Clube da Luta (Fight Club)
"Clube da Luta" foi lançado em 1999, dirigido por David Fincher, adaptado por Jim Uhls (roteirista de "Jumper", 2008) e estrelado por Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham Carter. O longa-metragem é baseado no romance de mesmo nome de Chuck Palahniuk de 1996. Um homem deprimido que sofre de insônia conhece um estranho vendedor de sabonetes chamado Tyler Durden (Brad Pitt) e se vê morando em uma casa suja depois que seu perfeito apartamento é destruído. A dupla forma um clube com regras rígidas onde homens lutam. A parceria perfeita é comprometida quando uma mulher, Marla (Helena Bonham Carter), atrai a atenção de Tyler.
Recentemente eu comentei na crítica de "O Sexto Sentido" do quanto o ano de 1999 foi importante e maravilhoso para o cinema, lançando verdadeiras pérolas como o próprio "O Sexto Sentido", "Matrix", "À Espera de um Milagre" "Garota, Interrompida" e "Beleza Americana". E aqui temos mais uma obra-prima daquele ano de ouro para a sétima arte - "Clube da Luta" - simplesmente o melhor filme de toda a carreira do diretor David Fincher.
"Clube da Luta" faz uma crítica ácida à sociedade capitalista e, principalmente, ao modo de vida consumista e vazio que as pessoas acabam levando e que corrói suas almas. Portanto, o longa não traz somente uma crítica severa ao consumismo, mas também abrange o condicionamento social, a masculinidade tóxica, a individualidade, a dualidade, a sociedade caótica, o ódio, a opressão, a ambição e o capitalismo. A mensagem aqui não é propriamente sobre ganhar ou perder. Trata-se antes de combater seus medos internos, seus traumas, suas obsessões e seu grande vilão, você mesmo. A grande briga e o maior desafio na vida acontece dentro de você, ou seja, o nosso maior inimigo somos nós mesmo. Na vida real não há vitórias ou derrotas, porém, precisamos alcançar o nosso equilíbrio mental e espiritual antes de mais nada.
David Fincher foi completamente cirúrgico ao abordar o alter ego, a dualidade, o nosso "eu interior", a libertação dos nossos próprios demônios, ou seja, uma forma de libertação da nossa própria escravidão mental. E justamente dentro desse contexto que encontramos as pessoas que estão aprisionadas em crenças disfuncionais que limitam a forma de enxergar e atuar no mundo. Aos poucos elas vão criando o seu próprio cativeiro mental, encarcerando seus próprios sonhos por conta de ideias que herdaram e que já não servem mais - exatamente como somos apresentados a personalidade dúbia do protagonista, pois ele criou um superego perdedor para se sentir melhor.
Fincher tinha a clara intenção em nos passar um olhar mais crítico, mais ácido, mais dissecado sobre a realidade das mazelas de uma sociedade totalitarista e controlada pelo consumismo. A ideia inicial de Fincher era que seu longa servisse como alusão, como metáfora entre os conflitos de uma sociedade com os conflitos de uma geração baseado em um sistema de valores, principalmente pela violência abordada durante o filme. Exatamente a forma idealizada por Tyler Durden, que acredita ter encontrado uma maneira de viver fora dos limites da sociedade e das regras sem sentido em um mundo caótico.
O maior trunfo do "Clube da Luta" é a forma como é abordada e analisada a personalidade anônima do protagonista (ou Narrador), que nos mostra o homem comum, a personalidade genérica, ou seja, a forma como qualquer pessoa se identifica. O Narrador é apenas um sujeito comum, trabalhando em uma empresa de seguros e levando uma vida confortável, porém vazia e medíocre, o que o leva a viver em uma crise existencial, uma falta de propósito, uma autodestruição imposta por si próprio e por estar preso em uma rotina repetitiva em seu cotidiano (como a maioria das pessoas se identificam). Além da crise existencial que ele enfrenta, outro problema em sua vida é a insônia, que chega a deixá-lo dias sem dormir. Ao longo da trama o Narrador expõe características semelhantes ao Transtorno Dissociativo e de Identidade (TDI), anteriormente conhecido como Transtorno de Personalidade Múltiplas. O Narrador sofre de esquizofrenia, ele elabora uma desestruturação psíquica, alterações comportamentais, sofre uma clivagem no ego, na qual, parte da realidade é substituída por uma alucinação que melhor se relacione com os seus desejos íntimos.
