É comum, lamentavelmente, em qualquer lugar da nossa sociedade atual, nos depararmos com pessoas que possuem um falso moralismo – mais especificamente, indivíduos que costumam dizer coisas do tipo: “ah, eu não tenho preconceito, mas tal coisa...” – esse “tal coisa” é justamente o preconceito que a pessoa diz não ter. É uma mera forma de esconder um ódio infundado por alguma raça, etnia ou minoria, geralmente enraizado no pensamento das pessoas por atitudes erradas de algum antepassado. E – o mais triste de tudo – é saber que “seres humanos” assim ainda estão por aí – e ocupando postos de destaque na sociedade, como alguns políticos racistas, xenófobos e homofóbicos espalhados pelo Brasil e o mundo, capazes de influenciar negativamente milhões de pessoas com seus discursos meramente odiosos.
O estreante diretor (e também autor do roteiro) Jordan Peele tem plena consciência disso. Ele consegue transformar uma história absurdamente simples em um gancho para uma estrutura temática bem mais complexa por de trás. E, dentre o cinema mainstream de Hollywood, Corra! é uma surpresa formidável dentre o gênero suspense, que ainda se utiliza com primor dos requintes do terror psicológico, mais impactante do que qualquer banho de sangue ou sustos gratuitos – como cineastas como Kubrick (O Iluminado) ou Polanski (O Bebê de Rosemary) já comprovaram.
A trama acompanha o rapaz negro Chris (Kaluuya), prestes a conhecer os pais de sua namorada caucasiana Rose (Williams). Temendo que não gostem do fato dele ser negro, mesmo assim, Chris parte para a viagem com Rose até a cidade onde os pais dela vivem – chegando lá, é muito bem recebido por eles, o pai Dean (Whitford) e a mãe Missy (Keener). Mas, em breve, começa a notar a estranheza das atitudes e comportamentos dos empregados (negros) da residência – Georgina (Gabriel) e Walter (Henderson) – levando a constatar que existe algum segredo macabro por trás dos pais de Rose – e acredito ser melhor eu parar por aqui – a fim de evitar os spoilers, porque devo admitir que a história chega a ser previsível (alguns pontos o próprio trailer entregou) – mas, utilizando-se do antigo ditado - “o que mais importa é a viagem e não o destino” – pode-se dizer que Jordan Peele dá uma verdadeira aula em questão de saber inserir um tema de forma que auxilie na condução da narrativa – garantindo uma fluência perfeita, sem jamais deixar o ritmo cair ou a tensão.
A grande sacada do roteiro de Peele é saber inserir diálogos nos momentos adequados – utilizando simbolismos de forma simples e direta – como o alce que Rose e Chris atropelam na estrada, que ressalta o sentido de um comportamento futuro de Chris – o diretor é hábil em não fazer do tema um mero palanque para discursos de moral – ele procura criticar o amago da questão: sua origem. Nesse sentido, os pais de Rose (e seus amigos) tornam-se um reflexo claro e funcional para a narrativa de um tipo de gente capaz de fazer atrocidades com outros indivíduos por um puro impulso de ódio – apenas porque alguém durante sua criação admirava ou, mais especificamente, criava este intuito em sua índole e pensamento – sem saber que a origem de tudo era apenas uma negação de certas pessoas da sociedade por estranhar um próximo apenas por este ter características físicas diferentes. O pai de Rose, vivido com uma atuação assustadoramente sarcástica pelo bom Bradley Whitford, escancara isso quando cita que seu pai perdeu uma corrida de atletismo no passado para o corredor Jesse Owens – atleta negro que ficou famoso ao vencer a medalha de ouro em solo nazista, revoltando os racistas governados por Hitler à época – fica evidente um certo tom de inveja na voz de Dean, por saber que seu pai branco não venceu um homem negro. Aliás, o diretor também mostra esse lado invejoso dos racistas de maneira assustadora.
