Um trabalho belíssimo, por muitos aspectos.
Como é bom sair de casa e na volta dizer “caramba, valeu a pena”: esta sensação vem revestida da verdade sincera, quando nos propomos as metas pessoais e a satisfação quando é atingida, neste caso, o alvo perfeito!
A produção da jovem cineasta Julia Zakia nos surpreende quase o tempo todo, impossível até para a pipoca, que neste caso ficou encalhada na embalagem. “Meu Deus”, expressão corriqueira ao longo dos seus 80 minutos.
Logo de início levamos uma agradável rasteira quando imaginar que se trata de mais um documentário – nada contra – mas já lá pelos 15 minutos a história adentra o mundo das sombras e dos sonhos, onde realidade se mescla com o mundo fantástico e essa miscelânea de sentimentos nos causa sensação muito agradável pela surpresa!
Fotografia digna das pinturas clássicas mais refinadas, ficamos curiosos e envolvidos para detalhes como a época do contexto e o lugar, quando nos damos conta que isto não teria tanta relevância, momento que nos entregamos a proposta da ousada e competente diretora: liberte sua imaginação e venha!
Direção de arte merece boas referências pela escolha meticulosa dos pertences da tradição cigana e o belo contraste das cores fortes destacadas pelo cinza da caatinga. Eu descobri enfim para que servem todos aqueles livros – não farei spoiller – ideia que estará certamente num de meus roteiros, afinal somos a soma de tudo que vemos e ouvimos.
A bruxa, digo a Condessa perversa aficionada pela juventude que não mede consequências pelo seu elixir e sua perversidade, aplacada pela esperteza da líder cigana. Pesquisa histórica muito afinada e dedicada, uma aula de história oferecida de modo muito chocante e preciso! Resgatar a tenebrosa Condessa de Sangue da Hungria do século XVI deixando exposta a crueldade por detrás da pele perfeita, Elizabeth Bathory, um ser criado num contexto de violência extremada que viu suas irmãs serem assassinadas na sua frente, que ao descobrir que o sangue clareava pele passou se banhar nele, sangue de suas vítimas, evidentemente. Todo clima em torno da bruxa disfarçada de proprietária das terras no entorno nos permite habitar um conto de terror barroco assustador.
O poder metafórico empregado exige atenção e sensibilidade, como as páginas deixadas para trás pela menina, os lobos e seu grupo ou a moeda de duas caras que a menina pega escondida da bruxa, o poder que cada elemento carrega em seu significado profundo, um trabalho muito rico. O dinheiro e a juventude são passageiros mas os sentimentos, estes são atemporais e preservam seu valor através dos tempos.
Uma produção de rara beleza carregado de significados nobres e profundos! *RK.