David Fincher, que começou a sua carreira como diretor sendo bastante contestado em "Alien 3" (1992), já nos entregou obras maravilhosas como "O Curioso Caso de Benjamin Button" (2008) e "A Rede Social" (2010). Porém, na minha opinião nada chega perto da proporção e da perfeição que ele atingiu em "Clube da Luta". Fincher desenvolveu um trabalho colossal, apoteótico, como uma direção segura, enérgica, arrojada, onde incluiu um excelente trabalho de câmeras e inúmeros takes bem trabalhados. O diretor usou cerca de 1500 rolos de filme, mais de três vezes do que a quantidade normal utilizada em um filme de 120 minutos - ou seja, um verdadeiro perfeccionismo no maior estilo Stanley Kubrick. O roteirista Jim Uhls adapta perfeitamente a essência presente na obra de Chuck Palahniuk, pois o próprio autor afirmou que o filme é uma boa complementação ao seu livro. E realmente temos aqui um dos maiores e mais importantes roteiros da história do cinema.
Com relação ao elenco, temos aqui um verdadeiro trio de ouro!
Edward Norton (o eterno Incrível Hulk) vive, talvez, um dos seus melhores personagem da carreira. Norton se entregou de corpo e alma para o projeto, se destacando com sua excelente narração, que contou com uma incrível quebra da quarta parede, e por se submeter a perder cerca de 8 quilos para atuar no filme. Ele tinha ganhado muita massa corporal para interpretar um skinhead em seu filme anterior, "A Outra História Americana" (1998). Brad Pitt (que recentemente protagonizou o filme "Trem-Bala") é sem dúvida o melhor personagem do filme. Pitt estava em seu auge, em sua melhor forma, e aqui ele nos impacta com uma belíssima atuação. Pitt e Norton estavam em uma ótima sintonia, ambos se completavam perfeitamente em cena. Tanto que ambos estavam realmente alcoolizados na cena em que seus personagens aparecem bêbados rebatendo bolas de golfe. Helena Bonham Carter (a eterna Bellatrix Lestrange) é uma lady, uma dama, tem uma atuação requintada, peculiar, ao mesmo tempo enérgica e avassaladora. Bonham Carter faz o contraponto perfeito com Norton e Pitt, ela consegue alcançar uma química perfeita com ambos, sempre sendo a peça-chave na história e se destacando notavelmente. Pelo seu ótimo desempenho, Helena Bonham Carter venceu o Empire Award na categoria de Melhor Atriz Britânica, em 2000. Ainda tivemos a participação de Jared Leto (que no mesmo ano esteve em "Garota, Interrompida") como Angel Face, se destacando em uma cena um tanto quanto curiosa.
Tecnicamente o longa de David Fincher é perfeito!
Temos uma excelente trilha sonora bastante arrojada e compenetrada. A fotografia é um show à parte, principalmente durante às cenas de lutas, onde ela se destacava ainda mais em meio aquela violência sem nenhum pudor. Uma direção de arte muito bem organizada. Uma montagem perfeita. Uma edição muito limpa. Uns efeitos sonoros bem destacados. Tecnicamente "Clube da Luta" é uma obra-prima.
Como o ano de 1999 foi o ano responsável por um dos melhores Plot twists da história do cinema - obviamente estou me referindo a obra-prima "O Sexto Sentido" - "Clube da Luta" não fica atrás e também nos entrega um Plot inovador, intrigante, avassalador, daqueles que nos fazem pensar por semanas, daqueles que nos surpreende como um verdadeiro soco no estômago.
