Sobre Mickey 17
O filme começa com um corpo sendo impresso por uma máquina. que vemos ali não é uma pessoa: parece mais uma coisa, um produto, que embora provido de consciência, é considerada sem valor nenhum (Descartável). Conforme vai sendo impresso, vemos sua cabeça sendo batida contra as barras de metal da esteira, sem qualquer reclamação; e sem qualquer reação daqueles que ali estão ao redor; o corpo chega a cair diretamente no chão - tal como um saco de lixo, uma mercadoria qualquer - uma vez que os seres humanos que o imprimem parecem não se importar consigo. Ele não é importante, ele é descartável, invisível para o mundo. Os seres humanos que ali estão não preparam a esteira para recebê-lo, tropeçam nos seus fios, conectam-os novamente como se nada tivesse acontecido - e realmente nada teria acontecido? Esse tempo desconectado teria alguma implicação na transmissão e armazenamento de memórias do personagem? Não sabemos, mas para quem está lá isso simplesmente não importa.
Não sei se era o intuito, contudo fiquei pensando acerca de nossas descobertas científicas. Até onde estamos dispostos a sacrificar “o outro” - seja ele um rato, um coelho - indivíduos de nossa própria espécie (Mickey) - chegando ao ápice de sacrificarmos o que nem ao menos conhecemos (alienígenas “Rastejadores”) - para um tal “molho”, supérfluo, que não parece ter função alguma, ironicamente, enquanto se vive num ambiente com escassez de alimentos e necessidade de racionamento - principalmente vindo daqueles que mais são explorados pelo sistema vigente. (Os descartáveis).
Debates éticos sem fim - como podemos sugerir que alguém doe sua vida (quantas vezes fosse possível) - em prol de uma descoberta científica? Termos de consentimento que mais parecem papéis que se assinam para se abster de processos judiciários… mas e quanto o à ética? Como se pode ter a mente tranquila quando se faz alguém assinar tais termos? Não seria isso omissão? Negligência? Imoral?
Embora múltiplos - clones sem fim de uma mesma matriz - fica claro que ainda sim, somos diferentes. Cada organismo tem em si sua própria essência, sua alma, seu espírito, sua consciência, e nossa mente não é só repleta de memórias - ou todos os Mickeys seriam iguais. Ainda sim, onde o Homem é um objeto, vemos ainda sua Humanidade, sua individualidade, suas particularidades. Cada um é único. Não importa o que o mundo diga; em que grupo lhe classifique - um caçador de elite ou um descartável. Cada indivíduo tem em si o direito de ser - e não apenas estar, ocupando o tempo com missões tolas e sem propósito.
O Amor não me convenceu muito. O relacionamento parece mais baseado no sexo - e num fetiche com ménages que sinceramente acho que não tenha acrescentado à trama, mas vá lá…. O feito está feito.
Dezessete tem um quê de Forrest Gump - uma inocência e simplicidade que parece ter sido exportada daquela trama. Até o jeito de Robert Pattinson, seu sotaque - me remeteu muito a Forrest Gump. Dezoito é a versão do mundo - a versão de si que sente raiva, que vê a maldade no mundo e se indigna - e que, diferente de dezessete, não se conforma.
Por fim, acho interessante o questionamento da morte sempre ser um momento desagradável - não importa se já a tenha experienciado ou não. Ela continua causando sempre o mesmo desconforto - e nos lembrando da irreverente realidade: de que somos seres mortais, e portanto, fadados ao nosso próprio fim.
Sendo assim, não poderíamos ser reduzidos a um número qualquer, a uma missão. Precisamos ser genuínos; seres únicos - com direito a nome e sobrenome.