Através da Minha Janela (ou A través de mi ventana, para aqueles que preferem o sabor exótico do espanhol), a obra-prima que tenta convencer os desavisados de que amor adolescente e drama familiar podem ser misturados em um coquetel de clichés destrutivos e diálogos dignos de novelas de quinta categoria. O filme, adaptação do best-seller do Wattpad de Ariana Godoy, não se contenta apenas em ser uma história de romance adolescente previsível, mas também leva o conceito de “tóxico” para um novo patamar – e não, não estamos falando de algo com uma pitada de drama saudável, mas de um redemoinho de relações abusivas disfarçadas de "paixão".
O enredo é, no mínimo, confuso e recheado de elementos que parecem mais um desfile de clichês do que uma narrativa coerente. Raquel, a protagonista, começa a história como a típica garota pobre e observadora, fascinada por seu vizinho, Ares, que vive em uma mansão e faz parte de uma família mega rica e poderosa. Ares, o "bad boy" do enredo, é tão desprezível quanto se pode ser, mas aparentemente Raquel não consegue enxergar isso, pois sua obsessão por ele (literalmente, de hackear computadores a invadir a privacidade alheia) é considerada encantadora. A forma como ela, depois de ser desprezada e manipulada por ele repetidas vezes, ainda se oferece em bandeja, disposta a perdoá-lo por seus inúmeros abusos emocionais, é... bem, no mínimo bizarra.
A construção do relacionamento entre os dois é tão forçada quanto um romance forjado para esticar o filme até seus três atos, sem nunca realmente entregar algo que se aproxime de uma evolução emocional genuína. Se você está buscando um filme que explore a maturidade de seus personagens e mostre como o amor verdadeiro deve se basear em respeito mútuo, você provavelmente terá uma overdose de sarcasmo com essa produção. A constante troca de poder entre os protagonistas — ela "controlando" o Wi-Fi, ele invadindo a janela dela como uma espécie de rede social de stalker – cria uma atmosfera de total imaturidade emocional, onde as escolhas são tão imprevisíveis quanto as reações de uma criança diante de uma loja de doces.
Agora, vamos falar sobre as atuações. Não há muito o que dizer além de "está difícil". Julio Peña, no papel de Ares, tenta interpretar o "galã misterioso", mas sua interpretação é mais uma série de olhares vazios e expressões de "eu sou sexy, mas estou emocionalmente indisponível", o que, sinceramente, acaba sendo mais irritante do que sedutor. Clara Galle, como Raquel, segue a linha da protagonista infeliz, presa em sua obsessão por um personagem que não merece nem um décimo de sua atenção. A atuação de Galle carece de qualquer profundidade emocional, já que seu papel exige mais reações exageradas de raiva e confusão do que qualquer tipo de desenvolvimento autêntico.
O roteiro, assinado por Eduard Sola, parece ter sido escrito enquanto alguém tentava fazer uma lista de todos os clichês românticos possíveis. Aqui estão apenas alguns exemplos de como Através da Minha Janela faz tudo de errado: o personagem principal é uma escritora que não tem coragem de publicar sua história (um reflexo de uma trama que nunca vai além da superficialidade); temos o "bad boy" e a "garota que não se encaixa", ambos em um jogo interminável de manipulação emocional e drama juvenil, como se a complexidade da relação fosse baseada apenas em brigas e reconciliações rápidas. Se o filme fosse um livro, seria um daqueles romances de aeroporto, onde os personagens mudam de opinião a cada 10 minutos para manter a história fluindo — e, de fato, o filme parece ser exatamente isso, uma narrativa que nunca chega a realmente se aprofundar nas questões de seus próprios personagens.
A cinematografia de Através da Minha Janela é tão inovadora quanto uma caixa de papelão. A iluminação, a paleta de cores e a direção de arte são risíveis na forma como tentam transmitir uma sensação de riqueza e sofisticação (especialmente nas cenas que acontecem dentro das mansões dos Hidalgos), mas falham miseravelmente, transmitindo mais uma sensação de claustrofobia visual do que de luxo. As cenas de Ares subindo pela janela, de forma repetitiva, são provavelmente as mais icônicas da obra, não por sua originalidade ou criatividade, mas por seu tom repetitivo, como se a produção estivesse tentando criar um símbolo visual e fracassasse na tentativa de profundidade.
A música no filme, como a narrativa, faz o possível para ser emotiva e envolvente, mas o que conseguimos perceber é uma coleção de canções melancólicas e dramáticas, feitas para fazer o público se sentir "no clima", mas que em grande parte são apenas elementos sonoros desnecessários que se repetem ad nauseam. Não há nada de inovador ou marcante que se destaque, apenas mais uma tentativa de criar um "feeling" que acaba sendo perdido na imersão forçada do drama.
O clímax e o final de Através da Minha Janela são a cereja do bolo do absurdo. O filme tenta, de forma patética, gerar uma sensação de crescimento pessoal e romantismo ao final, mas é tão inverossímil e forçado que chega a ser quase cômico. Raquel, depois de ser repetidamente tratada como um capacho emocional, finalmente encontra coragem para escrever seu livro e, por alguma razão inexplicável, o final se transforma em um grande clichê de “eles se amam, mas agora é tarde demais”. Se você está esperando por uma verdadeira resolução, prepare-se para uma decepção. O final é previsível, vazio e absolutamente anticlimático.
Àtravés da Minha Janela é a escolha perfeita para quem deseja perder duas horas da sua vida assistindo a um conjunto de estereótipos, manipulações emocionais e uma história romântica absolutamente vazia. A sequência, Através do Mar (lançada em 2023), e o terceiro filme, Através de Tu Mirada (2024), são continuidades de um enredo sem fundo, e não há grande mistério de como terminarão — com mais clichês, mais drama e, claro, mais janelas sendo escaladas. Para quem deseja mergulhar no universo de relações tóxicas disfarçadas de amor verdadeiro, este filme é um manual. Caso contrário, é um grande alerta para os riscos do drama adolescente sem fundo.
Através da Minha Janela é uma obra que faz você refletir se a verdadeira arte não está em escapar de sua janela para um lugar mais saudável.