Os Rejeitados (The Holdovers) 2023
"Os Rejeitados" é dirigido por Alexander Payne e escrito por David Hemingson em sua estreia como roteirista de um longa-metragem. O filme se passa no ano de 1970, e é estrelado por Paul Giamatti como um professor clássico rigoroso em um internato de uma pequena cidade em Massachusetts, que é forçado a acompanhar e ser o responsável por um grupo de alunos que estão retidos durante as férias de Natal.
Alexander Payne é um cineasta conhecido por ter uma opinião forte, por impor um senso de humor ácido aliado à um contexto satírico, o que muita das vezes compõe roteiros mais afiados, com um certo nível de críticas sociais, com monólogos e todo um desenvolvimento de personagem. Alexander já tem uma grande bagagem hollywoodiana, já foi indicado ao Oscar e já venceu por "Sideways" (2004) e "Os Descendentes" (2011).
Diferentemente dos dois filmes citados, em que Alexander Payne ganha o Oscar justamente pelo seu roteiro, em "Os Rejeitados" ele conta com um roteiro inteiramente escrito pelo roteirista David Hemingson. David sempre esteve mais envolvidos com roteiros de séries, como por exemplo: "How I Met Your Mother" (2005), "American Dad"(2005) e "Whiskey Cavalier" (2019). Aqui David surpreende ao trazer um roteiro que foca principalmente no estudo de personagem, no desenvolvimento de personagem, traçando uma linha entre uma comédia natalina e um profundo drama.
"Os Rejeitados" tem um início mais voltado ao desenvolvimento das grandes películas da década de 70, funcionando como resgate nostálgico da época, emulando toda aquela época, que foi justamente uma época marcada pelos grandes protestos, os grandes conflitos e as grandes mudanças em todo território norte americano. Este cenário é o pano de fundo do desenvolvimento de toda a história, já que no início temos o grupo dos "Rejeitados" que estão sobre a tutela daquele professor, que obrigatoriamente estão com os seus sonhos trancados e sofrem uma melancolia. É interessante notar que todos do grupo sofrem de alguma forma com aquele abandono de suas famílias, com aquela situação que estão passando, por mais que eles não admitam nem para eles próprios. E aqui entra a parte que o roteiro aborda questões humanas sobre o relacionamento humano entre pais, filhos e professores.
O roteiro foca no desenvolvimento de pontos como relacionamento, isolamento, crescimento, o teor da juventude, da aceitação e da superação. De início fica bem claro toda as questões que serão abordadas ao logo da trama, porém, logo após a parte que os três alunos (Teddy Kountze, Alex Ollerman e Ye-Joon Park) vão embora de helicóptero, o filme cresce ainda mais de rendimento, muda de tom, de ritmo e passamos a acompanhar aquele relacionamento conturbado que vai tomando forma entre mentor e aprendiz. Esta segunda parte é onde o filme constrói e estabelece sentimentos de solidão, conexão, reaproximação, libertação, transformação, criando um ambiente que percorre o sentimentalismo, a dor, a perda, o luto, o trauma e o abandono.
Nesse ponto o roteiro é muito hábil e muito inteligente ao traçar uma linha que percorre sobre o trio (Paul, Tully e Mary), mostrando suas diferenças, suas personalidades, seus conflitos, seus pensamentos, suas fragilidades, suas vulnerabilidades, o que logo corrobora para cada um lidar com suas dores, seus traumas e seus sofrimentos internos. O longa consegue abordar com maestria cada um desses pontos fazendo uma dosagem perfeita entre o sentimento de nostalgia, solidão, melancolia, mas sem desandar para o melodrama forçado e aidna conseguindo mesclar tudo dentro de uma comédia dramática. O mais interessante é a forma como o filme consegue manter o equilíbrio de todos os personagens, pois cada um tinha sua dor e seu sofrimento interno, e por mais que nenhum deles quisessem estar naquele local em uma data que remete a união familiar, mas logo eles vão se reencontrando, criando um vínculo improvável, um senso de união, uma forma para que juntos pudessem encarar suas diferenças enquanto atravessavam aquelas férias natalina.
"Os Rejeitados" é aquele típico caso que você lê a sinopse e não dá nada para o filme, e justamente, temos aquela história simples porém bem desenvolvida, bem contada, bem interpretada, com um tom sensível, emocionante, libertador, que logo nos prende e nos deixa confortável aquecendo os nossos corações. De fato é muito gostoso e muito comovente acompanhar aquele nascimento daquele relacionamento improvável entre aluno e professor, aidna mais se falando de duas pessoas que a princípio se mostram totalmente diferentes, com ideias e atitudes diferentes. Porém, com o passar da história vamos conhecendo melhor cada um e entendendo melhor cada um. Como no caso do Angus Tully (Dominic Sessa), que se mostra rebelde, insatisfeito, melancólico, e justamente pela sua criação, pelo abandono de sua família. Como na cena em que ele nos conta toda a sua história e logo após ele vai ao encontro do seu pai, que está internado por sofrer de uma doença mental debilitante, esquizofrenia paranoica e demência precoce. Ali já notamos toda a sua desconstrução e descaracterização daquela personalidade que conhecemos no início.
Dominic Sessa faz a sua estreia no cinema e de cara ele já nos surpreende com uma atuação forte, arrojada, competente, de um jovem rebelde, problemático, rejeitado, revoltado com a vida, tomado por dores e traumas familiares. Porém, logo ele nos conquista e nos convence pela sua sensibilidade, pelo seu carisma, pela sua naturalidade de atuar, que realmente nos desperta empatia e passamos a sentir as suas dores.