A grande reviravolta na trama acontece quando o Narrador (Edward Norton) quer dar um basta nas proporções que o clube tomou. Nesse momento, Tyler Durden (que até então era o Brad Pitt) desaparece e o Narrador descobre que ele e Tyler são a mesma pessoa, fruto do seu distúrbio de personalidade. Tyler, o duplo, criado pela personagem de Norton é uma alucinação, pois, só existe enquanto produção imaginária do seu criador.
"Clube da Luta" foi um filme que ficou conhecido por algumas polêmicas e algumas curiosidades:
Como por exemplo a controvérsia à respeito do nome do Narrador (Norton). Muitos acreditam que ele se chama Jack por causa da frase "I am Jack's...", mas outros argumentam que "Jack" é apenas um apelido que ele escolheu usar após ler o nome em algum lugar. Curiosamente, na época do lançamento, um catálogo promocional foi entregue para a imprensa em que o personagem de Norton era chamado de Jack. Além disso, no roteiro original, Jim Uhls se refere a ele como Jack. Por outro lado, nas legendas originais do filme ele é chamado de Rupert.
"Clube da Luta" foi comparado com os filme "Juventude Transviada" (1955) e "A Primeira Noite de Um Homem" (1967), como um tema de conflito entre a Geração X (que é uma expressão que se refere, segundo alguns, aos indivíduos nascidos entre meados da década de 1960 e o início da década de 1980) e o sistema de valores da publicidade.
O longa de David Fincher ficou estigmatizado aqui no Brasil pelo "Massacre no Morumbi Shopping" em São Paulo, que ocorreu no dia 3 de novembro de 1999. Quando um psicopata efetuou vários disparos que matou 3 pessoas que estavam na sala durante a sessão e feriu outras 4. Naquela época houve uma grande polêmica em cima do filme, pelo fato da sua violência explícita, e a sua capacidade de despertar e incentivar o lado violento das pessoas.
"Clube da Luta" teve inúmeras críticas e recebeu reações polarizadas dos críticos. Além de não atender às expectativas do estúdio nas bilheterias. Foi classificado como um dos filmes mais controversos e discutido da década de 1990. O jornal The Guardian o classificou como um prenúncio de mudança da vida política americana, e descreveu o seu estilo visual como inovador. O filme tornou-se mais tarde um sucesso comercial com o lançamento do DVD, que o estabeleceu como um clássico Cult, e fazendo com que a mídia revisitasse o filme. Em 2009, no décimo aniversário do lançamento do filme, o The New York Times o consagrou de "filme Cult que define o nosso tempo". O longa-metragem é considerado amplamente como um dos maiores e mais influentes filmes de todos os tempos.
Entre várias polêmicas e críticas, o longa de David Fincher obteve apenas uma indicação no primeiro Oscar dos anos 2000 - Melhores Efeitos Sonoros.
Considerado como um verdadeiro clássico moderno desde sua publicação em 1996, "Clube da luta" consagrou Chuck Palahniuk como um dos mais importantes e criativos autores contemporâneos, além do próprio livro como um cânone da cultura Pop. Em 2013, o autor anunciou, durante a edição da ComicCon de São Diego, uma continuação de seu romance homônimo. A continuação foi lançada em maio de 2015, intitulada "Clube da Luta 2". Porém, até o momento, não há nenhum rumor sobre uma possível versão cinematográfica.
"Clube da Luta" continua sendo um filme extremamente popular, e muito por seus arquétipos niilistas, seu humor negro, sua abordagem sobre o alter ego, sobre a crise existencialista, sobre a autodestruição, que envolve uma sociedade consumista e uma masculinidade tóxica. Além, é claro, por provocar nos espectadores reflexões profundas acerca da nossa sociedade e a forma como vivemos.
"Clube da Luta" é um verdadeiro clássico do cinema moderno. Uma verdadeira aula cinematográfica. Um clássico Cult. Uma obra-prima icônica. Uma lenda da sétima arte. Uma obra que está entre os melhores filmes dos saudosos anos 90, e entre os melhores filmes de todos os tempos.
"Clube da Luta" foi lançado no Brasil dia 29/10/1999. Temos aqui um aniversário de 23 anos de lançamento.
[28/10/2022]