Se há um filme que encapsula o espírito da pornochanchada brasileira em sua forma mais desregrada, surreal e, por que não dizer, inesquecivelmente ridícula, esse filme é Um Pistoleiro Chamado Papaco (1986). Dirigido por Mário Vaz Filho e produzido na lendária Boca do Lixo de São Paulo, o longa é uma mistura explosiva de spaghetti-western, comédia pastelão, pornografia explícita e diálogos que beiram o absurdo. É o tipo de filme que faz você rir, chorar (de vergonha alheia) e questionar todas as suas escolhas de vida até aquele momento. Vamos destrinchar essa obra-prima do caos em seus elementos fundamentais, com uma boa dose de ironia e sarcasmo.
O enredo de Um Pistoleiro Chamado Papaco é tão simples quanto bizarro. Papaco, um pistoleiro que arrasta um caixão cheio de "mercadorias preciosas" (spoiler: não é o que você está pensando), perambula pelo Oeste brasileiro em busca de... bem, ninguém sabe ao certo. No caminho, ele encontra Pancho Favela, um homem que o desafia para um duelo e é derrotado de forma humilhante, seguido por uma cena de estupro que, obviamente, é tratada com a sutileza de uma marretada. Depois, Papaco conhece Linda, uma mulher que perdeu quatro maridos (todos mortos por ele) e decide acompanhá-lo. Chegando à cidade de Santa Cruz das Almas, Papaco se envolve em confusões com gangues, um anão chamado Big Boy e um bordel gerido por um papa-defunto. Sim, você leu certo: papa-defunto.
O roteiro é uma colcha de retalhos de clichês do faroeste, piadas de duplo sentido e cenas de sexo gratuitas. A trama é tão incoerente que chega a ser genial. É como se os roteiristas tivessem jogado ideias num chapéu e decidido usar todas, sem filtro. O resultado é uma narrativa que oscila entre o hilário e o perturbador, mas que, de alguma forma, consegue prender a atenção do espectador — mesmo que seja apenas para ver até onde a loucura vai.
Fernando Benini, o ator que interpreta Papaco, é a cereja do bolo dessa produção. Conhecido por seu papel como Firmino na novela Carrossel (2012), Benini aqui se transforma em um pistoleiro durão, de olhar penetrante e frases de efeito que beiram o nonsense. Sua atuação é tão exagerada que beira a caricatura, mas é exatamente isso que faz o personagem funcionar. Papaco é um anti-herói tão absurdo que só poderia ser interpretado por alguém disposto a abraçar o ridículo de corpo e alma.
Os demais atores seguem a mesma linha, com performances que variam entre o medíocre e o hilariamente ruim. Pancho Favela, interpretado por um ator cujo nome a história se recusa a lembrar, é um exemplo clássico de atuação que parece ter sido ensaiada cinco minutos antes das filmagens. Linda, a mulher que perdeu quatro maridos, é interpretada com uma mistura de resignação e tédio que, de certa forma, reflete o estado de espírito do espectador após a décima cena de sexo.
Os diálogos de Um Pistoleiro Chamado Papaco são um caso à parte. Cheios de palavrões, piadas de duplo sentido e frases que parecem ter sido escritas por um adolescente revoltado, eles são o coração (ou o câncer) do filme. Cenas como o duelo entre Papaco e Pancho Favela, seguido pelo estupro, são tratadas com uma leveza que beira o ofensivo. No entanto, é impossível não rir da absurdez das situações e das falas que parecem ter saído de um roteiro escrito às 3 da manhã, após uma noite de bebedeira.
O roteiro também brinca com clichês do gênero western, mas de uma forma tão desleixada que acaba se tornando uma paródia de si mesmo. A cena em que Papaco negocia com o anão Big Boy é um exemplo perfeito disso: um momento que deveria ser tenso, mas que acaba sendo hilário devido ao excesso de nonsense.
Surpreendentemente, a fotografia de Um Pistoleiro Chamado Papaco é um dos poucos aspectos que podem ser elogiados sem ironia. Apesar do orçamento limitado, o filme consegue capturar a estética do faroeste com uma certa competência. As cenas de ação, embora ridículas, são bem coreografadas, e os cenários, embora claramente baratos, têm um charme kitsch que combina com o tom geral da produção. O fotógrafo merece um troféu por conseguir fazer um filme tão caótico parecer visualmente coerente.
A trilha sonora é tão esquizofrênica quanto o resto do filme. Misturando temas típicos de faroeste com músicas que parecem ter sido compostas em um teclado de brinquedo, ela oscila entre o épico e o ridículo. Em alguns momentos, a música parece estar em completo desacordo com o que está acontecendo na tela, o que só aumenta o senso de surrealismo. É o tipo de trilha que você ouve e pensa: "Isso foi feito de propósito, ou alguém simplesmente apertou 'play' em uma fita aleatória?"
O final de Um Pistoleiro Chamado Papaco é a cereja do bolo dessa obra-prima do absurdo. Sem spoilers, digamos apenas que a revelação do conteúdo do caixão é tão anticlimática que chega a ser genial. É o tipo de final que faz você rir, não porque é engraçado, mas porque é tão estúpido que não há outra reação possível. É o fecho perfeito para um filme que nunca teve a intenção de levar a sério.
Um Pistoleiro Chamado Papaco não é um filme bom no sentido tradicional da palavra. Na verdade, ele é tão ruim que se torna bom. É uma experiência cinematográfica que desafia todas as convenções do que consideramos "cinema de qualidade". É vulgar, ofensivo, incoerente e, acima de tudo, hilário. Não é à toa que o filme se tornou um meme na internet: ele é a personificação do caos, e isso é ao mesmo tempo sua maior falha e seu maior trunfo.
Se você está procurando um filme que faça sentido, que tenha personagens profundos e uma trama bem construída, fique longe de *Um Pistoleiro Chamado Papaco*. Mas se você está disposto a mergulhar de cabeça no absurdo, a rir do politicamente incorreto e a se questionar sobre o que realmente define "arte", então este filme é para você. Afinal, como diz o próprio Papaco: "A vida é como um caixão — você nunca sabe o que vai encontrar dentro." E, caro espectador, dentro desse filme, você encontrará de tudo... menos coerência.