O racista não se orgulha de ser racista, geralmente. Ele quer esconder isso. E, muitas vezes, com palavras – como quando Dean ressalta que “se pudesse, teria votado três vezes em Obama, se fosse possível ele se candidatar novamente” – demonstrando, é claro, que ter votado em um candidato negro não poderia desclassifica-lo como um racista. O racista enrustido acaba sendo o mais perigoso – você não conseguirá distingui-lo de outros – você não pode saber se suas palavras defendendo um negro, por exemplo, ao ser abusivamente peitado por um guarda de transito (como Chris acaba sendo) são reais ou não – Rose, vivida pela eficiente Allison Williams (da série Girls), tem a função clara de demonstrar parecer fazer aquele discurso pronto para defender o namorado do racismo que alguns lhe infringem. E sua mãe, Missy, vivida com uma composição muito boa de “falsa-meiga” por Catherine Keener, demonstra um preconceito de cara por achar que Chris é fumante – sem nem o ter visto fumando antes – o que é a deixa para que ela o faça passar por uma sessão de hipnose – é claro que existem outros motivos para ela submeter o rapaz à isso – e a atuação incrivelmente espontânea e na medida certa da expressividade por parte de Daniel Kaluuya, ajudam ainda mais a entendermos o terror psicológico que será imposto à Chris. A inserção das lembranças da morte da mãe de Chris também é bem utilizada para definir parte de seu comportamento atual. E é especialmente inteligente a forma como Daniel demonstra receio pelos comentários que ouve dos pais de Rose.
Peele aproveita-se de um desenho de produção bem simples – naturais poderia ser a palavra certa. Ele usa de angulações precisas, dando dimensões perfeitas de onde os atores estão – e sem apelar para recursos batidos do gênero – como esconder da câmera algum personagem que irá atacar algum outro. O cineasta é hábil em demonstrar o estado de Chris quando este é induzido à hipnose – jogando o ator em um abismo escuro, onde ele consegue ver o cenário de fora em algo que lembra uma janela distante. Aliás, Peele sabe usar os recursos comuns do gênero a seu favor, como os empregados negros que parecem estar se comportando feito zumbis, a questão da hipnose e, mais tarde, alguns elementos de medicina assustadores – tudo bem ressaltado pela trilha-sonora adequada (sem exageros, sem querer prever ou “traduzir cada momento”) de Michael Abels.
Ainda existe um uso incrível do humor – mas de uma forma um tanto inusitada. O amigo de Chris, Rod , vivido pelo expressivo Lil Rel Howery, que parece paranoico em dizer que os pais de Rose querem fazer algo contra o amigo – é especialmente interessante (e até reflexivo) a hora em que Rod tenta alertar três policiais (uma negra, um negro e um hispânico), que simplesmente dão risada da teoria que Rod criou sobre o que está acontecendo com seu amigo – numa sacada interessante, justamente por mostrar que o preconceito e o racismo ainda toma conta da sociedade de uma forma que até quem faz parte da etnia ou raça discriminada parece se esquecer (alienadamente) que o problema não existe – que seria absurdo uma pessoa branca (apenas por ela ser branca!) tentar fazer algum mal, nos dias de hoje, a alguma pessoa negra. O humor funciona de forma reversa aqui – não é engraçado, demonstrando a intenção de Peele em atingir o espectador, para que este se pegue embaraçado em rir de uma situação lamentável, que alguns tendem a banalizar.
Com um roteiro que não dá ponto sem nó, tendo respostas muito inteligentes às questões que aborda, Corra! acaba sendo um retrato absurdamente real e atual do racismo contra os negros, mostrando que o perigo dos falsos moralistas em querer taxar uma outra raça de inferior está enraizado na cabeça de muitos ainda – e a resposta (ou reação) de quem é oprimido pode ser traduzida como um ato errôneo pela sociedade, que parece, dentre alguns de seus integrantes, fazer questão de ser hipócrita e tentar disfarçar que não tem culpa por isso. E só o ressalto de que essa falsidade moral perigosa está presente em nosso mundo já não seria suficiente para assustar e tornar o longa em um dos melhores filmes de suspense e terror psicológico dos últimos anos? Sim, com certeza.