Peaky Blinders: O Homem Imortal encerra história de Tommy Shelby (Cillian Murphy) de forma explosiva e emocionante
por Bruno Botelho dos SantosQuando falamos das séries mais populares e influentes do século 21, Peaky Blinders é, sem sombra de dúvidas, uma das mais importantes. Lançada em 2013, a produção da BBC se tornou um fenômeno mundial até seu encerramento na sexta temporada em 2022, conquistando crítica e público. Por trás de todo estilo e violência, o que sempre me chamou atenção na série é como ela entrelaça eventos reais e tramas políticas com a história da gangue criminosa (que tem inspirações na vida real) de Birmingham, na Inglaterra, liderada pela família Shelby, acompanhando uma jornada de ascensão e traumas do protagonista Tommy Shelby, interpretado por Cillian Murphy (vencedor do Oscar por Oppenheimer).
Após a série, o filme Peaky Blinders: O Homem Imortal (2026), lançado e produzido pela Netflix, continua e termina a história de Tommy Shelby, com uma conclusão emocionante e explosiva para este capítulo na Segunda Guerra Mundial.
Netflix
Peaky Blinders: O Homem Imortal é ambientado alguns anos após os eventos da série, em Birmingham, no ano de 1940, durante os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial.
Em meio ao caos da guerra, acompanhamos Tommy Shelby (Cillian Murphy) voltando do exílio voluntário para seu acerto de contas mais violento. Com o futuro da família e do país em jogo, ele precisa encarar os próprios demônios e decidir se vai confrontar seu legado ou destruir tudo. Enquanto isso, conhecemos uma nova geração dos Peaky Blinders liderada por Duke (Barry Keoghan), filho do protagonista, e uma conspiração nazista se infiltra em Birmingham, organizada por John Beckett (Tim Roth).
Netflix
Desde o começo, Tommy Shelby sempre foi uma personalidade complexa e muito além da imagem de “frio e calculista” que se consolidou na cultura pop, repleto de traumas pela sua experiência na Primeira Guerra Mundial e pessoas amadas que perdeu no caminho. Em Peaky Blinders: O Homem Imortal, encontramos Shelby novamente assombrado pelos fantasmas de seu passado, isolado em uma mansão abandonada.
"Eu não estou só quando estou só. Os espíritos aparecem para mim"
O filme começa justamente explorando esses conflitos internos de Tommy. O diretor Tom Harper constrói visualmente um cenário de instabilidade e fantasmagórico para o protagonista naquele lugar abandonado, enquanto ele tenta reencontrar seu propósito. Neste contexto de Segunda Guerra Mundial, repleto de niilismo e sem perspectivas, é interessante e simbólico que o roteiro de Steven Knight (criador da série) coloque o personagem de Cillian Murphy recuperando seu caminho pela jornada espiritual – na conexão com sua ancestralidade e raízes ciganas (Romani). É neste despertar que Kaulo, uma mulher enigmática vivida por Rebecca Ferguson, tem um papel fundamental.
Cillian Murphy está de volta para sua despedida como Tommy Shelby e, após tantos anos no papel, ele entende perfeitamente como abordar a vulnerabilidade e instabilidade psicológica do personagem, mas também sua imponência quando está na ativa. A produção da Netflix ainda revela um novo conflito essencial com relação ao seu filho e na preocupação com seu legado e traumas que continuam sendo transmitidos.
Netflix
Enquanto a série original aborda o período entreguerras, o filme O Homem Imortal entra na Segunda Guerra Mundial, com os nazistas tentando usar os Peaky Blinders e outras gangues para quebrar a economia da Grã-Bretanha e vencer a guerra.
Com a ausência de Tommy Shelby, conhecemos uma nova geração de Peaky Blinders instaurando o caos em Birmingham e comandada por Duke Shelby, filho ilegítimo do protagonista – interpretado originalmente por Conrad Khan na sexta temporada e, aqui, é substituído por Barry Keoghan (Saltburn e Os Banshees de Inisherin). Infelizmente não temos o tempo necessário de desenvolvimento para esses personagens, mas Keoghan funciona no papel, tanto pela sua brutalidade enquanto líder da gangue e também pelas fragilidades quando se trata do legado da família e abandono do seu pai.
Se por um lado temos a jornada espiritual de Tommy, outra parte da narrativa foca na conspiração política armada por John Beckett, um simpatizante do Partido Nazista. Uma das principais novidades do elenco, Tim Roth está acostumado a interpretar vilões na sua carreira, incluindo Abominação no Universo Cinematográfico Marvel e General Thade em Planeta dos Macacos (2001), e se apresenta em Peaky Blinders como uma figura simpática e manipulativa para conseguir fazer negócios perigosos com Duke.
O acerto de Peaky Blinders: O Homem Imortal está nessa instabilidade política e no conflito das relações, que passeiam pela lealdade e traição, que vão construindo uma tensão constante até uma sequência final explosiva e emocionante envolvendo Tommy Shelby e seus antigos aliados, incluindo Hayden Stagg (Stephen Graham) e Johnny Dogs (Packy Lee), que rende o momento mais intenso e grandioso do filme.
Netflix
Peaky Blinders: O Homem Imortal é um encerramento perfeito para quem acompanhou todas as temporadas da série, concluindo a história de Tommy Shelby de forma emocionante, enquanto o personagem se liberta dos fantasmas do passado e se conecta com sua ancestralidade. Como o próprio roteirista Steven Knight disse em entrevista ao AdoroCinema, era a “única maneira possível” de terminar esse capítulo.
Infelizmente, é importante ressaltar que o filme, disponível na Netflix, não deve funcionar tão bem como uma experiência independente para quem não assistiu a produção original, considerando que ele se apresenta quase como um episódio estendido que continua os acontecimentos da temporada final.
Toda essa jornada espiritual do protagonista interpretado por Cillian Murphy não apenas se aprofunda no desenvolvimento do personagem, mas também serve como uma batalha potente simbólica neste cenário de Segunda Guerra Mundial e confronto contra os nazistas. Um ciclo foi concluído com Tommy Shelby, mas Peaky Blinders vai continuar com produções derivadas e já conhecemos uma nova geração no longa.