Com Invocação do Mal 4: O Último Ritual, Michael Chaves realiza o seu melhor trabalho e entrega um desfecho digno aos Warren
por Rafael FelizardoNão há como negar que 2025 vem tratando maravilhosamente bem os fãs de terror espalhados pela salas de cinema ao redor do mundo. Muito antes de o ano terminar, obras como A Hora do Mal, Presença, Descendent, Faça Ela Voltar e outras foram responsáveis por gerar entretenimento na vida dos apaixonados pelo gênero - e até dezembro muita água ainda há de rolar.
Com isso em mente, uma das mitologias mais populares do audiovisual retorna para o seu quarto capítulo. Dirigido por Michael Chaves, Invocação do Mal 4: O Último Ritual é um longa-metragem que supostamente encerra a saga cinematográfica do cultuado casal Ed e Lorraine Warren - protagonizado por nomes como Patrick Wilson, Vera Farmiga, e agora, também, Mia Tomlinson.
Antes de começar esta análise, acredito que um pouco de contexto caia bem. Invocação do Mal foi um filme lançado por James Wan em julho de 2013 e que ganhou, desde então, ramificações que deram à luz um extenso universo. Para quem não conhece, títulos como Annabelle e A Freira fazem parte da franquia, e contam uma história que, como dito acima, culmina em Invocação do Mal 4: O Último Ritual.
Dito isso, ambientado em 1986, Invocação do Mal 4 retorna às vidas de Ed e Lorraine Warren, que agora encontram-se aposentados e vivem um cotidiano pacato. Quando um caso macabro envolvendo a família Smurl vai de encontro ao casal, eles até tentam dispensá-lo, mas percebem que o destino tem outros planos. No decorrer da investigação, os Warren descobrem que uma força demoníaca do passado está de volta, precisando reunir forças para enfrentá-la.
Warner Bros. Pictures
Confesso que nunca fui fã de Michael Chaves à frente desta saga. Através dos anos, o cineasta dirigiu A Freira 2 e Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio - certamente, duas das piores entradas da franquia. Em Invocação do Mal 4, o diretor conseguiu se colocar em um local onde nunca antes havia conseguido, entregando o melhor trabalho de sua carreira.
Invocação do Mal 4 consegue mesclar de maneira bem-vinda um melodrama familiar a um suspense desconcertante, resultando em uma obra equilibrada que ainda conta com uma parcela bem posicionada de alívios cômicos. No decorrer da saga, o relacionamento amoroso do casal Warren tornou-se uma subtrama de grande relevância, e o fechamento deste arco é feito de maneira convincente em O Último Ritual.
Mesmo com seus clichês, o longa faz uma homenagem interessante aos capítulos passados, contando, inclusive, com presença de menor importância da nossa querida boneca Annabelle. Para os mais atentos, o enredo pode acabar lembrando um pouco os eventos de Invocação do Mal 2, mas não há nada nisso que chegue perto de atrapalhar a experiência como um todo.
Com uma atmosfera sufocante em muitas das cenas, Invocação do Mal 4 convence em termos de terror, abusando da dimensão de suas entidades para alcançar um efeito perturbador. Em determinados momentos, o filme ainda flerta com um gore de proporções mais suaves, alimentado por fatores técnicos sólidos que abordarei a seguir.
Warner Bros. Pictures
Um dos principais acertos da New Line Cinema na concepção de Invocação do Mal 4 foi a contratação do designer de produção John Frankish. Para quem não conhece, o profissional já havia atuado em Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo, fazendo, mais uma vez, um ótimo trabalho. Toda a linguagem visual de O Último Ritual conversa perfeitamente bem com sua proposta, apresentando ambientes e adereços que agradam aos olhos e garantem verossimilhança.
Além disso, o longa abusa dos enquadramentos fechados - e errantes - em suas tomadas, garantindo o sentimento de urgência e de que algo maior está prestes a acontecer. As cores frias da fotografia complementam o cenário de caos melancólico do enredo, acentuando a sensação de vulnerabilidade dos personagens diante do mal que os cerca. Essa atmosfera opressiva é reforçada por uma competente direção de arte, que utiliza de ambientes em grande parte soturnos para manter o espectador em constante tensão.
No elenco, Vera Farmiga e Patrick Wilson retornam à pele do casal Warren, com atuações que garantem a carga emocional mencionada anteriormente. A grata surpresa do filme fica por conta da estreante Mia Tomlinson, uma atriz britânica que emprega o seu primeiro grande papel no cinema hollywoodiano. Na trama, Tomlinson dá vida a Judy Warren, filha única de Ed e Lorraine e personagem relevante para a história. Invocação do Mal 4 ainda conta com a presença do ator Ben Hardy, que ao lado de Mia formam um casal com possibilidade de substituir os Warren em produções futuras.
Warner Bros. Pictures
Conforme cansativamente divulgado pela Warner Bros. durante a promoção do longa, Invocação do Mal 4 é o produto de encerramento da franquia. Não há como negar que tudo em Hollywood é extremamente volúvel - principalmente quando o assunto é dinheiro -, mas a princípio, a saga do casal Warren está oficialmente finalizada.
Partindo desse ponto, Invocação do Mal 4 apresenta um desfecho digno à mitologia, honrando do início ao fim os personagens de Farmiga e Wilson. As adições ao elenco ainda flertam com algumas possibilidades futuras - que sinceramente, prefiro que fiquem apenas no imaginário. Ao meu ver, seria mais interessante que os criativos focassem em histórias inteiramente novas daqui para a frente, no lugar de tornar a franquia um caça-níquel vazio como vemos aos montes por aí.
Para finalizar, não acho que Invocação do Mal 4 seja bom a ponto de considerá-lo um dos melhores filmes de terror de 2025, mas ainda assim cumpre com seu dever e deixa uma saída positiva para Michael Chaves - principalmente para aqueles que não esperam que o título reinvente a roda.