Do Que as Mulheres Gostam é aquele tipo de filme que faz você pensar: "E se os homens realmente entendessem as mulheres? O mundo acabaria em 24h ou surgiria uma nova religião?" A premissa é simples: Nick Marshall (Mel Gibson), um publicitário tão machista que provavelmente assovia para as próprias costelas, ganha o "dom" de ler mentes femininas após um acidente elétrico digno de Tom e Jerry. O que começa como uma ferramenta para manipular a chefe (Helen Hunt) vira uma jornada de autoconhecimento — ou, como eu gosto de chamar, "A Desconstrução de um Babaca em 120 Minutos".
O roteiro, embora previsível, é eficiente. A transformação de Nick de "predador de happy hour" para "homem que finalmente escuta" (literalmente) é tão satisfatória quanto ver um playboy levar um fora. Claro, há suspensão de descrença — afinal, qual mulher deixaria um cara que até ontem as tratava como troféus se aproximar só porque ele agora sabe o que elas pensam? Mas é Hollywood, gente. Aqui, até o patriarcado tem redenção arcade.
Mel Gibson está no auge do seu charme pós-Coração Valente, pré-vídeos vazados. Ele entrega um Nick Marshall carismático, mesmo quando o personagem é um imbecil completo. Sua expressão de pânico ao ouvir os pensamentos das mulheres é tão engraçada quanto um gato assustado com pepino. E a cena em que ele testa produtos femininos? Oscar de Melhor Ator em uma Tragédia Cômica Pessoal.
Helen Hunt, como Darcy, é competente, mas seu personagem sofre do mal das protagonistas de rom-com: é perfeita demais para ser real. Ela é linda, bem-sucedida, independente, e ainda assim se apaixona por um cara que a sabotou profissionalmente. Suspense? Zero. Conveniência de roteiro? Check.
Destaque para Marisa Tomei e Bette Midler em participações curtas, porém matadoras. Tomei, como a terapeuta que quase enlouquece com as "revelações" de Nick, rouba cenas sem esforço. E Midler? Bem, ela é Bette Midler. Até num comercial de sabão ela seria icônica.
O roteiro é sagaz o suficiente para não cair no poço sem fundo das comédias românticas cafonas. Os diálogos são ágeis, e os momentos de humor funcionam — especialmente quando Nick descobre que as mulheres também pensam em sexo, mas de um jeito que deixa qualquer homem confuso ("Espera, ela quer carinho OU dominância?").
A evolução do personagem principal é bem construída, mesmo que a redenção dele seja um tanto... acelerada. Do nada, o cara vai de "colecionador de corações partidos" para "pai protetor e namorado perfeito". Mas, ei, é um filme de duas horas, não uma sessão de terapia.
Nancy Meyers dirige com seu estilo habitual: cenários luxuosos, cores quentes e uma iluminação que faz até o apartamento mais bagunçado parecer uma capa da Architectural Digest. As sequências em que Nick "ouve" os pensamentos das mulheres são bem executadas, com closes expressivos e montagem inteligente.
E os salto-altos? Ah, os salto-altos. A cena em que Nick experimenta um par é digna de estudo antropológico. Nunca um homem pareceu tão desesperado por um par de sapatos desde o Cinderela.
A trilha sonora é um jazz suave que acompanha a transformação de Nick de macho alfa para macho que pelo menos tenta. Frank Sinatra e Mack the Knife dão o tom perfeito para um filme sobre um homem que descobre que o mundo feminino não se resume a "gostam de flores e elogios".
O clímax é tão previsível quanto a cara de culpa de um cachorro que destruiu o sofá. Nick se redime, Darcy perdoa, e todos vivem felizes para sempre — ou até a sequência que nunca virá. A cena do beijo na chuva? Clichê? Sim. Eficiente? Absolutamente.
Do Que as Mulheres Gostam é uma comédia romântica que, surpreendentemente, ainda diverte. Tem humor, charme, e uma mensagem que, embora óbvia ("mulheres são seres humanos, não conquistas"), ainda precisa ser repetida para certos públicos.
Mel Gibson está ótimo, Helen Hunt segura o filme, e o roteiro, mesmo com suas conveniências, é inteligente o suficiente para não ser só mais um "ela odeia ele, até que não".
Porque, convenhamos, nenhum homem saiu desse filme realmente sabendo o que as mulheres querem. Mas pelo menos eles tentaram.
"Depois de assistir, meu amigo disse que queria o mesmo poder do Nick. Eu respondi: 'Cara, se você ouvisse o que as mulheres pensam de você, pedia para trocar de lugar com o Homer Simpson.'
Assista com a namorada, a mãe ou a irmã — mas prepare-se para ouvir um "Viu? É assim que tem que ser!" pelo menos uma vez.