Dirigido por Andrucha Waddington e com co-direção póstuma de Breno Silveira, Vitória é um filme de drama brasileiro que se baseia na história real de Joana Zeferino da Paz, uma mulher que, sob o pseudônimo de Dona Vitória, enfrentou o crime organizado em sua comunidade ao registrar atividades criminosas com uma câmera. O filme, estrelado por Fernanda Montenegro, é uma produção da Conspiração Filmes em parceria com o Globoplay, e foi lançado nos cinemas em março de 2025. A obra se destaca por sua narrativa inspiradora, mas também levanta questões sobre representação, ritmo e profundidade narrativa.
O enredo de Vitória é poderoso e emocionante, centrado na luta de Nina (Fernanda Montenegro), uma idosa que decide filmar as atividades criminosas em seu bairro após se sentir impotente diante da violência crescente. A história, inspirada na vida de Joana Zeferino da Paz, é uma ode à coragem e à resistência, mas também uma crítica contundente à omissão das autoridades e à passividade da sociedade. A trama se desenvolve de forma gradual, começando como uma dramédia de costumes e evoluindo para um thriller policial, com momentos de tensão e drama que mantêm o espectador engajado.
No entanto, o roteiro, escrito por Paula Fiúza, peca em alguns aspectos. A transição entre os gêneros nem sempre é fluida, e certos arcos narrativos, como o do major corrupto, parecem subdesenvolvidos. A relação de Nina com Marcinho (Thawan Lucas), um garoto da comunidade, é tocante, mas poderia ter sido mais explorada para evitar clichês, como a ideia do "salvador branco", que surge no final. Apesar dessas falhas, a história consegue transmitir uma mensagem forte sobre justiça e resistência, especialmente em um contexto social tão relevante quanto o do Brasil.
Fernanda Montenegro é, sem dúvida, o grande destaque do filme. Aos 93 anos, a atriz entrega uma performance multifacetada, alternando entre humor, drama e tensão com maestria. Sua interpretação de Nina é carregada de nuances: ela consegue transmitir a solidão, o medo e a determinação da personagem com uma naturalidade impressionante. A cena em que ela tenta consertar uma xícara quebrada, por exemplo, é uma metáfora poderosa para sua luta interna e externa, e Montenegro a executa com uma sensibilidade que arrebata o público.
O restante do elenco, embora competente, não consegue acompanhar o brilho de Montenegro. Linn da Quebrada, como a vizinha Bibiana, e Alan Rocha, como o jornalista Flávio, entregam boas atuações, mas seus personagens são pouco desenvolvidos, servindo mais como apoios narrativos do que como figuras complexas. Thawan Lucas, como Marcinho, tem momentos tocantes, mas seu arco é prejudicado por uma falta de profundidade no roteiro.
O roteiro de Paula Fiúza tem méritos inegáveis, especialmente na construção da protagonista e na forma como aborda temas como violência urbana, corrupção e solidão. A narrativa é envolvente e emocional, mas sofre com algumas inconsistências. A transição entre os gêneros (dramédia, drama, thriller) nem sempre é suave, e alguns personagens secundários parecem caricatos, como o condômino conservador ou o jovem esquentado. Além disso, o final, embora satisfatório, poderia ter sido mais impactante se explorasse melhor as relações entre Nina e os moradores da comunidade.
A escolha de Fernanda Montenegro para o papel principal, embora justificada pelo peso dramático da atriz, levanta questões sobre representação racial, já que Joana Zeferino da Paz era uma mulher negra. Esse aspecto, no entanto, foi além do controle da produção, já que a identidade real de Joana só foi revelada após o término das filmagens.
A fotografia de Vitória é um dos pontos altos do filme. A direção de fotografia captura com maestria a atmosfera cinzenta e melancólica do Rio de Janeiro, refletindo a dureza do cotidiano da protagonista. O apartamento de Nina, inicialmente aconchegante, torna-se um espaço claustrofóbico e tenso à medida que a trama avança, e a câmera trabalha bem essa transformação. As cenas externas, que mostram a violência e o caos da comunidade, são filmadas com um realismo cru que reforça o tom neorrealista da obra.
No entanto, há falhas pontuais, como o tratamento desigual da iluminação em cenas com personagens negros, o que pode distrair o espectador mais atento.
A trilha sonora de Vitória é discreta, mas eficaz. Ela complementa a narrativa sem roubar a cena, reforçando os momentos de tensão e os de introspecção. A escolha de músicas regionais e instrumentais ajuda a imergir o espectador no contexto do filme, embora não haja nenhum tema memorável que se destaque após o término da exibição.
O final de Vitória é emocionante e satisfatório, mas não surpreende. A analogia da xícara quebrada, que percorre todo o filme, ganha um significado especial no desfecho, simbolizando as cicatrizes e as conquistas de Nina. A protagonista consegue expor a corrupção e o tráfico, mas a um custo pessoal alto, o que reforça o tema central do filme: a luta pela justiça em um sistema falido. No entanto, o final poderia ter sido mais impactante se explorasse melhor as consequências das ações de Nina na comunidade e em sua própria vida.
Vitória é um filme que se sustenta principalmente pela força de sua história real e pela atuação magistral de Fernanda Montenegro. A direção de Andrucha Waddington é competente, mas não inovadora, e o roteiro, embora envolvente, peca em alguns aspectos, como o desenvolvimento de personagens secundários e a transição entre gêneros. A fotografia e a trilha sonora contribuem para a atmosfera do filme, mas não são memoráveis.
Apesar de suas falhas, Vitória é uma obra importante e emocionante, que resgata a história de uma mulher corajosa e a transforma em um símbolo de resistência. O filme pode não revolucionar o cinema brasileiro, mas certamente deixa uma marca, especialmente pela atuação de Fernanda Montenegro, que mais uma vez prova por que é uma das maiores atrizes do país. Para os fãs de cinema e para aqueles que buscam histórias inspiradoras, Vitória é uma experiência que vale a pena.