A Ordem chegou ao público cercado de expectativas. O longa de Justin Kurzel chamou atenção desde sua estreia no Festival de Veneza, não apenas pelo tema sensível e atual – um grupo supremacista branco planejando atentados contra pontos estratégicos dos Estados Unidos –, mas também pelo peso de seu elenco. Jude Law retorna como protagonista após um hiato de quatro anos sem liderar um projeto, enquanto Nicholas Hoult, cada vez mais presente em Hollywood, reforça sua ascensão com um papel que o distancia dos personagens mais cômicos e simpáticos pelos quais ficou conhecido. Somado a isso, a premissa do filme ecoa acontecimentos reais, como o atentado ao Capitólio em 2021, tornando-o ainda mais relevante. Mas, apesar da potência do material em mãos, Kurzel esbarra em sua própria hesitação, resultando em um thriller que flerta com discussões importantes, mas nunca as desenvolve plenamente.
O diretor, que ainda busca recuperar sua credibilidade após o fracasso de Assassin’s Creed (2016), parecia ter em A Ordem a chance de consolidar seu nome no gênero. E, em parte, ele consegue. A construção visual é precisa, a tensão é palpável e a atuação de seu elenco é um dos grandes trunfos da obra. Jude Law comprova mais uma vez ser um dos atores mais subestimados de sua geração, trazendo ao seu personagem uma energia explosiva e emocional que captura o público. Sua presença carismática dá peso à trama e segura a narrativa até nos momentos em que o roteiro falha em aprofundar seus próprios questionamentos. Já Nicholas Hoult, com uma abordagem mais contida e meticulosa, oferece um contraponto interessante a Law. Seu personagem é frio, calculista e assustadoramente realista, reforçando ainda mais a inquietação do espectador sobre as motivações e metodologias desse tipo de grupo extremista.
No entanto, mesmo com esses dois grandes nomes em tela, o filme peca em explorar a relação entre seus personagens. Apesar da evidente dualidade entre eles, suas interações são escassas, o que impede que a tensão entre os dois atinja o nível de impacto que poderia alcançar. A decisão de manter os protagonistas separados por boa parte da trama reduz o potencial dramático do conflito, fazendo com que o embate entre seus ideais seja mais subentendido do que realmente explorado.
O roteiro de Zach Baylin (King Richard: Criando Campeãs) propõe discussões contemporâneas relevantes, como a ascensão do nacionalismo branco na política, o funcionamento das células extremistas e a maneira como ideologias supremacistas se perpetuam por gerações. Há também um estudo de personagem que tenta investigar como essas ideologias se enraízam e se tornam combustíveis para ações violentas. No entanto, esses pontos são apresentados de forma superficial, servindo mais como pano de fundo do que como motores da narrativa. A Ordem tem todos os elementos para ser um thriller político denso e provocador, mas acaba optando por uma abordagem mais segura, transformando-se em um filme de ação convencional com pitadas de investigação policial.
Isso não significa que o longa seja desprovido de méritos. A direção de Kurzel é eficiente ao criar uma atmosfera de tensão crescente, e a cinematografia reforça a sensação de paranoia e instabilidade. A ação, embora não seja o foco principal, é bem executada e contribui para manter o ritmo da narrativa. No entanto, a promessa inicial de um filme que promoveria debates profundos sobre o extremismo acaba sendo deixada de lado à medida que a história avança, priorizando o entretenimento em detrimento da provocação.
No fim das contas, A Ordem é um filme competente, mas que poderia ter sido muito mais. O que começa como um thriller com ambições reflexivas acaba se acomodando dentro das convenções do gênero, sem ousar questionar ou aprofundar os temas que apresenta. O grande destaque fica para as atuações magnéticas de Jude Law e Nicholas Hoult, que elevam o filme além de suas limitações. É um longa que entrega o básico do suspense e da ação, mas que perde a oportunidade de se tornar um estudo mais contundente sobre as ameaças reais que inspiram sua trama. O potencial estava ali – faltou apenas coragem para explorá-lo por completo.