Na mitologia que envolve a monarquia inglesa, a Rainha Ana, cujo governo durou de 1702 a 1714, não ocupa lugar de destaque, apesar de ter sido a responsável pela união da Inglaterra e da Escócia em um único estado soberano. O filme A Favorita, dirigido por Yorgos Lanthimos, traz esta figura à notoriedade, não ao retratar os bastidores de seu reinado, mas sim ao mostrar dois de seus relacionamentos pessoais.
O roteiro escrito por Deborah Davis e Tony McNamara enfoca a relação que a Rainha Ana (Olivia Colman, que voltará à pele da monarquia inglesa na terceira temporada de The Crown) estabeleceu com duas pessoas muito próximas a ela. A primeira delas é Sarah Churchill (Rachel Weisz), Duquesa de Marlborough, sua amiga de infância. A segunda é Abigail Hill (Emma Stone), prima de Sarah.
Mais do que embarcarem em uma disputa pela atenção, pelo respeito e pelo amor da Rainha Ana, Sarah e Abigail possuem características muito similares. Ambas possuem boas origens, são ambiciosas e não vão medir esforços para conseguirem o que desejam. Além disso, se deparam com uma monarca cuja auto-estima é baixa e que é facilmente manipulada, ao ponto de deixar as importantes decisões do seu governo nas mãos das duas amigas.
Um contraponto interessante que A Favorita nos mostra é que, apesar de terem a perspicácia de manipular a Rainha Ana, Sarah e Abigail não conseguem enxergar as realidades delas próprias e a forma como elas mesmas se tornam também objeto de disputa de poder, ao serem peças utilizadas pelos políticos da época – nesse sentido, notem as relações que as duas estabelecem com Godolphin (James Smith) e Harley (Nicholas Hoult).
Indicado a 10 Oscars 2019, A Favorita é um filme que chama a atenção pelo primor da sua parte técnica, bem como pelas atuações afiadas de seu trio central: Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone. Também é um destaque no longa o tom adotado por Yorgos Lanthimos: suas personagens possuem um tom acima do normal. Ou são dramáticas ao extremo ou são manipuladoras em excesso ou estão sofrendo com as consequências de seus atos.