Tron - O Legado
Críticas AdoroCinema
3,5
Bom
Tron - O Legado

Universo Revisitado

por Francisco Russo

Quando Tron - Uma Odisséia Eletrônica foi lançado, em 1982, o mundo era diferente. Os computadores começavam a se popularizar e, como tudo que é novo, representavam uma ameaça para muitos. Dentro deste contexto, alguns filmes da época aproveitaram o mote do perigo que a nova realidade poderia trazer. Tron foi um pouco mais longe, pois também promoveu uma imersão - literalmente - no mundo tecnológico. Apesar do fracasso comercial, tornou-se cult. Gerou fã clube, virou brinquedo, jogo e toda espécie possível de lembranças. Tron - O Legado surge quase três décadas depois, disposto a promover a mesma sensação no espectador. Consegue.

Consegue muito graças à tecnologia 3D aplicada. Assim como Avatar, Tron - O Legado foi concebido para ser em 3D desde o início. Ou seja, o filme foi pensado de forma que a tecnologia auxiliasse a história, ao invés de ser apenas um meio caça-níqueis para cobrar um ingresso mais caro. O resultado pode-se perceber quando Sam Flynn (Garreth Hedlund, correto na função de herói) entra na grade, o ambiente totalmente informatizado desenvolvido décadas antes por seu pai, Kevin (Jeff Bridges). Em um mundo estilizado onde os programas possuem forma humana, meio simples mas eficiente para a boa condução da história, o 3D ajuda a ressaltar o show de luzes e sombras presente.

O visual é outro ponto crucial. Afinal de contas, o ambiente tecnológico foi o grande chamariz do filme original. Nos dias atuais, onde praticamente tudo é possível graças aos efeitos especiais, criar algo novo e ao mesmo tempo atraente e condizente com o primeiro Tron era o grande desafio. O diretor Joseph Kosinski foi feliz nas escolhas, gerando um universo sombrio e de fácil identificação através das cores - os mocinhos têm tonalidade azul, os malvados vermelha. Junta-se os veículos que deixam um rastro de luz sólida e voilá. O universo está pronto, proporcionando um forte impacto não apenas pelo seu visual mas também pela qualidade das cenas de ação, por sua vez também auxiliadas pelos elementos estéticos aplicados.

Além do universo estilizado, o filme traz outros pontos altos. Um deles é a dupla atuação de Jeff Bridges, criando personagens antagônicos através do visual adotado e do rejuvenescimento tecnológico nele aplicado. Em algumas cenas o jovem Bridges soa artificial, mas, de qualquer forma, a ideia funciona dentro do que o filme se propõe. Outro destaque é Michael Sheen, de espírito completamente anárquico. Com movimentos lembrando de Charles Chaplin a Rocky Horror Picture Show, seu personagem é o que há de mais divertido no filme. Méritos também para a ótima trilha sonora, composta pelo duo Daft Punk.

Entretanto, tamanho cuidado no lado visual não se repete quando o assunto é roteiro. O filme insiste no batido e sempre atual conflito entre produtos de informática cobrados e disponibilizados gratuitamente, algo já visto em filmes como Ameaça Virtual e até mesmo A Rede Social. Há também questões deixadas em aberto, provavelmente de forma proposital para que sejam exploradas em possíveis sequências. E há uma forte reverência ao passado, presente em detalhes como os brinquedos no quarto de Sam, a loja de arcades e a música tema do primeiro filme, com seu espírito típico dos anos 80. Os saudosistas vão se deliciar!

Tron - O Legado é um bom filme de ação, que merece ser visto em 3D para melhor apreciação da obra como um todo. Não possui uma trama revolucionária e nem era esta a proposta. O simples combate bem x mal está presente e funciona. O que importa, neste caso, não é nem tanto o que acontece mas sim a forma como acontece. É o cinema sendo utilizado em sua expressão sensorial, de forma a promover, assim como o primeiro Tron, a imersão do espectador no universo proposto. Consegue.

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