Já o Paul Giamatti (dos clássicos "O Show de Truman" e "O Resgate do Soldado Ryan") faz aquela linha de professor carrancudo, linha dura, com um olhar rigoroso e uma postura mais arrojada, que a principio transcende os seus limites até aquela conexão imediata e problemática com o Jovem Tully. Uma atuação extremamente perfeita e muito bem apresentada de Paul Giamatti, que navega em diferentes personalidades de seu personagem, nos expondo um lado rigoroso tomado de um senso de humor sarcástico, contrapondo com um lado mais humano, mais natural e mais sensível de um professor que cria empatia e compaixão pelo seu aluno.
E aqui vale destacar a enorme química alcançada entre o Dominic Sessa e o Paul Giamatti, que juntos estiveram o tempo todo em uma perfeita harmonia, sintonia, expondo carisma, sinergia, um senso de humor, um timing para as cenas mais cômicas, mais hilárias, mais casuais, e compondo duas personalidades que juntas se reencontraram com uma enorme transformação de caráter.
Completando o belo trio de "Os Rejeitados", temos a Da'Vine Joy Randolph ("Only Murders in the Building") que interpreta a cozinheira-chefe Mary Lamb. Mary é uma mulher ressentida, trancada dentro de si, enlutada pela perda do filho na guerra, que silenciosamente explora a sua dor e o seu trauma. Porém, ela é a peça-chave que começa a costurar as emendas do roteiro em relação a improvável convivência entre Paul e Tully. No fim ela é parte fundamental do trio, que juntos exploram suas dores, a profundidade da solidão e a essência da construção daquele relacionamento. E o mais interessante é que juntos eles conseguem encontrar conforto, carinho e afeto. Belíssima atuação de Da'Vine Joy Randolph, que nos conquistou pelo seu enorme carisma e seu ótimo trabalho.
E para contextualizar a enorme química do trio, temos algumas cenas que são interpretadas como uma verdadeira libertação.
Como por exemplo: aquela cena onde os três estão ao lado de fora do restaurante, onde juntos fizeram o seu próprio "Cherries Jubilee". Esta é uma cena incrível, onde já exemplifica o poder de um relacionamento construído como uma base familiar.
Aquela cena que o Paul defende o Tully na frente do diretor, da mãe e do padrasto, afirmando que a culpa era dele, ao levá-lo naquela férias e o convencer a visitar o pai. E o Paul sacrifica o seu emprego ali para evitar que o jovem fosse para uma escola militar. É uma cena que funciona como uma lavagem na alma do Paul, afinal de contas ele estava se doando e fazendo uma coisa boa, pois no fim ele conheceu a verdadeira personalidade do Tully e viu todo o seu potencial.
E no fim temos o fechamento com chave de ouro, o ápice de toda a trama; que é justamente a despedida do Paul e o Tully, com ele dizendo que não sabia o que o Paul tinha dito para seus pais e o diretor, mas que ele não iria mais ser expulso. Eles se despedem com um forte e verdadeiro aperto de mãos, com o Paul partindo comovido e o filme acabando. Este final é apoteótico, libertador, um afago em nosso coração, em nossa alma, funcionando como uma verdadeira lição de vida, de formação de carácter, de amadurecimento, de engrandecimento e de criação do ser humano.
Destacando as partes técnicas do filme:
A trilha sonora é melodramática, mas isso não quer dizer que é ruim e nem forçado, soa como necessária para acompanhar todo o desenrolar daquela história. Tanto que no início tínhamos uma trilha sonora mais potente, dado ao momento de rebeldia do grupo, logo após a trilha é mais densa, mais pesada, mais comovente, com melodias mais agravantes diante daquele cenário. Sem falar que ainda tínhamos algumas músicas natalinas, que personificou ainda mais a proposta do filme. A cinematografia é bem apresentada, cujo funcionamento esteve em perfeita harmonia com uma base sólida da fotografia. Sem falar na direção de arte, que também colaborou em grande estilo com cenários que nos remetia à década de 1970.
"Os Rejeitados" foi eleito um dos 10 melhores filmes de 2023 pelo National Board of Review e pelo American Film Institute, e recebeu muitos outros prêmios, incluindo o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante (Da'Vine Joy Randolph) e Melhor Ator em Filme – Musical ou Comédia (Paul Giamatti). Também recebeu cinco indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Ator para Paul Giamatti, Melhor Atriz Coadjuvante para Da'Vine Joy Randolph e sete indicações ao BAFTA, incluindo Melhor Filme e Diretor.
"Os Rejeitados" arrecadou US$ 211.093 em seis cinemas em seu fim de semana de estreia, uma média de US$ 35.082 por local, totalizando US$ 26 milhões no geral.
Por fim: Alexander Payne nos brinda com um excelente filme que trata de uma leitura de personagem, uma avaliação comportamental, de criações de vínculos, de relacionamentos, analisando temas como melancolia, dor, luto, perdas e recomeços. Sem dúvida o filme consegue nos imergir em uma comédia dramática natalina inserida em uma releitura acerca da solidão, do abandono, da aceitação, da redenção, que nos mostra principalmente os nossos erros, a nossa superação e a reconstrução de relacionamentos quebrados entre pais e filhos.
"Os Rejeitados" é uma grata surpresa, pois no fim eu fiquei comovido e tocado pela sua linda mensagem, que inclui valores, conceitos, empatia, bondade, sensibilidade, e principalmente uma grande lição de vida.
[28/01/2024]