Pablo Larraín retorna ao gênero das cinebiografias para encerrar sua "trilogia das divas", composta por Jackie (2016) e Spencer (2021). Desta vez, o foco é Maria Callas, a lendária soprano que marcou a história da música clássica. No entanto, o que poderia ser um encerramento triunfante resulta em uma obra que, embora tecnicamente impecável e sustentada pela atuação impactante de Angelina Jolie, sofre com escolhas narrativas e estilísticas que enfraquecem sua força emocional.
O filme impressiona com uma parte técnica de altíssimo nível. Desde o design de produção, que transporta o espectador à Paris dos anos 1970, até a fotografia que alterna entre tons suaves para simbolizar a decadência vocal de Callas e contrastes em preto e branco que exaltam sua grandeza passada, Maria é visualmente impecável. A trilha sonora, que intercala momentos de silêncio contemplativo com as gravações icônicas da soprano, amplifica o impacto dramático e engrandece ainda mais a atuação de Jolie. Além disso, maquiagem, figurino e penteados recriam com perfeição a figura imponente e vulnerável de Callas, contribuindo para uma ambientação rica e detalhada.
Apesar de toda essa excelência técnica, Maria não escapa de falhas narrativas significativas. Larraín e o roteirista Steven Knight optam por retratar a última semana de vida de Callas, intercalando flashbacks que relembram momentos marcantes de sua carreira e vida pessoal. Essa abordagem fragmentada, que deveria oferecer uma visão intimista da protagonista, acaba comprometendo o envolvimento do público. Ao tentar equilibrar o presente com o passado, o filme não consegue se aprofundar completamente em nenhum dos dois aspectos, deixando lacunas emocionais e subtramas importantes apenas mencionadas ou completamente ignoradas. A decisão de personificar o remédio Mandrax em um jornalista que conduz entrevistas com Callas também soa como uma solução narrativa preguiçosa, utilizando diálogos expositivos para transmitir o que poderia ter sido explorado de maneira mais orgânica e sutil.
O conflito interno de Maria Callas – sua luta contra a decadência vocal e a tentativa de resgatar seus tempos áureos – é um terreno rico para um drama emocionalmente poderoso. No entanto, as escolhas de Larraín, que privilegiam um tom contemplativo e silencioso, resultam em uma experiência fria e distante. Mesmo quando o filme busca explorar o relacionamento conturbado entre Callas e Onassis, a abordagem parece superficial e incapaz de gerar a empatia necessária.
Se há algo que impede Maria de desmoronar por completo, é a atuação de Angelina Jolie. Em um papel desafiador que exige sutileza e intensidade, Jolie entrega uma performance memorável. Seus gestos contidos, o olhar melancólico e a postura frágil capturam com precisão a solidão e o isolamento de Callas em seus últimos dias. Mesmo com algumas falhas de sincronização labial nas cenas em que a voz de Callas é mixada, Jolie consegue transmitir uma potência emocional que supera as limitações do roteiro. Sua performance, sem dúvida, é o elemento mais marcante do filme e será lembrada como um dos melhores momentos de sua carreira.
No entanto, nem mesmo o brilhantismo de Jolie consegue compensar as decisões equivocadas de Larraín. O diretor, que em Jackie e Spencer conseguiu desconstruir figuras icônicas e explorar suas vulnerabilidades com grande impacto, aqui entrega uma obra que se perde em suas próprias ambições. A tentativa de equilibrar o intimismo com a grandiosidade acaba resultando em um filme desconectado, que impressiona visualmente, mas carece de envolvimento emocional.
Em resumo, Maria é um filme que exala técnica e refinamento, mas falha em criar uma conexão significativa com o público. Angelina Jolie é, sem dúvida, a alma do filme, entregando uma atuação tão poderosa que transcende os problemas da narrativa. No entanto, dentro da trilogia de Larraín, Maria se destaca como o capítulo mais fraco, ficando aquém das expectativas de um encerramento digno para essa série de cinebiografias inovadoras. Mesmo assim, o filme é um testemunho da ambição de Larraín e do talento de Jolie, provando que, mesmo em seus tropeços, o diretor ainda é capaz de criar obras instigantes e visualmente marcantes.