincher, e Prometheus, de Ridley Scott, ele incorpora um personagem calculista e meticuloso, trazendo para a tela uma atuação sutil e envolvente. Blanchett, por sua vez, adiciona camadas de complexidade à sua personagem, garantindo que sua presença em cena seja hipnotizante. A interação entre os dois é fundamental para o desenvolvimento da trama e evoca comparações com Sr. & Sra. Smith, mas com uma abordagem mais refinada e psicológica. Aqui, o thriller de espionagem serve não apenas como motor narrativo, mas também como pano de fundo para explorar a relação dos protagonistas, marcada por um jogo de lealdade, segredos e desconfiança.
Soderbergh se concentra nesse vínculo ambíguo, construindo um relacionamento que à primeira vista parece ideal, mas que se revela permeado por mistérios. O casal compreende e aceita que a vida a dois envolve segredos e concessões, seja no âmbito pessoal ou profissional, e essa complexidade é explorada com habilidade pelo diretor. O filme não se apressa em revelar suas respostas, mantendo a tensão até os momentos finais e permitindo que o público saboreie cada pista deixada pelo caminho.
Diferente de muitos thrillers de espionagem contemporâneos, Código Preto opta por um formato mais cerebral, onde a ação fica em segundo plano e os diálogos assumem o protagonismo. Isso exige uma narrativa bem escrita e uma montagem afiada, e é exatamente isso que Soderbergh entrega. Seu controle absoluto sobre a produção resulta em um filme tenso, sofisticado e envolvente, que jamais se torna cansativo ou genérico dentro do gênero.
O longa ressoa como uma homenagem aos clássicos do cinema de espionagem, combinando a essência dos grandes thrillers britânicos com um estilo moderno e polido. Ao reunir um elenco talentoso e uma direção confiante, Soderbergh reafirma seu lugar como um dos diretores mais versáteis da atualidade. Código Preto é um deleite para os fãs do gênero investigativo e uma experiência cinematográfica que merece ser apreciada por quem estava com saudades de um bom thriller do cineasta.