Inspirar-se nas histórias da Bíblia para escrever um roteiro de cinema não foi e nunca será das tarefas mais fáceis. Certamente despertará a ira, o questionamento e a admiração em proporções que desconhecemos. Não é diferente com Êxodo: Deuses e Reis, nome para a atual versão da saga de Moisés.
O roteiro escrito por Adam Cooper, Bill Collage e Steven Zaillian tem o mérito de apresentar uma faceta diferente de Moisés: profundo conhecedor das artes da guerra e general à altura de Ramsés, futuro faraó do Egito. O faraó Seti (John Turturro), embora desconfie da capacidade do filho em sucedê-lo, não poderá mudar a ordem natural das coisas. Após a ascensão de Ramsés, descobre-se que Moisés é hebreu. Ele é exilado e a história já conhecida não cai na mesmice porque, ao reconhecer-se líder dos hebreus, Moisés não espera a ação divina e busca por ele mesmo as formas de libertar seu povo.
Ensina e aplica táticas de guerrilha para desestabilizar a ordem instituída, algo bem diferente do filme Os dez mandamentos, de 1956, dirigido por Cecil B. DeMille, em que a personagem Moisés é um mensageiro quase em êxtase que se limita a comunicar as determinações do Onipotente. DeMille captura o público pela emoção, ao passo que Ridley Scott instiga pelo aspecto racional, representado em seu Moisés, homem que não entende as ações da divindade e se permite o direito da dúvida, assim como o homem contemporâneo, repleto de incertezas.
E, se a produção grandiosa de DeMille será sempre lembrada, o diretor Ridley Scott também tem seu lugar garantido na memória do cinema. Scott estudou fotografia no Royal College of Art e sua experiência como designer de cenário para a BBC, nos anos 60, garante um precioso cuidado com a produção de arte. Belíssimos cenários e majestosos enquadramentos se ligam a sequencias de tirar o fôlego. Esse é mais um trunfo do filme. Ao recriar com imenso realismo as cenas em que Deus manda suas pragas ao povo egípcio, o diretor coloca o público no ponto de vista de Moisés, que dúvida da coerência das ações divinas, ao causar tantas desgraças ao povo egípcio apenas para dobrar o faraó Ramsés.
O elenco conta com a convincente interpretação de Christian Bale (Batman), que compõe um Moisés muito humano. O ator australiano Joel Edgerton cria um Ramsés inseguro, como o roteiro provavelmente exigia - porém, o faz sem brilho. Embora o casting tenha boas atrizes, como a israelense Hiam Abbas (Bithiah), a iraniana Golshifteh Farahani (Nefertari), a espanhola María Valverde (Séfora) e a veterana Sigourney Weaver (Tuya, mãe de Ramsés), o elenco feminino não tem a mesma força dramática e importância na trama, conduzida pelas personagens masculinas.
Apesar disso, Êxodo: Deuses e Reis é um bom programa para a sala escura, e aqueles que optarem pela versão 3D não se arrependerão do espetáculo visual. Confira na telona!